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Yasmin Nadaf é escritora, professora, pós-doutora em Literatura, mas aqui filha de Jamil Boutros Nadaf
YASMIN NADAF
Jesus quando veio ao mundo recebeu por batismo o nome de Jesus. Ele até foi chamado de O Salvador; de O filho de Deus, mas tinha um nome: Jesus, que podia ser (e o foi) Jesus filho de Deus, e Jesus o Salvador. Mas era Jesus.
Dar nome de batismo é um gesto que ultrapassa as fronteiras do Tempo, porque nomear alguém ou algo é dar a esse alguém ou algo Identidade; palavra que se torna sinônimo de Memória quando esse alguém ou algo envelhece, ou morre para esta vida. Nesta seara entramos no Passado.
Passado que se guarda ou que existe quando se tem Memória. Memória que só é ou que será ativada se dermos Identidade a algo ou a alguém.
Meu pai tinha uma Identidade. Ele se chamava e ainda se chama Jamil Boutros Nadaf: um nome que para todos aqueles que o conheceram ou viveram a seu tempo é representativo de Trabalho.
O meu pai trabalhou. Trabalhou por mais de cinqüenta anos por esta cidade, por este Estado, e por esta Nação a quem ela tanto amou a ponto de se tornar um cidadão brasileiro, tendo nascido em terras estrangeiras.
E se hoje estamos aqui para receber esta homenagem, que batiza este viaduto com o nome de Viaduto Jamil Nadaf, o meu pai fez por merecer, e é com o perdão da modéstia que faço esta afirmativa.
Mas ele de fato fez por merecer, e o que existe não pode e não deve ser negado caso contrário corremos o risco de perder a Identidade, a Memória e o Passado de tudo, enfim... das nossas referências.
Eu não vou me alongar neste espaço enumerando tudo o que o meu pai Jamil fez para receber esta oferta. Gostaria de fazê-lo para apresentar aos mais jovens aquilo que ele construiu.
Contudo, como o calor cuiabano é “demás” de forte, seleciono apenas dois ícones construídos por sua mente e o seu coração: Um diz respeito à restauração do SESC Arsenal, que leva o seu nome.
E o outro, a idealização e a instalação do SESC Pantanal, hoje uma referência internacional para estudos do nosso rico e singular eco-sistema.
Não falarei das inúmeras unidades do SESC e do SENAC que ele fundou no interior deste Estado porque daí eu teria que me alongar entre outras atividades por ele.
Assim, agradeço a sua Exª o Governador do Estado, Silval Barbosa, e ao Exº Prefeito de Cuiabá, Mauro Mendes, pela Homenagem a Identidade, a Memória e ao Passado do meu pai Jamil Boutros Nadaf. Tal oferta já está carimbada em nossos corações.
Bastante emocionada, e para finalizar, reproduzo um poema da consagrada escritora brasileira Hilda Hilst, porque penso que este poema revela em metáforas o modo como o meu pai gostaria de ser lembrado. Ele amava a Vida, e amava Viver.
Diz o poema:
Não me procures ali
Onde os vivos visitam
os chamados mortos.
Procura-me dentro das grandes águas.
Nas praças,
num fogo coração,
entre cavalos, cães,
nos arrozais, no arroio,
ou junto aos pássaros
ou espelhada num outro alguém,
subindo um duro caminho.
Pedra, semente, sal.
Passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.
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