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04 de Janeiro de 2019, 09h:11 - A | A

PODERES / US$ 115 MILHÕES

Vereadores querem barrar empréstimo da prefeitura de Cuiabá

Projeto não teria proteção contra variação cambial, o que poderia fazer com que dívida crescesse descontroladamente.

RepórterMT

Vereadores protocolaram pedido no Tribunal de Contas do Estado.

Vereadores protocolaram pedido no Tribunal de Contas do Estado.

DA REDAÇÃO



Cinco vereadores por Cuiabá protocolaram, na quinta-feira (03), no Tribunal de Contas do Estado (TCE), uma representação pedindo que a Prefeitura de Cuiabá seja impedida de contratar o empréstimo de US$ 115 milhões (cerca de R$ 445 milhões) junto à Corporação Andina de Fomento (CAF), para o financiamento de obras para os 300 anos da Capital.

A operação de crédito foi aprovada pela Câmara de Cuiabá no dia 20 de dezembro. O empréstimo, contudo, havia sido considreado irregular pela Comissão de Fiscalização e Acompanhamento da Execução Orçamentária por suposto descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

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No plenário da Câmara, foram 17 votos a favor do empréstimo. Votaram contra o empréstimo os vereadores Marcelo Bussiki (PSB), Felipe Wellaton (PV), Diego Guimarães (PP), Abilio Júnior (PSC) e Dilemário Alencar (Pros) - os cinco assinam a petição junto ao TCE.

De acordo com o documento, o projeto com o pedido de empréstimo foi encaminhado ao Legislativo sem a documentação necessária e sem informações sobre as condições contratuais para a operação de crédito. A Prefeitura de Cuiabá não teria informado a taxa de juros, o mecanismo de atualização monetária, o número, o valor e a data de pagamento das parcelas, ou mesmo se existe um prazo de carência para o início do pagamento.

Além disso, o projeto não diz se existe 'hedge cambial' - uma espécie de seguro contra a variação da taxa do dólar - ou pagamento de comissões/encargos do financiamento, bem como  os percentuais destes e as implicações em caso de atraso no pagamento, como multa e juros, por exemplo.

“Se não bastassem as sérias gravidades e suspeitas sobre esse empréstimo, não há informações sobre a existência da trava cambial para estabilizar a dívida e assegurar o seu pagamento independentemente das variações cambiais, as quais o real se sujeita em relação ao dólar. Sem isso, podemos pagar em um mês uma parcela com um valor e no outro mês um valor maior, caso o dólar suba”, explicou Bussiki. 

O projeto também não apresenta um estudo econômico cambial relativo ao período de financiamento, a fim de demonstrar que  a operação em dólar seja a mais vantajosa para o município em relação a outra realizada em real.

“Em uma única operação dolarizada, a atual gestão pretende dobrar a dívida pública, que hoje está em R$ 469 milhões, sem sequer explicar quais serão os ganhos econômicos e financeiros na arrecadação do IPTU, ITBI e ISSQN, já que são esses recursos que irão subsidiar o pagamento das parcelas do empréstimo. A população precisa saber quanto do imposto vai ser gasto com esse empréstimo duvidoso”, disse Marcelo Bussiki.

Cuiabá 300 anos

A representação aponta ainda a ausência dos projetos e planilhas que demonstrem os custos individualizados das obras a serem financiadas. Isto porque o projeto assegura que o empréstimo será para o “Programa 300 anos” e elenca as obras, sem qualquer estudo orçamentário e de viabilidade técnica que possa garantir que os valores a serem financiados são correspondentes aos valores das obras.

“A prefeitura apenas cita as tais obras e inclui também os projetos dos dois viadutos, no Jardim Itália e na Beira Rio, para serem financiados. Só que essas duas obras já estão sendo financiadas com recurso do Banco do Brasil, em um empréstimo de R$ 51 milhões autorizado recentemente pela Câmara de Cuiabá. Inclusive, a licitação para essas obras foi até suspensa pelo próprio TCE, por suspeita de sobrepreço. Quer dizer, a prefeitura está pedindo dois empréstimos para a mesma coisa. No mínimo, uma irresponsabilidade, para não citar outras suspeitas”, afirmou Bussiki. 

Além das obras, segundo a representação, o pedido de empréstimo aponta que serão destinados U$ 2,2 milhões  para “apoio USP” e US$ 1 milhão para “outros gastos”, sem especificar qual o referido apoio e os tais gastos. Outros US$ 170 mil serão usados para auditoria, apesar de essa ser uma função obrigatória da Controladoria do Município, diz a representação. 

“Na ânsia por obter esse empréstimo, a prefeitura cita aleatoriamente diversas coisas que fará com o recurso sem nos demonstrar a necessidade, viabilidade ou qualquer esclarecimento. Fora que inclui até função que é obrigatória do município exercer, como se fosse um grande feito. Isso deixa claro que esse empréstimo é  um verdadeiro  tiro no escuro  e espero que o TCE nos entenda e suspenda tudo isso, até os devidos esclarecimentos”, disse Bussiki.

O vereador Wellaton lembrou ainda dos riscos que o Município corre caso consiga contrair o empréstimo. “A Sadia perdeu mais de R$ 2 bilhões e quebrou quando contraiu uma dívida dolarizada em 2008. Não vamos ser inocentes de que isso não pode acontecer com o Município de Cuiabá”, afirmou.

Por essa razão, além de requererem decisão liminar para impedir o empréstimo, os vereadores pedem a citação do prefeito Emanuel Pinheiro (MDB), e do secretário de Fazenda Antônio Possas de Carvalho, para que apresentemtodo o rol de documentos e garantias apontados para a concretização do empréstimo. Já no mérito da representação, os vereadores pedem que a prefeitura seja impedida de fazer qualquer empréstimo dolarizado, em razão do risco ao Município.

Outro lado

O procurou a assessoria de imprensa da Prefeitura de Cuiabá, que informou que não se posicionará sobre o assunto neste momento.

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