ROBERTO BOAVENTURA SÁ
Poucos neologismos foram tão bem concebidos como o termo “PTcracia”: peculiar forma petista de governar. Não é ditadura. Parece, mas não é democracia. Então, “o que é isso, companheiro”?
Na dificuldade da conceituação da PTcracia, a prática do Mensalão resume parte do estilo PT de mandar e desmandar. Não detalharei isso aqui, até porque quem ainda não entendeu o Mensalão – explodido e desenvolvido com Lula na Presidência – tem problemas cognitivos.
Nesse caso, um conselho: continue a ver novelas; a vibrar pelo time do coração ou a torcer para que o Brasil – pelo menos nas Olimpíadas – não fique nas mesmas posições do ranking mundial da educação.
Em clima de julgamento do Mensalão e das Olimpíadas, escrevo este artigo logo após nossa “dama de ferro tupiniquim” ter encerrado algo que nem chegou a começar: negociação da pauta de nossa greve. Como é sabido, universidades e institutos federais estão em greve desde 17/05.
Nesse período, nas duas reuniões ocorridas, o governo Dilma/PT não considerou nada do que solicitamos. Nada! Fui claro?
Na primeira reunião, realizada dois meses após o início da greve, o governo apresentou sua proposta, que era ofensiva à inteligência média. Resultado: rejeição por unanimidade. Na segunda reunião, tentou reparar bizarrices da primeira proposta. Nova rejeição; agora não por unanimidade, mas por ampla e digna maioria.
Mas por que duas ou três unidades aceitaram a humilhação que o governo quer nos impor, jogando a “batata quente” ao Congresso Nacional? Porque elas estão ainda mais sufocadas pela atuação de agentes do PT. Não que nas demais unidades, como a UFMT, esses agentes não existam. Existem. Todavia, com uma inserção social de fazer dó.
Em geral, são seres desprezíveis acadêmica e humanamente, mesmo e principalmente quando ocupam cargos.
Assim, a greve tende a continuar, podendo até ser radicalizada, mesmo sob ameaça de cortes de salários; afinal, a base da categoria parece, enfim, ter compreendido a dramática situação.
Por que as bases do Andes (Sindicato dos docentes das universidades), do Sinasef (dos Institutos Federais) e até de algumas instituições dominadas pelo Proifes (“sindicato” dos docentes petistas e aliados) estão fortes na greve?
Porque além de reivindicações objetivas (como reajuste salarial, melhoria das condições de trabalho e reestruturação do Plano de Carreira) há algo de subjetivo sendo pedido.
Como? Simples: porque junto com essas perdas, perdemos a autonomia; logo, perdemos a dignidade na profissão. Contudo, para a felicidade geral da nação, mesmo que a nação não compreenda isso agora, estamos coletivamente percebendo a dimensão dessas perdas iniciadas em 1990, com Collor. E quando se perde a dignidade pouca coisa tem importância.
Mas não quero filosofar sobre a perda da dignidade. Quero lamentar o autoritarismo do governo petista, que já está pressionando os gestores/reitores a fazer – a qualquer custo – tudo voltar à normalidade.
Por aqui, precisamos ser fortes; afinal, conforme palavras de Gabriel N. Neves, fundador e ex-reitor da UFMT, em entrevista ao MidiaNews (23/07/12), nossa universidade “virou partido nanico da base do governo”. Por isso, “virou uma repartição pública, igual aos Correios e a qualquer outra. E ela começou a morrer no dia em que perdeu a autonomia”. Corretíssimo, professor!
Por isso, leitores, esta greve é momento decisivo à Carreira Docente, à Universidade. Nossa honra profissional está em jogo. O futuro da Universidade está em jogo. O futuro do País está em jogo. E tudo isso sendo jogado num governo PTcrático.
ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é doutor em Jornalismo pela USP e professor de Literatura na UFMT.
A redação do RepórterMT não se responsabiliza pelos artigos e conceitos assinados, aos quais representam a opinião pessoal do autor.
>>> Receba as principais notícias de Mato Grosso em primeira mão. Clique aqui!







