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22 de Outubro de 2026

22 de Outubro de 2026, 18h:13 - A | A

POLÍTICA / OPERAÇÃO CATHEDRA VENALIS

Vereadores de Várzea Grande movimentaram mais de R$ 9 milhões, segundo relatório do Coaf

Relatório técnico do Coaf revela transações, empréstimos e conexões com ex-secretários de Estado em inquérito que apura extorsão, chantagem e tentativa de controle da Câmara Municipal.

Reprodução

Relatório sigiloso do Gaeco revela que depoimento de informante com identidade preservada funcionou como mapa do tesouro.

Relatório sigiloso do Gaeco revela que depoimento de informante com identidade preservada funcionou como mapa do tesouro.

ANA ADÉLIA JÁCOMO
DO REPÓRTERMT



A investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), no âmbito da Operação Cathedra Venalis, expôs um complexo esquema de movimentações financeiras atípicas de vereadores da Câmara Municipal de Várzea Grande.

De acordo com a análise técnica de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), os alvos da operação movimentaram um montante superior a R$ 9 milhões ao longo dos últimos cinco anos.

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O inquérito, instaurado a partir de denúncia anônima, apura a suposta atuação de uma organização criminosa voltada à prática de delitos como ameaça, extorsão, chantagem, corrupção e cooptação de apoio político.

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Entre os objetivos do grupo estaria a manutenção da presidência da Câmara Municipal e o controle administrativo de órgãos estratégicos, a exemplo do Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE), especialmente de olho em eventuais processos de concessão ou privatização da autarquia.

O material técnico destrinchado pelo Gaeco expõe um padrão de circulação de recursos que mescla transferências entre contas próprias, intensa utilização de dinheiro vivo, transações imobiliárias atípicas, contratos de crédito e, sobretudo, ramificações com figuras de projeção no cenário político e empresarial do Estado.

O cerco financeiro

Um dos pontos que mais chamam a atenção no relatório do Coaf é o cruzamento de dados com nomes de peso da política e do setor empresarial mato-grossense. No núcleo ligado ao suplente Flávio de Oliveira Silva (conhecido como "Flavinho da VG", suplente e sobrinho da vereadora Lucélia Oliveira), as transações financeiras, patrimoniais e de crédito, que incluem uma cédula de crédito de R$ 850 mil e a venda de um imóvel por R$ 472,2 mil com parcela expressiva em espécie, cruzaram dados com Nilton Borges Borgato, ex-prefeito de Glória D'Oeste e ex-secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secitec), além de Gheysa Maria Bonfim Borgato.

Borgato foi preso em 2022 pela Polícia Federal na Operação Descobrimento. A investigação desbaratou um esquema de tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro, tendo como pivô a apreensão de meia tonelada de cocaína em um avião executivo no Aeroporto de Salvador.

RpMT/PF

BORGATO AVIAO COCAINA

Nilton Borgato foi preso em 2022 preso pela Polícia Federal na Operação Descobrimento. A investigação desbaratou um esquema de tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.

Outro eixo que sobressai nas investigações envolve transações recorrentes associadas a Gilson Piovezan, cujos nomes aparecem cruzando dados com parlamentares como Kleberton Feitoza (PSB), cuja conta empresarial registrou faturamento chegando a quase R$ 1 milhão em períodos específicos, Raul Curvo (Republicanos) e Cilço da Cruz (PV).

No caso de Cilço, a movimentação direta de mais de R$ 713 mil teve como um dos destaques um fluxo de R$ 621,6 mil com a empresa Grampo Segurança e Monitoramento Ltda., que concentrava entradas de empresas de engenharia e saídas para pessoas físicas.

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Os métodos de ocultação

O relatório do GAECO detalha individualmente o comportamento financeiro dos agentes públicos investigados, escancarando métodos que dificultam o rastreamento da origem e do destino final dos recursos.

Dr. Miguel (Cidadania) lidera o volume de movimentação pessoal direta nos relatórios, acumulando R$ 3.170.953,00. A engenharia financeira do grupo incluiu fluxos cruzados com o CEMED-VG, organização que recebia repasses de fundos municipais e direcionava pagamentos ao próprio investigado, a familiares e a outros agentes públicos.

