ANA ADÉLIA JÁCOMO
DO REPÓRTERMT
Citado no relatório do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) como um dos articuladores e apoio de bastidor do grupo investigado na Câmara Municipal de Várzea Grande, o presidente do Sistema Fecomércio-MT (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Mato Grosso) e ex-vice-prefeito Sebastião dos Reis Gonçalves, o Tião da Zaeli, enviou uma nota de esclarecimento à imprensa.
No comunicado, Zaeli nega categoricamente as acusações apontadas nos autos do inquérito. Ele é apontado como um dos principais articuladores do presidente da Câmara, Wanderley Cerqueira (MDB), principal opositor de Flávia. "O ex-vice-prefeito de Várzea Grande, Sebastião dos Reis Gonçalves, Tião da Zaeli, nega categoricamente as acusações a ele atribuídas, afirmando que são infundadas e não correspondem à realidade dos fatos", diz trecho da nota oficial.
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A participação de Zaeli no inquérito surge a partir do depoimento de uma testemunha com identidade preservada, que detalhou ao Ministério Público a engenharia de coaptação e controle político montada no Legislativo municipal.
Apurações destrincham o uso de cartas de renúncia assinadas previamente por vereadores em chácaras e de gravações clandestinas feitas no escritório de Wanderley Cerqueira para chantagear parlamentares. O relatório do Gaeco situa Tião da Zaeli no comando dessas articulações de bastidores.
Na nota enviada à redação, Zaeli comenta sua saída do Poder Executivo municipal. Ele reafirma que sua renúncia ao cargo de vice-prefeito, em 31 de março de 2026, não teve relação com as investigações de corrupção ou com os escândalos do Legislativo, mas sim fruto de um ato voluntário decorrente de atritos com a gestão da prefeita Flávia Moretti.
"Tião da Zaeli ressalta que sua renúncia ao cargo de vice-prefeito, em 31 de março deste ano, foi uma decisão voluntária, motivada por sua discordância em relação ao cenário político instalado no município e aos rumos da administração municipal".
A denúncia
Segundo o documento do Ministério Público, a estrutura investigada contava com o apoio de agentes políticos e particulares. "O grupo teria como figura central o vereador Wanderley Cerqueira e contaria com a participação e o apoio de outros agentes políticos e particulares, dentre eles Sebastião dos Reis Gonçalves, conhecido como 'Tião da Zaeli', além de pessoas com interesses econômicos vinculados à atuação do grupo".
A menção reforça a tese de que Zaeli atuava lado a lado com Wanderley na tentativa de gerir a base de apoio e manter a influência sobre as decisões da Câmara Municipal, operando em paralelo com esquemas que incluíam o pagamento de vantagens indevidas, o chamado "mensalinho" de cerca de R$ 10.000,00, e a ocupação estratégica de cargos na Mesa Diretora.
A citação de Tião da Zaeli no relatório do Gaeco ganha ainda mais gravidade devido ao seu histórico de conflitos políticos em Várzea Grande. Ele havia sido eleito vice-prefeito ao lado de Flávia Moretti em 2025, mas optou por renunciar ao cargo executivo em meio a um cenário de forte atrito institucional e crise com a gestão municipal.
Zaeli já havia feito a mesma coisa em 2011, quando foi eleito vice-prefeito de Várzea Grande na chapa de Murilo Domingos. Em outubro de 2012, renunciou ao cargo também em crise.
LEIA MAIS: Tião da Zaeli renunciou ao mandato pela 2ª vez em Várzea Grande
Para os investigadores do Ministério Público, a atuação de Zaeli nos bastidores do Legislativo em apoio a Wanderley Cerqueira demonstra a tentativa de blindar interesses políticos e econômicos ligados a contratos públicos e à administração da cidade.
As investigações do Ministério Público prosseguem com base nos relatórios técnicos, mídias e documentos que foram apreeendidos na operação.
Operação Cathedra Venalis
O nome Cathedra Venalis, que batizou a operação deflagrada na manhã dessa terça-feira (20) pelo Gaeco, vem do latim e pode ser traduzido livremente como “cadeira venal” ou “cargo negociado”. A expressão sintetiza o objeto central das investigações: a suposta comercialização de funções públicas e o uso político de mandatos em benefício próprio.
