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17 de Dezembro de 2014, 10h:41 - A | A

OPINIÃO /

O mar não está pra peixe

As faíscas da mais virulenta campanha eleitoral continuam a saltar de fogueiras

GAUDÊNCIO TORQUATO



A temperatura ambiental está muito alta. Não apenas os graus centígrados do tempo estão elevados em decorrência do tórrido verão dos nossos trópicos, mas o clima na política também é efervescente. 

O motivo parece claro: as faíscas da mais virulenta campanha eleitoral continuam a saltar de fogueiras que teimam em queimar lenha nos vastos espaços do território. 

O Sudeste, por exemplo, que agrega o maior contingente eleitoral do país, exibe um caldeirão fervendo, com exércitos estocando munição em seus arsenais, enquanto ensaiam um tiroteio de agressões nas redes sociais. Gilberto Carvalho, ministro e ex-seminarista, chama o senador Aécio Neves de “playboyzinho” e, não conformado com a falta de compostura, arremete com a observação de que seu grupo é acusado de “todo tipo de bolivarianismo, de chavismo, de mais um monte de m....”.

E recebe do presidente do PSDB a insinuação de ter como “principal marca de sua biografia o envolvimento nas denúncias de corrupção” que culminaram no assassinato do prefeito Celso Daniel, de Santo André. 

O presidente do PT, Rui Falcão, pede que a militância aflua às ruas para evitar que “os coxinhas”, como chama os tucanos, tomem conta da avenida Paulista, em São Paulo. 

Lula conclama cada militante petista a se “transformar numa Dilma” para defender o governo e o partido. Sonha em construir uma fortaleza social para evitar que “a ira das elites” não destrua o PT, esse “filho adolescente que começa a dar problemas”. 

Daí o esforço extraordinário do Partido para arrebanhar e juntar, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, no dia 1 de janeiro, 100 mil militantes, simpatizantes e adjacentes. 

O empreendimento quer significar: “não venham com essa maluquice de cassação de mandato da presidente Dilma nem com a extravagância de uma intervenção militar; contamos com as massas nas ruas”. 

Na Câmara, ao dizer que não estupraria a deputada Maria do Rosário “porque ela não merece”, o boquirroto deputado Jair Bolsonaro põe mais lenha na fogueira do embate que tomou conta do país após o pleito de outubro. 

O ex-capitão fala para a galera que o aplaude como o expoente mais radical da direita. Sabe ele que a temperatura nos quartéis chega a níveis insuportáveis. 

Por que não pôr mais balas no fuzil? Os comandantes das Forças Armadas têm transmitido aos presidentes de partidos e à comandante-em-chefe da Nação que majores, coronéis e generais estão de cara feia. 

As tropas se revoltam com as conclusões da Comissão da Verdade, entre elas, a responsabilização dos nomes identificados com a repressão e a tortura, o que implicaria revisão da Lei da Anistia. 

O recado foi ouvido pela presidente Dilma, que evitou, aliás, convidar os chefes militares para a cerimônia de entrega oficial do Relatório da Comissão da Verdade. 

Os militares de pijama, com o apoio velado dos que vestem a farda estrelada, prometem emitir, nos próximos dias, uma lista com os nomes dos militares vitimados por guerrilheiros. 

Afinal, o que está acontecendo? Trata-se da ressaca eleitoral. Cada banda quer tocar sua parte na orquestração do discurso nacional. 

Como lembra o vice-presidente da República, Michel Temer, há sempre dois ciclos na vida de um país: o ciclo eleitoral e o ciclo político-administrativo. Cada qual tem seu espaço. 

Urge não imbricá-los ou fazer com que um invada o terreno de outro. Essa parece ser a real dimensão da atualidade. Não se pode negar a legitimidade das estratégias partidárias no sentido de acirrar o discurso político. 

O perigo é deixar que a situação degringole e resvale pelo despenhadeiro, ou seja, que caiamos no precipício da ilegalidade, da desordem, do caos. 

O bom-senso ainda é a melhor biruta para mostrar a direção correta a seguir. 

GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, professor titular da USP, é consultor político e de Comunicação.
Twitter: @gaudtorquato

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