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Sargento Galibert (PSB) apresentou uma movimentação de R$ 427,1 mil, mas o grande alerta recai sobre o uso de dinheiro vivo. Foram identificados 79 saques em espécie que totalizaram R$ 199,4 mil, representando cerca de 92% dos débitos da conta e blindando a identificação da destinação final dos valores. O parlamentar também chamou atenção ao adquirir dois imóveis declarados por um valor conjunto de R$ 10 mil, quantia mais de 82% inferior à avaliação fiscal da época.

Wanderley Cerqueira (MDB), presidente da Câmara, e embora sua conta direta tenha registrado R$ 22,8 mil, o inquérito esmiuçou o núcleo familiar e de assessores. Um servidor comissionado ligado ao grupo e um sobrinho do presidente movimentaram juntos cifras milionárias, com destaque para a conta do sobrinho, que registrou um giro global de mais de R$ 2,1 milhões.

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Gisa Barros (Podemos) registrou R$ 153,3 mil em operações em espécie, impulsionadas principalmente por um único saque de R$ 150 mil que foi justificado genericamente como "pagamento de contas", sem a individualização de beneficiários ou obrigações quitadas.

Enfermeiro Emerson (PP) movimentou R$ 178,8 mil em outubro de 2025, com depósitos em espécie (R$ 79,1 mil) e repasses oriundos do setor de apostas online (Kaizen Gaming Brasil Ltda.), gerando alertas de incompatibilidade patrimonial pelas instituições financeiras.

Wender Madureira (Republicanos), aparece com uma cédula de crédito de R$ 192,6 mil, Braz Jaciro (PSDB), além de Lucélia Oliveira (Agir) e Alessandro Moreira (MDB), cujas contas diretas não apresentaram individualização de RIFs próprios, mas entram na linha de apuração por vínculos políticos e familiares, completam o escopo do inquérito conduzido pelo Ministério Público.

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Próximos passos

O material consolidados pelo Gaeco serve como base de inteligência financeira e continuará a ser cruzado com depoimentos, quebras de sigilo telemático e demais diligências do Procedimento Investigatório Criminal.

O objetivo do órgão ministerial é confrontar os dados do Coaf com a realidade fiscal dos vereadores para comprovar se os milhões movimentados serviram de moeda de troca para o esquema de loteamento político e corrupção investigado em Várzea Grande.

Relação dos parlamentares e alvos investigados:

Wanderley Cerqueira (MDB) – Presidente da Câmara

Gisa Barros (Podemos)

Rogerinho Dakar (PSDB) – Ex-presidente do DAE-VG / Suplente

Cilço da Cruz (PV)

Braz Jaciro (PSDB)

Alecsand / Alessandro Moreira (MDB)

Wender Madureira (Republicanos)

Sargento Galibert (PSB)

Dr. Miguel (Cidadania)

Lucélia Oliveira (Agir)

Kleberton Feitoza (PSB)

Raul Curvo (Republicanos)

Enfermeiro Emerson (PP)

Vereadores de Cuiabá alvos da operação:

Alex Rodrigues (Podemos)

Ilde Taques (Podemos)

Servidores de Várzea Grande:

Lorineide – diretora financeira da Câmara

Samir Katumata (PL) – secretário legislativo e suplente

Entenda o caso

Em maio, uma denúncia anônima protocolada junto ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) detalhou a criação de um suposto "quartel-general" da corrupção para garantir o resultado da eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Várzea Grande.

Segundo o documento apurado pelo  na época, a articulação era liderada pelo presidente da Casa, Wanderley Cerqueira (MDB). O plano consistia em manter 12 vereadores em regime de confinamento e sob escolta de policiais à paisana em uma chácara localizada no distrito de Nossa Senhora da Guia, em Cuiabá.

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A propriedade pertence ao vereador Dr. Miguel (Cidadania) e o isolamento servia para aguardar a data da sessão que definiria o comando do Legislativo.

A denúncia repassada ao Ministério Público também alertou para a circulação de um grande volume de dinheiro em espécie no local, supostamente destinado à compra de votos.

Além da disputa pela presidência da Câmara, o documento apontava que o objetivo da organização ia além: o plano do grupo envolvia forçar a cassação da prefeita Flávia Moretti (PL) para assumir o controle total do município, com foco estratégico em um pré-acordo de propinas e acertos voltado para a bilionária privatização do DAE (Departamento de Água e Esgoto).

 

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