LEONARDO GARCIA
No mês de agosto deste ano, o Brasil teve deflação. O IPCA recuou 0,32% no período — queda mais intensa do que o mercado esperava — e a inflação em doze meses cedeu para 4,22%. No supermercado, o alívio foi nítido: a alimentação no domicílio caiu 0,61%, com batata (−19,9%), cenoura (−11,2%), cebola (−11,1%) e tomate (−10,9%) puxando os preços para baixo. Contudo, uma linha do índice andou na direção contrária. A alimentação fora do domicílio subiu 0,36%. É sobre esse índice que devemos aprofundar entendimento.
Não se trata de ruído de um mês. Em doze meses, a alimentação fora do domicílio acumula alta de 5,99% — contra 3,62% do grupo Alimentação e bebidas como um todo e 4,24% do índice cheio. Comer fora de casa é hoje a linha que mais sobe na cesta alimentar do brasileiro, e sobe quase o dobro do restante dela. Essa divergência tem um endereço preciso na economia real: o intervalo de almoço do trabalhador formal. E ajuda a explicar a razão pela qual a alimentação corporativa saiu da pauta administrativa da folha e entrou na mesa de diretoria.
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A erosão do benefício acompanha a curva. Levantamento da Pluxee com base em transações reais aponta valor facial médio de R$ 583,75 no vale-refeição no primeiro semestre de 2026, valor suficiente para cobrir nove dias úteis do mês. Em 2019, o mesmo benefício cobria dezoito. Em 2022 eram treze; em 2023, onze; em 2024, dez. É redução ano após ano.
A aritmética por trás da queda é direta: o benefício cresceu 1,5% no período, enquanto o valor médio da refeição paga com ele subiu 4,3%, para R$ 44,69. A diferença sai do bolso do trabalhador. Segundo o mesmo estudo, ele desembolsa por conta própria cerca de 101% a mais do que recebe de crédito para fechar o mês.
O benefício, assim, deixou de financiar o almoço e passou a subsidiá-lo parcialmente. E quando o subsídio encolhe, a variável de ajuste raramente é o número de refeições: é a qualidade delas. Troca-se o prato balanceado pelo mais barato, o mais barato pelo ultraprocessado e, em alguns dias, pula-se a refeição.
É nesse ponto que o tema sai do departamento de benefícios e entra na operação.
O Vigitel mais recente registra 62,6% dos adultos brasileiros com excesso de peso e 25,7% com obesidade — o dobro de 2006. Apenas 31,4% consomem frutas e hortaliças regularmente. Diabetes atinge 12,9% da população; hipertensão, 29,7%. Nenhum desses indicadores se explica apenas pelo almoço do expediente, mas todos passam por ele: para quem cumpre jornada integral, é a refeição principal do dia.
A relação com produtividade está documentada há duas décadas. O estudo Food at Work, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), estima que nutrição adequada pode elevar níveis de produtividade em até 20% e registra que trabalhadores obesos têm cerca do dobro de probabilidade de faltar ao trabalho. Não é um argumento moral sobre hábitos alimentares. É contabilidade de absenteísmo, sinistralidade de plano de saúde e rotatividade.
Empresas que fazem essa conta chegam a uma conclusão contraintuitiva: cortar o custo por refeição costuma ser a forma mais cara de economizar. E é nesse contexto que devemos destacar o setor de refeições coletivas — restaurantes corporativos, cozinhas industriais, catering e seu potencial.
O segmento serviu 40,5 milhões de refeições por dia no Brasil em 2025, incluindo alimentação escolar, movimentou R$ 41,1 bilhões e empregou 290 mil pessoas de forma direta, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Refeições Coletivas (ABERC). É uma infraestrutura de escala, com nutricionista, controle de segurança alimentar e cardápio desenhado, e que agora compete com um mercado de vouchers em plena reconfiguração regulatória.
O Decreto 12.712, de novembro de 2025, mexeu nas engrenagens do Programa de Alimentação do Trabalhador, que alcança mais de 22 milhões de trabalhadores. Teto de 3,6% para a taxa cobrada dos estabelecimentos, repasse em até 15 dias e, a partir de novembro de 2026, interoperabilidade obrigatória entre bandeiras. O efeito prático é deslocar a disputa: de quem emite o cartão para o que o cartão compra.
Estamos diante de um movimento que pode se consolidar de vez. Durante três décadas, a alimentação corporativa foi tratada como custo por colaborador. A pergunta era quanto. Com o benefício cobrindo nove dias e comer fora subindo 5,99% ao ano enquanto o resto da economia desinflaciona, a pergunta virou outra: o que exatamente esse dinheiro alimenta.
Um vale que compra nove almoços decentes e vinte e um improvisos não é o mesmo benefício que uma refeição completa, quente e nutricionalmente equilibrada oferece, cinco dias por semana. Os dois ocupam a mesma linha do balanço. Não produzem o mesmo resultado — nem na saúde de quem come, nem no indicador de quem paga.
Leonardo Garcia é presidente da Consuma Gastronomia













