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05 de Novembro de 2014, 11h:00 - A | A

OPINIÃO /

Parte da nossa história - Final

Nessa época, nosso comércio, devido à falta de estradas, era com a Bolívia ou Paraguai, mais difícil

EDUARDO PÓVOAS



O mestre Lenine continua...

Sem recursos para buscar nos grandes centros do país os cursos superiores, sonho dos filhos do veterano Pedro Póvoas, que pleitearam, mas nunca conseguiram bolsa de estudo, buscaram todos os três, Glicério, Nilo e Isác (escreve-se só com um A), no silêncio das madrugadas a formação de autodidatas que se tornaram e com cujo lastro atingiram suas cadeiras na Academia Mato-grossense de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. 

Ao tempo em que a dignidade do homem público era cousa que se prezava, Isác Póvoas (só com um A), exerceu com brilho e inexcedível zelo, os cargos de vereador, prefeito da Capital, delegado de Polícia, chefe de Polícia secretário de Estado, interventor federal- substituto, presidente do Conselho Administrativo do Estado, presidente da Caixa Econômica Federal em Mato Grosso, para aposentar-se com os míseros proventos de professor que não lhe bastaram para os funerais. 

Muito do que Isác escreveu teve destino idêntico ao que produziram muito de seus compatriotas. Mas, sempre fica alguma coisa que espelha a personalidade do homem e atesta seu talento. 

Glicério, devido a dificuldades financeiras por aqui, levou a família para residir em São Paulo, mais especificamente na cidade de Marília, onde construiu um colégio que posteriormente seria a célula-mater da Universidade de Marília. 

Nilo teve sua vida inteira dedicada ao magistério: fora advogado provisionado, funcionário público, historiador, jornalista e professor de Literatura Brasileira. 

A trinta de abril de 1931, ingressava na Academia Mato-grossense de Letras na cadeira número 14. 

Foi um dos mais conceituados professores da Língua Portuguesa e um excelente educador (aquele que forma o cidadão para conviver em sociedade, para cumprir com seus deveres cívicos, respeitando as leis e aos interesses da coletividade”. 

A família sempre viveu regada de diplomas e medalhas, insuficientes para saldar os compromissos financeiros da mesma, porém alicerce de uma dinastia. 

São minhas as palavras abaixo sobre meu bisavô Pedro Póvoas. 

Tinha a família Póvoas à beira do rio Cuiabá, no bairro do Porto, um pequeno comércio, que lhe dava sustentação financeira. 

Nessa época, nosso comércio, devido à falta de estradas, era com a Bolívia ou Paraguai, mais difícil. Saía o velho Pedro com alguns de seus empregados em um batelão sem motor, movido a zinga (pedaços de pau com os quais os empregados empurravam o barco) com destino a Corumbá para fazer compras de reposição. 

Numa dessas viagens, com o batelão ancorado no porto de Corumbá, os paraguaios invadem a cidade começando a Guerra do Paraguai. O batelão já estava cheio de compras, e pronto para retornar para Cuiabá, quando os irmãos brasileiros fugindo da morte invadem o barco. 

O velho Pedro, sem alternativa para se esconder dos possantes barcos paraguaios, entra em uma das baías do Pantanal e com seus mantimentos alimenta muita gente por vários dias. 

Sem ouvir o barulho dos motores dos barcos paraguaios, sente meu bisavô segurança para sair da baía, pega o canal do rio e traz todo mundo para Cuiabá. 

No Rio de Janeiro, dom Pedro, sabendo desta façanha, outorga a Pedro Fernandes Póvoas a patente de major do Exército Brasileiro, condecora-o com a Comenda Cavaleiro da Ordem da Rosa (a mais alta comenda do Império, hoje em meu poder), e nomeia-o comandante do Arsenal de Guerra, hoje conhecido como Sesc Arsenal. 

Pouca gente ou quase ninguém conhece essa história sobre o hoje Sesc Arsenal. 

Tentei por três ou quatro vezes ser recebido pelo imperador do Sesc neste Estado por vários anos, para tentar contar a ele esta história e fazer com que o Sesc transfira para os visitantes e estudantes que ali frequentam esta página bonita da nossa história. 

Minhas tentativas foram em vão. Nas quatro vezes em que procurei o “imperador”, recebi de suas secretarias recado de que ele se encontrava ocupadíssimo e não poderia me receber. Nunca mais me deu retorno. 

Tal qual o império romano, estarei ansiosamente esperando a caída do “imperador” cuiabano para talvez, com nova direção e novo imperador, conseguir que estes fatos sejam de conhecimento dos nossos jovens, pois caso contrário continuarão eles a pensar que foi o Sesc, através de seu imperador-mor, o construtor daquela obra magnífica! 

Governador Pedro Taques, cuiabano, com bagagem intelectual um pouco maior que alguns, sabedor destas páginas escritas com muita bravura e sofrimento por nossos ancestrais, saberá, com certeza, cuidar do passado deste brioso e batalhador povo, sem nenhuma dúvida! 

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