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09 de Setembro de 2026, 13h:00 - A | A

OPINIÃO / MÁRCIA AMORIM

Alfabetizar em duas línguas exige uma única base

Reprodução

Márcia Amorim Pedr'Angelo é pedagoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Márcia Amorim Pedr'Angelo é pedagoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

MÁRCIA AMORIM



A educação bilíngue não deve ser vista como uma camada adicional colocada sobre a alfabetização. Quando começa desde os primeiros anos, ela integra uma concepção mais ampla de desenvolvimento da linguagem, na qual diferentes experiências linguísticas podem contribuir para a formação do estudante.

O debate é especialmente relevante em um momento em que a alfabetização ainda representa um desafio global. Segundo os dados mais recentes divulgados pela Unesco, referentes a 2024, pelo menos 739 milhões de jovens e adultos ainda não possuíam competências básicas de alfabetização. O número dimensiona a importância de garantir que toda criança tenha acesso não apenas à escola, mas a uma formação que lhe permita ler, compreender e produzir sentidos com autonomia.

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É nesse cenário que a discussão sobre alfabetização dialoga com outra realidade cada vez mais presente nas escolas: a formação bilíngue.

Jim Cummins formulou, ainda nos anos 1970, a hipótese da interdependência linguística. A ideia central é que as línguas de um mesmo indivíduo não funcionam em compartimentos isolados. Há competências linguísticas e cognitivas que podem se apoiar mutuamente e favorecer novas aprendizagens.

Isso ajuda a superar uma falsa escolha: não se trata de decidir entre aprender bem o português ou aprender uma segunda língua. O desafio é construir uma proposta pedagógica em que as duas experiências sejam planejadas de maneira coerente com o desenvolvimento da criança.

Cummins também diferenciou a fluência conversacional da proficiência acadêmica, necessária para compreender textos complexos, argumentar, interpretar informações e aprender conteúdos por meio da língua. A segunda demanda tempo, continuidade e experiências mais sofisticadas.

Uma criança pode conversar em inglês com desenvoltura e, ainda assim, estar desenvolvendo as habilidades necessárias para compreender um texto científico ou literário mais complexo em inglês. Isso não é uma contradição. São competências diferentes.

A Unesco defende, há décadas, uma educação multilíngue que considere a língua materna como parte fundamental desse processo. Isso não significa reduzir o contato com a segunda língua, mas reconhecer que o desenvolvimento da primeira oferece uma base importante para aprendizagens cada vez mais complexas.

Na prática, esse princípio precisa virar decisão curricular: garantir experiências de leitura e oralidade em língua materna e promover planejamento conjunto entre os profissionais que atuam com as diferentes línguas. Essas equipes não devem trabalhar em trilhos paralelos. Precisam compartilhar objetivos e acompanhar o desenvolvimento dos estudantes.

No Toque de Mãe, escola de Cuiabá que recebe a criança desde o berçário, por exemplo, o contato com uma segunda língua começa bem antes do início do processo de alfabetização. O que precisa existir desde o início é uma proposta pedagógica coerente, capaz de acompanhar o desenvolvimento das diferentes competências linguísticas.

Formar leitores bilíngues exige professores preparados, currículo integrado e avaliação que observe compreensão, interpretação e produção de sentidos — não apenas conversação.

Alfabetizar não é apenas ensinar a decodificar palavras. É ensinar a criança a construir sentidos, compreender o mundo e utilizar a linguagem para participar dele.

Quando essa formação acontece em duas línguas, não estamos falando de duas alfabetizações que competem entre si, mas de uma formação leitora que pode se desenvolver em mais de uma língua.

Márcia Amorim Pedr'Angelo é pedagoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

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