facebook-icon-color.png instagram-icon-color.png youtube-icon-color.png tiktok-icon-color.png
Cuiabá, 09 de Junho de 2026
09 de Junho de 2026

09 de Junho de 2026, 15h:00 - A | A

POLÍTICA / VENDA DE SENTENÇAS

Apontado como operador de desembargador em esquema renuncia ao cargo de síndico de condominio de luxo após estourar operação

Luciano Cândido Amaral alegou "motivos pessoais" para deixar gestão do Florais do Valle um dia após sofrer buscas por esquema de venda de sentenças

ANA JÁCOMO
DO REPÓRTERMT



Alvo da Operação Gemini, deflagrada pela Polícia Federal, o empresário Luciano Cândido Amaral renunciou ao cargo de síndico do condomínio de luxo Florais do Valle, em Cuiabá. A saída foi protocolada na manhã de hoje (9), exatamente um dia após serem expedidos novos mandados de busca e apreensão contra pessoas ligadas ao desembargador afastado Dirceu dos Santos, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), acusado de venda de sentenças e lavagem de dinheiro.

No termo de renúncia, o empresário informou que motivos de natureza estritamente pessoal impossibilitam a continuidade de suas funções com a dedicação exigida. Com o afastamento imediato, o cargo passa a ser ocupado pela subsíndica do condomínio Nicole Locker, conforme Luciano informou ao RepórterMT.

O "Irmão Gêmeo"

As investigações que ligam o síndico ao esquema ganharam robustez com a quebra de sigilo telemático e a análise técnica do celular do advogado Roberto Zampieri, assassinado em dezembro de 2023 em frente ao seu escritório no bairro Bosque da Saúde, na capital.

Na agenda de contatos de Zampieri, o telefone de Luciano estava registrado sob o codinome “Irmão Gêmeo – DD”, uma alusão direta à sua proximidade e forte influência com o desembargador Dirceu dos Santos.

LEIA MAIS: O "Irmão Gêmeo": Saiba quem é o empresário considerado cérebro do esquema de venda de sentença

Os registros de conversas extraídos do aparelho demonstram o acesso privilegiado do empresário ao gabinete. No dia 27 de setembro de 2023, Zampieri enviou a Luciano o arquivo de um processo acompanhado de um pedido para que "organizasse" um efeito suspensivo.

Apenas 15 segundos após o recebimento da mensagem, o empresário já articulava a tramitação da demanda. No dia seguinte, a decisão liminar favorável aos interesses do grupo era assinada e publicada por Dirceu dos Santos.

Rastro financeiro e sociedade empresarial

Relatórios de inteligência financeira apontaram que, entre os anos de 2020 e 2023, o advogado Roberto Zampieri transferiu cerca de R$ 600 mil para contas ligadas ao empresário.

Além disso, foram identificadas transações diretas e indiretas entre Luciano e o desembargador que superam os R$ 600 mil, incluindo o pagamento de 11 boletos bancários, no valor total de R$ 258 mil, emitidos em favor do magistrado e de membros de sua família.

LEIA MAIS: Mansões, fazendas e muito dinheiro vivo: CNJ revela patrimônio colossal de desembargador afastado do TJMT

Um dos repasses mais específicos identificados pela Polícia Federal foi uma transferência de R$ 140 mil realizada pela Veritas Construtora e Incorporadora, empresa de propriedade do síndico, diretamente para a conta corrente de Carla Patrícia Monteiro dos Santos, esposa do desembargador.

Paralelamente às movimentações bancárias, Luciano e Dirceu dos Santos mantiveram uma relação comercial pública, figurando como sócios formais na empresa Maislaser Cuiabá Ltda. entre os anos de 2022 e 2024.

Empresas de fachada

A Operação Gemini também revelou mecanismos complexos utilizados para a ocultação de valores e lavagem de capitais. De acordo com a PF, o grupo utilizava a estrutura de empresas e "laranjas" para dissimular a origem do dinheiro.

Em uma das transações imobiliárias sob suspeita, um intermediário recebeu R$ 100 mil de Dirceu dos Santos e, no mesmo dia, repassou exatamente a mesma quantia para Luciano Cândido Amaral, configurando indícios de uma operação simulada para ocultar a propriedade dos bens.

LEIA MAIS: PF apreende Rolex de R$ 208 mil, armas e canetas de luxo em operação contra desembargador afastado e deputado de MT; veja vídeo

Outro braço financeiro do esquema envolvia a gestão da empresa M.S. Comércio de Pizzas e Massas Pré-Assadas. O estabelecimento comercial estava registrado em nome de uma mulher apontada como amante do desembargador, contudo, as investigações apontam que o próprio magistrado geria o negócio pessoalmente e utilizava seus cartões pessoais para quitar as despesas com fornecedores. Somente no ano de 2019, a pizzaria movimentou R$ 800 mil.

O CNJ determinou o afastamento cautelar do desembargador Dirceu dos Santos de suas funções no TJMT, medida que está em vigor desde o dia 2 de março deste ano. O conselho também decretou a indisponibilidade de bens do magistrado e de todas as empresas controladas por Luciano Amaral.

Durante a deflagração da Operação Gemini, mandados de busca e apreensão resultaram no recolhimento de armas, canetas de luxo e um relógio da marca Rolex avaliado em R$ 208 mil.

Além do síndico e do magistrado, a ação teve como alvos o deputado estadual Faissal Calil (PL), o advogado Bruno Oliveira Castro e outras seis pessoas, que passaram por quebras de sigilos bancário, fiscal e telemático. O caso foi oficialmente remetido à Procuradoria-Geral da República (PGR) para a elaboração e oferecimento de denúncia criminal formal.

Comente esta notícia