ANA ADÉLIA JÁCOMO
KARINE ARRUDA
Alvo da Operação Cathedra Venalis, deflagrada nessa terça-feira (20) pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado), o presidente da Câmara Municipal, Wanderley Cerqueira (MDB), é apontado em inquérito como o autor de uma declaração que escancara um plano de corrupção e desmonte na administração pública: "Eu vou exonerar a prefeita, vender o DAE e nós vamos repartir o dinheiro".
De acordo com os autos do processo, a frase foi captada no âmbito de investigações que detalham uma engrenagem criminosa para assegurar a recondução de Wanderley ao comando da Mesa Diretora. Para blindar seu projeto de poder, o parlamentar teria prometido vantagens financeiras aos colegas de parlamento.
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A apuração conduzida pelos órgãos de controle aponta que o esquema contava com a promessa de repasses individuais de R$ 500 mil a cada vereador. Conforme a denúncia, além da bolada, o plano previa o pagamento regular de uma mesada de R$ 10 mil, o chamado "mensalinho", em conjunto com a distribuição de cargos comissionados na Casa de Leis e a exigência de cartas de renúncia em branco assinadas pelos parlamentares aliciados.
O material probatório entregue aos investigadores por uma testemunha inclui mídias de armazenamento, registros bancários, notas fiscais e vídeos comprometedores. Em um dos trechos destacados no inquérito, o então diretor-presidente do DAE-VG (Departamento de Água e Esgoto), o Rogerinho da Dakar (PSDB), aparece em imagens recebendo maços de dinheiro dentro de um escritório, episódio que culminou em sua exoneração pela prefeita Flávia Moretti (PL).
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O plano contra a prefeita
O plano articulado pelo grupo liderado por Wanderley ia muito além da disputa interna na Câmara. Segundo os relatos colhidos pelo Gaeco, o objetivo final da manobra para cassar o mandato da prefeita Flávia Moretti era abrir caminho para que o próprio Wanderley assumisse o comando do Poder Executivo municipal, uma vez que o vice-prefeito Tião da Zaeli já havia renunciado ao cargo.
Com a cadeira principal da prefeitura sob seu controle, a meta principal seria viabilizar rapidamente a concessão ou privatização do DAE-VG.
Além do apetite sobre a autarquia de água e esgoto, as investigações colocam sob suspeita os acordos políticos firmados com o setor de transportes. Relatórios apontam tratativas entre o presidente do Legislativo e Rômulo Botelho, sócio da União Transportes e Turismo Ltda., concessionária do transporte coletivo.
O acerto visava blindar a empresa contra fiscalizações e barrar a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara, manobra que chegou a ser amparada por uma decisão judicial do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) em agosto.
A operação mobilizou equipes para cumprir 30 mandados de busca e apreensão em Várzea Grande, Cuiabá e Chapada dos Guimarães, mirando 12 vereadores várzea-grandenses, dois parlamentares da capital (Ilde Taques e Alex Rodrigues, ambos do Podemos) e servidores da cúpula legislativa.
Relação dos parlamentares e alvos investigados:
Wanderley Cerqueira (MDB) – Presidente da Câmara
Gisa Barros (Podemos)
Rogerinho Dakar (PSDB) – Ex-presidente do DAE-VG / Suplente
Cilço da Cruz (PV)
Braz Jaciro (PSDB)
Alecsand / Alessandro Moreira (MDB)
Wender Madureira (Republicanos)
Sargento Galibert (PSB)
Dr. Miguel (Cidadania)
Lucélia Oliveira (Agir)
Kleberton Feitoza (PSB)
Raul Curvo (Republicanos)
Enfermeiro Emerson (PP)
Vereadores de Cuiabá alvos da operação:
Alex Rodrigues (Podemos)
Ilde Taques (Podemos)
Servidores de Várzea Grande:
Lorineide – diretora financeira da Câmara
Samir Katumata (PL) – secretário legislativo e suplente
Entenda o caso
Em maio, uma denúncia anônima protocolada junto ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) detalhou a criação de um suposto "quartel-general" da corrupção para garantir o resultado da eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Várzea Grande.
Segundo o documento apurado pelo
na época, a articulação era liderada pelo presidente da Casa, Wanderley Cerqueira (MDB). O plano consistia em manter 12 vereadores em regime de confinamento e sob escolta de policiais à paisana em uma chácara localizada no distrito de Nossa Senhora da Guia, em Cuiabá.
Drone do Gaeco flagrou reunião de vereadores em chácara antes de eleição da Câmara de VG
A propriedade pertence ao vereador Dr. Miguel (Cidadania) e o isolamento servia para aguardar a data da sessão que definiria o comando do Legislativo.
A denúncia repassada ao Ministério Público também alertou para a circulação de um grande volume de dinheiro em espécie no local, supostamente destinado à compra de votos.
Além da disputa pela presidência da Câmara, o documento apontava que o objetivo da organização ia além: o plano do grupo envolvia forçar a cassação da prefeita Flávia Moretti (PL) para assumir o controle total do município, com foco estratégico em um pré-acordo de propinas e acertos voltado para a bilionária privatização do DAE (Departamento de Água e Esgoto).



















