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21 de Outubro de 2026

21 de Outubro de 2026, 15h:46 - A | A

POLÍTICA / BASTIDORES DO ESQUEMA

Gaeco expõe conluio entre vereadores e contrato da União Transportes em VG

Documentação entregue ao Ministério Público detalha manobras para abafar a CPI do transporte coletivo, termo assinado no último dia de mandato de Kalil Baracat e o uso político de ônibus da concessionária.

Reprodução

Representação criminal aponta suspeitas sobre contrato com a empresa

Representação criminal aponta suspeitas sobre contrato com a empresa

ANA ADÉLIA JÁCOMO
KARINE ARRUDA



Documentos e registros obtidos no inquérito do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) revelam as articulações de bastidor para blindar a empresa União Transporte e Turismo Ltda. e abafar investigações na Câmara de Várzea Grande. A análise técnica e as denúncias anexadas aos autos apontam um cenário de fortes conexões políticas e contratuais suspeitas envolvendo o sistema de transporte coletivo municipal. O inquérito embasou a deflaração da Operação Cathedra Venalis, que trouxe à tona um esquema de corrupção envolvendo o pagamento de “mensalinho” e a oferta de cargos para garantir apoio à reeleição de Wanderley Cerqueira (MDB) à presidência da Mesa Diretora do Legislativo várzea-grandense.

De acordo com o relatório ao qual o RepórterMT teve acesso, as apurações ganharam corpo após o andamento de denúncias formais que questionam a legalidade de atos administrativos firmados no último dia útil do mandato do ex-prefeito Kalil Baracat (MDB), em 31 de dezembro de 2024, conforme o extrato do Termo de Assunção Operacional em favor da União Transportes.

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LEIA MAIS: Gaeco investiga se Wanderley Cerqueira desviou ônibus do transporte público para bazar

O inquérito reuniu planilhas detalhadas com a identificação individualizadora de 16 veículos da frota da concessionária, contendo placas, Renavam, chassis, modelos e demais dados pertinentes para rastreamento.

Os registros, anexados ao inquérito que investiga a cúpula do Legislativo municipal, trazem diálogos explícitos entre os vereadores Caio Cordeiro (Novo), Cilço da Cruz (PV)  e William Cerqueira (filho do presidente da Casa, Wanderley Cerqueira), revelando como operava a rede de proteção a interesses corporativos e políticos.

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Um dos trechos mais reveladores da conversa expõe o alinhamento de Wanderley Cerqueira com a empresa União Transportes. Durante o diálogo, William Cerqueira afirma abertamente que o presidente da Câmara atua para defender a concessionária de transporte coletivo devido a acertos diretos.

"O Wanderley ele está entrando em uma bola dividida que não tem decisão dele, ele quer defender a União Transporte por causa de Rômulo Botelho", relata William no áudio, referindo-se a Rômulo César Botelho, sócio-proprietário da União Transporte e Turismo Ltda e irmão do deputado estadual Eduardo Botelho (União Brasil).

A conversa gravada também detalha a estratégia do grupo para conter o avanço de fiscalizações e tentar demover Caio Cordeiro de levar adiante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do transporte coletivo.

Cilço e William ponderam que o embate gera "chumbo grosso" e reconhecem que a pauta da água e do transporte coletivo tornou-se o principal termômetro de desgaste da gestão municipal e do Legislativo.

Além das articulações em torno da concessionária de ônibus, o material técnico aponta que o grupo debatia a distribuição de cargos comissionados na Prefeitura de Várzea Grande, as cobranças de governabilidade em cima da prefeita Flávia Moretti (PL).

O outro lado

A União Transportes esclareceu que não foi alvo de qualquer medida judicial na operação policial que apura uma suposta compra de votos na Câmara Municipal de Várzea Grande e afirmou que não está sendo investigada no caso.

Em nota, a empresa declarou que as alegações de um suposto financiamento por parte da empresa se baseiam em relatos indiretos de terceiros, que teriam mencionado o nome da União Transportes “por ouvir dizer”, sem elementos de comprovação.

A empresa negou a prática de qualquer ato ilícito e informou que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos, caso seja necessário.

A manifestação ocorre após a menção ao nome da União Transportes no contexto das investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), relacionadas à suspeita de compra de votos no Legislativo de Várzea Grande.

A empresa reforçou que não foi alvo de medidas judiciais no âmbito da operação e contestou as alegações relacionadas a um possível financiamento.

