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03 de Dezembro de 2016, 16h:00 - A | A

POLÍCIA / TREINAMENTO FATAL

Exame descarta diagnóstico de aneurisma em aluno do Corpo de Bombeiros

Os laudos foram apresentados durante depoimento do médico Roger Medeiros, que ficou responsável pelo tratamento de Rodrigo Claro, morto após treinamento.

LUIS VINICIUS
DA REDAÇÃO



Um laudo médico entregue à Polícia Civil descarta o diagnóstico de aneurisma cerebral como causa da morte do aluno do Corpo de Bombeiros, Rodrigo Patrício Lima Claro, 21.

Ele morreu no dia 15 de novembro, cinco dias após ser internado numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Policlínica do bairro Verdão, por passar mal no treinamento de atividades aquáticas da corporação, na Lagoa Trevisan, em Cuiabá.

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Um exame de angiografia cerebral, feito por médicos do Hospital Jardim Cuiabá, onde ele foi submetido a uma cirurgia, aponta que o aluno não tinha evidências de malformações ou dilatação aneurismáticas.

O documento contesta as hipóteses levantadas por autoridades policiais, de que Rodrigo tinha alguma doença pré-existente, antes de ingressar no 16º Curso de Formação de Soldados do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso.

O resultado do exame foi apresentado durante depoimento do médico Roger Thomaz Rotta Medeiros, que ficou responsável pelo tratamento de Rodrigo, nos cinco dias em que ele ficou internado em coma, no Hospital Jardim Cuiabá.

Medeiros prestou depoimento, na manhã de quinta-feira (1º), à delegada Juliana Chiquito Palhares, na Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Além do médico, também foi ouvido o primeiro profissional que atendeu o aluno na Policlínica do Verdão. A reportagem, no entanto, não teve acesso ao depoimento dos médicos.

Excessos no treinamento

O advogado Júlio César Lopes da Silva, que faz a defesa da família de Rodrigo, disse que agora só faltam os laudos finais da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), para comprovar que aluno foi vítima de "excessos" por parte da instrutora do treinamento, a tenente Izadora Ledur.

“Esses exames foram feitos pelo Hospital Jardim Cuiabá, na época em que o Rodrigo estava internado. Ele realizou vários exames, como tomografia e angiografia, e nenhuma patologia foi detectada. Os atestados que os profissionais entregaram à delegada descartam a possibilidade de o aluno ter tido o aneurisma, hipótese levantada pelas autoridades. Eu tive acesso aos laudos médicos que foram apresentados pelos médicos na delegacia. Agora, faltam apenas os laudos do IML para comprovar o que realmente aconteceu no dia em que Rodrigo passou mal", disse Júlio César Lopes ao .

Para o advogado, não há dúvida de que o documento contesta uma das hipóteses levantadas pelo secretário de Segurança Pública, Rogers Jarbas.

Em uma entrevista exclusiva ao , na última semana, o secretário afirmou que existiam fortes indícios de que Rodrigo tinha alguma doença pré-existente, antes de entrar no curso de formação.

“Nós só podemos afirmar que houve um equívoco a partir do laudo do Instituto Médico Legal (IML). Eles estão fazendo um estudo para saber se ele tinha ou não uma doença pré-existente. Se ele já tinha essa patologia, e há fortes indícios para isso, eu não posso dizer que houve falha no treinamento. Agora, se ele não tinha essa doença e se isso foi ocasionado por atividades do treinamento, aí eu tenho uma evidência para mostrar que o treinamento está errado” disse o secretário, à época.

Alunos acusam tenente

O advogado Júlio César Lopes lembrou, ainda, que todos os alunos que participaram do treinamento do Corpo de Bombeiros afirmaram, em depoimento à Polícia Civil, que Rodrigo passou por sessões de afogamento por parte da tenente Izadora Ledur.

“Nesta semana, tivemos o depoimento dos alunos que presenciaram o fato e eles foram enfáticos em dizer que houve os denominados ‘caldos’. Com isso, a gente não pode falar que é incontroverso porque estamos em fase de inquérito. Mas, há muitos indícios de que ele sofreu excesso de seus instrutores”, disse.

De acordo com o advogado, pelo menos 95% das testemunhas já foram ouvidas, tanto no Inquérito Policial Militar (IMP), quando nas investigações da Polícia Civil.

“Cerca de 18 pessoas prestaram depoimento, isso entre alunos e instrutores. Acredito que até o dia 20 as investigações estejam concluídas”, completou.

Relembre o caso

No dia 11 de novembro, Rodrigo queixou-se de dor de cabeça, durante a realização das aulas.

O aluno realizava uma travessia a nado na Lagoa Trevisan e, quando chegou à margem, informou à instrutora que não conseguiria terminar a aula.

Em seguida, segundo os bombeiros, ele foi liberado e retornou ao batalhão, no bairro Verdão, e se apresentou à coordenação do curso para relatar o problema de saúde. O jovem foi encaminhado a uma unidade de saúde e sofreu convulsões.

No dia em que passou mal, Rodrigo relatou à mãe sua angústia em participar das aulas práticas comandada pela tenente Isadora Ledur.

Em uma das mensagens no aplicativo WhatsApp, enviadas para a mãe, ele disse que estava “meio que prometido”. E a sua mãe disse que tudo seria “somente pressão”.

Na conversa por meio do aplicativo, Rodrigo afirma que a tenente Isadora estava "pegando em seu pé". “E hoje ela vai tá lá. Por isso fico com medo”, escreveu o rapaz, na mensagem.

Após o treinamento, Rodrigo voltou a conversar com a mãe. A última mensagem que Jane teve com o filho foi ao final do dia, antes de ser internado em coma. “Não consegui. Estou mal. Vou para a coordenação”, teria dito Rodrigo à mãe.

Depois disso, Jane só foi comunicada que Rodrigo tinha tido duas convulsões e que seria transferido para um hospital particular.

O rapaz ficou em coma até na madrugada de quarta-feira (16), quando foi confirmada sua morte.

Diante disso, a família do aluno acusa a tenente de tortura e aponta omissão de socorro da corporação em relação ao mal-estar que Rodrigo sentiu ainda na Lagoa Trevisan.

“No início da travessia, pelo que me foi passado pelos colegas, a menos de dez metros que ele estava nadando na lagoa para fazer a travessia, a tenente começou a afoga-lo, segurando na cintura dele e levando para o fundo da lagoa”, afirma Jane Patrícia, mãe de Rodrigo.

 

Confira a íntegra do exame de angiografia cerebral, feito no Hospital Jardim Cuiabá:

 

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