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25 de Outubro de 2026

06 de Junho de 2012, 09h:45 - A | A

OPINIÃO / GABRIEL NOVIS NEVES

Conversa com um gari

Estou falando do gari que diariamente encontro no trajeto da minha caminhada matinal.

GABRIEL NOVIS NEVES



Uniformizado, empurrando um carrinho coletor móvel, barba por fazer, cigarro apagado no canto da boca, idade indefinida.


Feição simpática, riso fácil. Olhar vivaz e matreiro. Comanda, com ar de dever cumprido, o vai e vem da sua vassoura de folha de coqueiro.

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Estou falando do gari que diariamente encontro no trajeto da minha caminhada matinal.


Aproveitando a calmaria da cidade pela manhã, resolvi entabular uma conversa com aquela figura tão presente no meu dia a dia.


Sempre tive curiosidade de conhecer, não academicamente, a história das ruas. Parei diante do trabalhador, cumprimentei-o e disse que gostaria de lhe fazer algumas perguntas.

     
- É uma satisfação para mim – falou o gari sorrindo.

     

- Durante todo esse tempo que o senhor trabalha nesta área, considerada chique, o que o senhor encontrou de mais interessante misturado ao lixo?


Ele pensou por alguns segundos e indagou:

     
- O senhor quer saber se já encontrei algum objeto de valor?

     
- Pode ser - respondi.

     
- Moço, de vez em quando eu encontro uma moedinha. A de maior valor, e a mais frequente, é a de cinco centavos. Mais do que isso, nunca.

     
- Além das moedinhas? Que mais você encontra pelas ruas?

     
- Coisas que não servem para nada, como guarda-chuva quebrado, um pé de sandália velha, roupas imprestáveis, muita caixa de remédio vazia. Só besteiras assim – respondeu.

     
- Ah! Estava me esquecendo. Certa ocasião eu encontrei um anel que parecia de ouro e uma pedra no meio. Dei à minha mãe que já está velhinha e nunca usou uma joia por falta de dinheiro para comprar. O senhor precisava ver a alegria da minha mãe quando coloquei o anel no seu dedo. Quase chorei de ver.

     
- Conte mais alguma coisa sobre os seus achados.

     
- O senhor sabe que começo o serviço naquela Praça que chamam de Chopão – ele falou apontando o local com o dedo. Depois sorriu e esclareceu:

     
- Ali encontrei coisas diferentes, acho que o senhor vai se espantar se eu contar.

     
- Pode falar à vontade. Dificilmente irei me espantar com mais alguma coisa nesta vida. E tudo que você me falar é importante, pois o limpador das ruas é o melhor fotógrafo da cidade.

     
- Sou?

     
- É sim. E tem mais: você é o melhor professor de sociologia e antropologia de uma cidade. Se pudesse te contrataria para uma aula na universidade.

      Ele me olhou desconfiado e sorriu. Meio constrangido exclamou:

     
- Que é isso moço! O senhor não está exagerando?

É. Talvez eu tenha exagerado na imagem. Fiquei receoso que ele pensasse que eu estava debochando dele. Mas, não. Ele prosseguiu sério e me disse:

     
Na Praça do Chopão, diariamente, com permissão da palavra, encontro camisinhas, aquela que dizem que evita filhos.

     
- O senhor atribui esse achado a algum fato?

      - Acho que a causa é a péssima iluminação da praça. Também tem os bancos que, depois de certa hora, são utilizados como cama. Quantas vezes eu chego para o trabalho, ainda escuro, e pego o pessoal deitado no banco feito cama, na maior sem vergonhice desse mundo.

     
- E o senhor já tomou alguma providência?

     
- Moço, a minha função é limpar a praça, se eu ficar metendo o bedelho no trabalho dos outros, acabo perdendo o emprego.

     
- Obrigado por me atender. Bom dia.

     
- Agora, de quê! Aparece daqui um tempinho que vou reparar mais nas coisas que encontro por aí. Bom dia para o senhor também.


Estava afastando-me do local da conversa quando ouvi o gari murmurando consigo mesmo:


- Aparece cada um...


Esse foi um rápido depoimento de um trabalhador das ruas. Através dele vi confirmar, tristemente, a total ausência de cidadania do povo da minha terra. Afinal, “lugar de lixo é no lixo”. Cuiabá merece que cada um faça a sua parte.


Trabalho de gari. Um trabalho, considerado por muitos, menos digno, mas, imprescindível à nossa coletividade.

*Gabriel Novis Neves é médico em Cuiabá.


A redação do RepórterMT não se responsabiliza pelos artigos e conceitos assinados, aos quais representam a opinião pessoal do autor.

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