Depoimento bomba

Outro trecho do documento mostra o vereador Kleberton Feitoza (PSB) tentando contato com Caio Cordeiro para falar sobre a abertura da CPI contra a empresa. 

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Assustado após sofrer um assalto no qual teve sua mochila, notebook pessoal e documentos levados, Caio Cordeiro (Novo) levou Gaeco um pen drive com um acervo robusto de informações, incluindo áudios, vídeos, notas promissórias e registros de conversas, que comprova que ele se tornou alvo de uma intensa campanha de ameaças e retaliações após propor a instauração de uma CPI.

Por meio de um vídeo publicado em suas redes sociais, o vereador Caio Cordeiro expôs publicamente o pânico e as ameaças que passou a receber. O inquérito detalha que o roubo dos documentos serviu de premissa para uma campanha de terror psicológico e extorsão: "Recebeu contato de pessoa não identificada que demonstrava conhecimento acerca do notebook e exigia a retirada do boletim de ocorrência, acompanhando a exigência com ameaças e com o envio da imagem de uma arma de fogo", aponta o relatório.

Reprodução

caio cordeiro ameaça

 

Para os investigadores, o recado por trás do assalto e das intimidações virtuais era claro: silenciar as denúncias e acobertar os esquemas de bastidor que cercam os contratos públicos do município.

Uso de ônibus coletivo para fins pessoais

O Gaeco investiga também ser Wanderley Cerqueira teria usado irregularmente um ônibus destinado ao transporte público durante um evento social denominado “Bazar Itinerante”, realizado em 21 de março deste ano.

De acordo com representação criminal encaminhada à Justiça, não foi identificada, no Diário Oficial Eletrônico da Prefeitura de Várzea Grande nem no Portal da Transparência da Câmara, menção ao termo “Bazar Itinerante”.

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WANDERLEY CERQUEIRA E O ÔNIBUS DO BAZAR ITINERANTE

Ônibus adesivado com a identificação do Bazar Itinerante é citado em investigação do Gaeco sobre possível uso irregular do veículo.

Foi verificado ainda que, em 16 de julho, o ônibus permanecia adesivado com a identificação do evento social.

As investigações do Ministério Público prosseguem com base nos relatórios técnicos, mídias e documentos que foram apreeendidos na operação.

Relação dos parlamentares e alvos investigados:

Wanderley Cerqueira (MDB) – Presidente da Câmara

Gisa Barros (Podemos)

Rogerinho Dakar (PSDB) – Ex-presidente do DAE-VG / Suplente

Cilço da Cruz (PV)

Braz Jaciro (PSDB)

Alecsand / Alessandro Moreira (MDB)

Wender Madureira (Republicanos)

Sargento Galibert (PSB)

Dr. Miguel (Cidadania)

Lucélia Oliveira (Agir)

Kleberton Feitoza (PSB)

Raul Curvo (Republicanos)

Enfermeiro Emerson (PP)

Vereadores de Cuiabá alvos da operação:

Alex Rodrigues (Podemos)

Ilde Taques (Podemos)

Servidores de Várzea Grande:

Lorineide – diretora financeira da Câmara

Samir Katumata (PL) – secretário legislativo e suplente

Entenda o caso

Em maio, uma denúncia anônima protocolada junto ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) detalhou a criação de um suposto "quartel-general" da corrupção para garantir o resultado da eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Várzea Grande.

Segundo o documento apurado pelo  na época, a articulação era liderada pelo presidente da Casa, Wanderley Cerqueira (MDB). O plano consistia em manter 12 vereadores em regime de confinamento e sob escolta de policiais à paisana em uma chácara localizada no distrito de Nossa Senhora da Guia, em Cuiabá.

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Drone do Gaeco flagrou reunião de vereadores em chácara antes de eleição da Câmara de VG

A propriedade pertence ao vereador Dr. Miguel (Cidadania) e o isolamento servia para aguardar a data da sessão que definiria o comando do Legislativo.

A denúncia repassada ao Ministério Público também alertou para a circulação de um grande volume de dinheiro em espécie no local, supostamente destinado à compra de votos.

Além da disputa pela presidência da Câmara, o documento apontava que o objetivo da organização ia além: o plano do grupo envolvia forçar a cassação da prefeita Flávia Moretti (PL) para assumir o controle total do município, com foco estratégico em um pré-acordo de propinas e acertos voltado para a bilionária privatização do DAE (Departamento de Água e Esgoto).

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