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Eduardo Sauter é cirurgião plástico em Mato Grosso e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
EDUARDO SAUTER
Emagrecer mais nem sempre significa emagrecer melhor. Em tempos de canetas emagrecedoras, essa diferença precisa ocupar o centro da conversa. Os medicamentos ampliaram as possibilidades de tratamento da obesidade, mas sua popularização também exige uma reflexão sobre limites, acompanhamento e expectativas. O objetivo de um tratamento deve ser melhorar a saúde. A busca por um corpo cada vez menor pode se afastar desse propósito.
Na cirurgia plástica, essa transformação já aparece no perfil de quem procura atendimento. Houve no meu consultório, um crescimento da demanda de pacientes que, depois de perdas expressivas de peso com medicamentos, buscam corrigir flacidez, excesso de pele e perda de volume corporal. São questões que passaram a ganhar mais espaço também nos encontros científicos da especialidade.
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A mudança ajuda a explicar por que o resultado na balança nem sempre corresponde à expectativa diante do espelho. A gordura diminui, mas a pele pode não acompanhar essa redução. Abdômen, mamas, braços e coxas podem apresentar sobras de tecido. Isso pode acontecer após grandes emagrecimentos por diferentes métodos, inclusive quando o tratamento foi bem conduzido. Não significa, por si só, que houve uso inadequado do medicamento.
É preciso reconhecer o avanço que medicamentos como a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, representam quando bem indicados. A obesidade é uma doença crônica e merece tratamento. No Brasil, a indicação aprovada para controle do peso contempla adultos com obesidade ou sobrepeso associado a determinadas condições de saúde, em conjunto com alimentação e atividade física. A decisão de usar exige avaliação clínica.
A preocupação surge quando a potência dessas ferramentas alimenta a ideia de que sempre é possível e desejável perder mais alguns quilos. Precisamos questionar a banalização do uso para atender a pressões estéticas e a transformação do emagrecimento em uma meta sem fim. O sucesso de um tratamento não pode ser medido apenas pela velocidade com que o número na balança cai.
Parte dessa perda pode envolver massa muscular. Por isso, preservar força, capacidade física e uma alimentação adequada precisa fazer parte do plano desde o início. O treino de força, como a musculação, associado à ingestão suficiente de proteínas e ao acompanhamento nutricional, ajuda a reduzir a perda muscular durante o emagrecimento.
Comer cada vez menos, sem avaliar a qualidade e a quantidade do que se consome, pode comprometer o resultado de saúde que se pretende alcançar.
Na cirurgia plástica, isso tem uma consequência prática: atingir determinado peso não basta para estar pronto para operar. É necessário avaliar estabilidade do peso, condições nutricionais, saúde geral e expectativas. A retirada de pele exige planejamento, envolve cicatrizes e tem riscos. Em alguns casos, o cuidado mais responsável será adiar o procedimento até que o paciente esteja em melhores condições.
Também precisamos olhar com atenção para a relação de cada pessoa com o próprio corpo. Como princípio de cuidado, considero indispensável acolher quem permanece insatisfeito, mesmo depois de uma grande transformação, e compreender o que sustenta o desejo de continuar emagrecendo. A aparência, isoladamente, não permite diagnosticar um transtorno. Mas o sofrimento com a imagem corporal merece escuta e, quando necessário, avaliação de profissionais de saúde mental.
Essa conversa deve acontecer sem julgamento. Quem enfrenta obesidade precisa de acesso a tratamento, e quem sofre com excesso de pele merece ter sua queixa levada a sério. Ao mesmo tempo, cabe ao médico estabelecer limites quando a expectativa ameaça a segurança. Nem toda insatisfação será resolvida com uma nova dose ou uma nova cirurgia.
Há ainda uma distinção fundamental: continuar o tratamento para manter o peso perdido é diferente de buscar emagrecer indefinidamente. A manutenção deve fazer parte do cuidado de uma doença crônica. Ajustar ou interromper a medicação exige uma decisão compartilhada com o médico responsável.
As canetas emagrecedoras ampliaram as possibilidades da medicina. Nossa responsabilidade é fazer com que essa evolução se traduza em saúde, autonomia e qualidade de vida. O melhor resultado precisa preservar a pessoa por inteiro. Isso inclui saber quando emagrecer, quando manter e quando deixar de perseguir um número menor.
Eduardo Sauter é cirurgião plástico em Mato Grosso e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.












