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Fernando Bray é médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde
FERNANDO BRAY
A gestação é um período marcado por intensas transformações físicas, hormonais e emocionais na vida da mulher. Entre tantas novidades e cuidados voltados para a saúde, um problema que surge com frequência nesse período de gravidez são as hemorroidas. Apesar de ser algo comum, é algo que afeta bastante as futuras mães e é pouco falado nos consultórios. O sofrimento em silêncio por muitas mulheres é relacionado ao constrangimento e pudor, o que se transforma em negligência dos sintomas no momento que o foco quase sempre se volta exclusivamente para o pré-natal e para a chegada da criança.
Contudo, por ser uma das intercorrências mais frequentes ao longo da gravidez e do pós-parto, é fundamental que a gestante receba orientação sem receios e trate esse tipo de problema. Falar dele, nesse sentido, é essencial.
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A alta incidência das hemorroidas no período gestacional se deve a uma combinação de fatores anatômicos, hormonais e mecânicos que alteram a circulação e o funcionamento do organismo feminino. Um desses fatores é a compressão venosa e represamento de sangue. Conforme o feto se desenvolve, o útero aumenta consideravelmente de tamanho e passa a comprimir as veias da região pélvica e das pernas, dificultando a drenagem do sangue, que fica represado na pélvis. A consequência é a dilatação dos vasos sanguíneos ao redor do ânus.
A pressão direta na pélvis é outro fator que desencadeia as hemorroidas nas grávidas. A acomodação da cabeça do bebê na pélvis gera uma pressão contínua e progressiva sobre as estruturas locais, incluindo o reto e a bexiga.
Nesse rol de fatores, também há a ação hormonal e o intestino preso, já que a elevação dos níveis do hormônio progesterona reduz o peristaltismo - os movimentos naturais do intestino -, tornando o trânsito intestinal mais lento. O resultado é a prisão de ventre, que deixa as fezes mais endurecidas e em formato de "bolinhas". O esforço para evacuar e o atrito causado por fezes ressecadas elevam a pressão nos vasos anais, servindo como o gatilho perfeito para o aparecimento ou o agravamento das hemorroidas.
Independentemente do fator causador, os sintomas costumam incluir sangramento, dor intensa, inchaço e a formação de nódulos dolorosos.
Nesse assunto tão pouco falado, é importante também destacar que esse tipo de crise pode surgir em diferentes etapas e afetar mulheres com histórico prévio ou que nunca apresentaram a condição. Assim, mulheres que já tinham predisposição ou histórico de hemorroidas tendem a vivenciar quadros mais severos devido aos fatores mecânicos da gestação. Por outro lado, pacientes sem histórico prévio costumam apresentar os primeiros sintomas principalmente no terceiro trimestre, fase em que o útero atinge seu tamanho máximo e o bebê ocupa grande parte da cavidade pélvica, pressionando os vasos.
Há, ainda, gestantes que passam pela crise no momento do parto, como consequência do esforço físico. Um período expulsivo prolongado no parto vaginal ou o uso de instrumentos de auxílio, como o fórceps, exercem forte pressão sobre o canal anal, podendo precipitar crises logo após o nascimento do bebê.
Problema descrito, agora é a vez de tratar sobre os tratamentos possíveis. Hoje, existem abordagens seguras e eficazes pensadas para aliviar o desconforto sem colocar em risco a saúde do bebê. A manutenção de cuidados locais e a mudança de hábitos fazem parte dessa abordagem, tendo como prioridade o combate à constipação e redução do atrito local. Para isso, recomenda-se ajustar a dieta para aumentar a ingestão de fibras e água, além de adotar medidas de higiene suave, como banhos de assento e evitar o uso de papel higiênico.
O uso de pomadas e medicamentos de ação local é outra ação de tratamento, mas que devem ser prescritas com rigor médico, de modo que sejam selecionadas opções tópicas que não ultrapassam a barreira placentária e que não passam para o leite materno, garantindo total segurança durante a gestação e a amamentação.
Caso a paciente desenvolva quadros mais sérios, como uma trombose hemorroidária volumosa ou dor incapacitante, é possível recorrer a procedimentos minimamente invasivos. Entre eles, estão a drenagem de coágulos, realizada sob anestesia local para alívio imediato da dor; o laser de fotomodulação, que acelera a redução do inchaço e da inflamação; além de procedimentos a laser e radiofrequência, técnicas modernas e direcionadas que ajudam no controle dos sintomas de forma rápida e segura.
Apesar do assunto ser pouco tratado pelas gestantes, ele é algo que deve ser cuidado, uma vez que impacta diretamente no bem-estar e na qualidade de vida da mãe, justamente nesse momento tão especial que é a gravidez. As hemorroidas na gravidez não devem ser evitadas. Ao notar os primeiros sinais de desconforto ou sangramento, a gestante deve conversar abertamente com seu obstetra ou consultar um especialista para receber as orientações adequadas.
Fernando Bray é médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde












