Polícia Federal em Mato Grosso

A Polícia Federal (PF) apreendeu grandes quantidades de dinheiro em espécie, vários relógios, incluindo modelos de luxo, uma frota de carros de alto padrão e uma expressiva carga de vinhos
ANA ADÉLIA JÁCOMO
DO REPÓRTERMT
A Operação Tomada de Contas, deflagrada pela Polícia Federal e autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) hoje (29), desvenda um esquema de pagamentos "por fora" no Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT). A ação apura suspeitas de irregularidades na administração de contratos e em pagamentos a servidores e conselheiros. Policiais federais fecharam a sede do Tribunal, onde cumprem mandados de busca e apreensão e proíbem o acesso dos funcionários.
Ao todo, o STJ determinou a prisão preventiva de seis investigados, incluindo o presidente da Corte, conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida, o consultor jurídico-geral Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, o assistente jurídico Gustavo Fernandes da Silva, o assessor Felipe José Glinke, a chefe de gabinete Roseli Loss e o secretário executivo Adriangelo Barros Antunes.
>>> Receba as principais notícias de Mato Grosso em primeira mão. Clique aqui!
Segundo a decisão do ministro Og Fernandes, sete conselheiros da Corte de Contas tiveram R$ 48.464.624,53 creditados em suas contas entre janeiro e outubro de 2025. No entanto, o Portal da Transparência do órgão divulgou o pagamento de apenas R$ 2.225.631,66 em remunerações ordinárias no mesmo período.
Polícia Federal em Mato Grosso
Sérgio Ricardo: Consta no topo da lista com R$ 15,4 milhões recebidos em menos de dez meses.
Guilherme Maluf: Acumulou R$ 10,6 milhões em repasses por fora.
José Carlos Novelli: Teve R$ 8,8 milhões identificados em suas contas.
Alisson Carvalho de Alencar (Conselheiro afastado, que atuou como procurador até dezembro de 2025): Acumulou R$ 8,1 milhões.
Valter Albano da Silva (Conselheiro aposentado e alvo de cautelares): Recebeu R$ 6,6 milhões.
LEIA MAIS SOBRE A OPERAÇÃO AQUI.
Como funcionava a folha paralela
Apesar de os recursos saírem da conta oficial do TCE-MT (abastecida pelos repasses do duodécimo do Tesouro Estadual), os pagamentos não passavam pela folha regular. As transferências eram processadas por meio do canal de pagamento destinado a fornecedores e por ordens bancárias avulsas, sem amparo legal.
A investigação ressalta que, embora a decisão cite o montante global de sete conselheiros envolvidos, os outros membros do colegiado (Antônio Joaquim, Campos Neto e Waldir) não constam entre os alvos das ordens de prisão e afastamento cumpridas nesta quinta-feira (29).
Passaportes recolhidos, proibição de vender bens e afastamento do TCE-MT
A decisão impõe a entrega obrigatória de passaportes, o afastamento imediato das funções públicas, a proibição de entrar no tribunal e restrições para a comercialização de bens e movimentações societárias a 15 alvos. As restrições foram aplicadas para evitar a destruição de documentos, impedir a continuidade de movimentações financeiras suspeitas e garantir o andamento da investigação sobre os desvios no órgão de controle.
LEIA MAIS: PF apreende montanhas de dinheiro, relógios de luxo e carros durante operação no TCE-MT
Todos os 15 alvos de medidas cautelares estão proibidos de sair do Brasil e devem entregar seus passaportes à Coordenadoria de Processamento de Feitos da Corte Especial no prazo de 24 horas. As restrições migratórias já foram cadastradas no sistema da Polícia Federal (PF).
Fica suspenso o exercício de qualquer função pública no TCE-MT. Os investigados não podem frequentar a sede do Tribunal, incluindo o banco do Sicoob instalado no local, e tiveram credenciais, certificados digitais e acessos remotos aos sistemas do órgão cancelados.
Os alvos não podem manter contato direto ou indireto, pessoalmente ou por terceiros, entre si e com qualquer servidor do TCE-MT ou funcionário do posto bancário. A única exceção é o convívio familiar, desde que não trate sobre a investigação.
LEIA MAIS: Waldir Teis assume interinamente a presidência do Tribunal de Contas
Para os conselheiros Guilherme Antônio Maluf, José Carlos Novelli, Alisson Carvalho de Alencar e o secretário de TI Olavo Lage Filho, o STJ vedou qualquer alteração societária em empresas e proibiu a venda ou compra de bens de valor superior a R$ 50 mil sem autorização judicial prévia.