A operação não cumpriu mandados nas sedes das Câmaras Municipais de Várzea Grande e de Cuiabá. As equipes policiais concentraram todas as ordens de busca e apreensão estritamente em endereços residenciais e comerciais vinculados aos alvos da investigação.
A operação que sacudiu os bastidores da política mato-grossense teve início após uma denúncia protocolada em maio, que apontava a existência de um suposto "quartel-general" da corrupção em Várzea Grande.
Reprodução
Vereadores de Várzea Grande foram alvos de busca e apreensão
O objetivo do grupo seria garantir a reeleição de Wanderley Cerqueira à presidência da Câmara de Várzea Grande. Além de controlar a Mesa Diretora, a denúncia detalha que a rede articulava um plano para forçar a cassação da prefeita, visando o domínio político do município e um pré-acordo de propinas envolvendo a privatização do DAE (Departamento de Água e Esgoto).
Relação dos parlamentares e alvos investigados:
Wanderley Cerqueira (MDB) – Presidente da Câmara
Gisa Barros (Podemos)
Rogerinho Dakar (PSDB) – Ex-presidente do DAE-VG / Suplente
Cilço da Cruz (PV)
Braz Jaciro (PSDB)
Alecsand / Alessandro Moreira (MDB)
Wender Madureira (Republicanos)
Sargento Galibert (PSB)
Dr. Miguel (Cidadania)
Lucélia Oliveira (Agir)
Kleberton Feitoza (PSB)
Raul Curvo (Republicanos)
Enfermeiro Emerson (PP)
Vereadores de Cuiabá alvos da operação:
Alex Rodrigues (Podemos)
Ilde Taques (Podemos)
Servidores de Várzea Grande:
Lorineide – diretora financeira da Câmara
Samir Katumata (PL) – secretário legislativo e suplente
Entenda o caso
Em maio, uma denúncia anônima protocolada junto ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) detalhou a criação de um suposto "quartel-general" da corrupção para garantir o resultado da eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Várzea Grande.
Segundo o documento apurado pelo na época, a articulação era liderada pelo presidente da Casa, Wanderley Cerqueira (MDB). O plano consistia em manter 12 vereadores em regime de confinamento e sob escolta de policiais à paisana em uma chácara localizada no distrito de Nossa Senhora da Guia, em Cuiabá.
Drone do Gaeco flagrou reunião de vereadores em chácara antes de eleição da Câmara de VG
A propriedade pertence ao vereador Dr. Miguel (Cidadania) e o isolamento servia para aguardar a data da sessão que definiria o comando do Legislativo.
A denúncia repassada ao Ministério Público também alertou para a circulação de um grande volume de dinheiro em espécie no local, supostamente destinado à compra de votos.
Além da disputa pela presidência da Câmara, o documento apontava que o objetivo da organização ia além: o plano do grupo envolvia forçar a cassação da prefeita Flávia Moretti (PL) para assumir o controle total do município, com foco estratégico em um pré-acordo de propinas e acertos voltado para a bilionária privatização do DAE (Departamento de Água e Esgoto).
Leia a nota de Tião da Zaeli na íntegra:
Em razão das notícias veiculadas nesta quarta-feira (21), o ex-vice-prefeito de Várzea Grande, Sebastião dos Reis Gonçalves, Tião da Zaeli, nega categoricamente as acusações a ele atribuídas, afirmando que são infundadas e não correspondem à realidade dos fatos.
Tião da Zaeli ressalta que sua renúncia ao cargo de vice-prefeito, em 31 de março deste ano, foi uma decisão voluntária, motivada por sua discordância em relação ao cenário político instalado no município e aos rumos da administração municipal.
O ex-vice-prefeito reafirma seu respeito ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e ao trabalho da imprensa. Confia na apuração rigorosa e imparcial dos fatos e permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários, reiterando a importância de que as informações sejam tratadas com responsabilidade e respeito ao devido processo legal.



