Veja quem são os 15 alvos de medidas cautelares
Guilherme Antônio Maluf (Conselheiro e Corregedor-Geral)
José Carlos Novelli (Conselheiro)
Alisson Carvalho de Alencar (Conselheiro)
Valter Albano da Silva (Conselheiro aposentado)
Maurício Marques Júnior (Secretário executivo de orçamento, finanças e contabilidade)
Edson Luiz Ribeiro de Oliveira (Técnico de controle público externo e coordenador)
Carlos Alexandre Pereira (Auditor público externo e secretário de controle interno)
Eneias Viegas da Silva (Técnico de controle público externo e secretário de gestão de pessoas)
Adjair Roque de Arruda (Fiscal de tributos da Secretaria de Estado de Fazenda - Sefaz cedido como secretário executivo)
Carlos Felipe de Oliveira Almeida (Assistente técnico-financeiro)
Olavo Lage Filho (Secretário de tecnologia da informação)
Jocimauro Bento do Carmo (Técnico de controle público externo)
Carlos Romeu Rodrigues Medeiros (Consultor técnico-jurídico)
Vitor Turri Romano (Chefe de gabinete de comissão permanente)
Márcio Antônio Silvério (Assessor técnico-jurídico)
O STJ advertiu que o descumprimento de qualquer uma das proibições resultará na decretação imediata da prisão preventiva dos investigados.
ENTENDA A DENÚNCIA
Segundo a denúncia acolhida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), o esquema no TCE-MT funcionava em duas frentes principais de desvio de recursos públicos. A primeira engrenagem utilizava portarias para simular uma crise orçamentária e suspender contratos da Corte de Contas, contudo, a alegada falta de verbas é desmentida pelos dados financeiros oficiais.
O orçamento do TCE-MT cresceu de R$ 763,8 milhões em 2023 para R$ 786,7 milhões em 2024 e R$ 826,3 milhões em 2025, os pagamentos mensais do órgão subiram de R$ 67 milhões para R$ 80 milhões durante o período de suposta restrição.
Polícia Federal em Mato Grosso
Na prática, a suspensão servia para pressionar empresas, de modo que fornecedores seletos tiveram aumentos expressivos nos recebimentos após o ato, mediante a exigência de "devolução" de parte dos valores ao grupo da Presidência.
A segunda frente operava por meio de uma "folha paralela", abastecida diretamente pelos duodécimos do tribunal (que somaram R$ 736 milhões repassados pelo Tesouro em 52 ordens bancárias) através de canais destinados a fornecedores e ordens avulsas. Enquanto o Portal da Transparência divulgava um acumulado de apenas R$ 2,22 milhões em remunerações para os sete conselheiros envolvidos, os extratos bancários reais revelaram R$ 48,46 milhões creditados a eles.
O próprio presidente Sérgio Ricardo recebeu R$ 15,44 milhões em menos de dez meses, conflitando com o valor de R$ 288,5 mil informados oficialmente, ao mesmo tempo em que o consultor Grhegory Maia embolsou R$ 32,31 milhões, o assistente Gustavo Fernandes obteve R$ 15,89 milhões, o conselheiro Guilherme Maluf recebeu R$ 10,64 milhões e o assessor Felipe Glinke acumulou R$ 9,93 milhões.
Polícia Federal em Mato Grosso
Para ocultar a origem ilícita dos valores, a cúpula realizava saques massivos em dinheiro vivo no posto do Sicoob situado dentro da própria sede do TCE-MT. Apenas Sérgio Ricardo registrou 150 saques em espécie totalizando R$ 15,64 milhões (sendo R$ 15,47 milhões efetuados direto na boca do caixa), com apoio da chefe de gabinete Roseli Loss, que operou R$ 3,52 milhões em retiradas e repassou parte em mochilas a Adriangelo Antunes (que movimentou R$ 2,28 milhões).
No total, a Polícia Federal identificou R$ 75,85 milhões em movimentações suspeitas em um intervalo de apenas 294 dias em 2025, motivo pelo qual a Justiça autorizou um sequestro patrimonial que alcança R$ 145 milhões sobre os bens dos alvos.
A Polícia Federal apreendeu hoje grandes quantidades de dinheiro em espécie, vários relógios, incluindo modelos de luxo, uma frota de carros de alto padrão e uma expressiva carga de vinhos.
As imagens divulgadas pela PF mostram pilhas de cédulas de R$ 100 e R$ 50, além de notas de dólares e euros, que estavam organizadas em grandes maços.























