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Caiubi Kuhn é geólogo, Doutor cotutela em Geociência e Meio Ambiente (UNESP) e Environmental Sciences (Universidade de Tubingen), Professor na UFMT, Presidente da Federação Brasileira de Geólogos (FEBRAGEO)
CAIUBI KUHN
Todos os dias, diversas descobertas científicas apresentam informações importantes sobre muitas áreas da ciência. São novas informações sobre o universo, sobre física, química, sobre a história geológica do nosso planeta ou sobre a evolução da vida, entre muitas outras áreas. Embora sejam impressionantes, acabam chamando muito menos atenção nas redes sociais que histórias fantasiosas sobre cidades perdidas, como Ratanabá, ou sobre a presença de aliens ou outros temas de origem duvidosa. Neste texto, vou falar sobre ciência e fake news, e o quanto esse tema precisa ser debatido.
Ratanabá, conforme a Dakila Pesquisas, mesma instituição que afirmou a presença do "ET Bilu”, propõe que em Mato Grosso existia uma cidade perdida relacionada à civilização de Muril. Para eles, “A civilização dos Muril foi a primeira que chegou à Terra há 600 milhões de anos atrás. Os Muril ficaram aqui até um pouco antes da elevação dos Andes, por volta de 450 milhões de anos atrás.” O problema é que a defesa desta pseudoteoria vai contra tudo que a ciência defende. Há 600 milhões de anos, nosso planeta era muito diferente do atual. As formas de vida ainda eram muito primitivas, não tinha nem sequer passado pelo grande evento de diversificação que marca o início do período Cambriano, a 542 milhões de anos, não existiam peixes ou outros vertebrados, também não existiam plantas nos continentes. Dizer que Ratanabá existiu é negar também que ocorram as mudanças no relevo pelos processos de erosão que moldam a geomorfologia, também é negar a teoria da evolução e da tectônica de placas. Ou seja, considerando tudo que a ciência conhece, é impossível Ratanabá ter existido. Mas, afinal, então o que são as linhas da pseudocidade perdida? São resultados da evolução do relevo, condicionado por estruturas geológicas, algo comum no nosso planeta.
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Enquanto a cidade perdida que nunca existiu atrai muita atenção nas redes sociais, eventos e locais importantes de Mato Grosso e do Brasil permanecem pouco conhecidos, como é o caso do Sítio Santa Elina, localizado na divisa de Jangada com Rosário Oeste, mostra a presença humana na região há 27 mil anos. Época em que os homens pré-históricos conviviam com grandes animais já extintos, como preguiças gigantes.Esse sítio, já muito estudado e devidamente documentado, mostra que o homem já estava no centro da América do Sul, muito antes do que se pensava anteriormente, e demonstra que a colonização da América do Sul ocorreu bem antes dos 12 mil anos, que era a idade estipulada anteriormente. Sítios como o Santa Elina possuem relevância mundial, mas pouco chamam a atenção nas redes sociais.
Outro exemplo fantástico são os mais de 20.000 geoglifos no sudoeste da Amazônia, que foram relatados em um trabalho publicado na prestigiada revista Nature. Essa descoberta evidencia uma civilização pré-colonial construtora de monumentos, que vivia na região entre 100 e 300 d.C., totalizando uma população estimada de 1,25 a 3 milhões de pessoas.
Talvez pareça mais atrativo pensar em cidades perdidas, aliens e outros temas abordados com frequência na pseudociência, porém estudar e reconhecer o passado do planeta e da nossa civilização também é algo sensacional, e o melhor, é construído com fatos, com perguntas e respostas reais. Por isso, precisamos sempre defender a ciência, a divulgação científica e o processo contínuo de desenvolvimento de novas pesquisas para construção de novas descobertas. Isso, sim, é transformador e interessante.
Caiubi Kuhn é geólogo, Doutor cotutela em Geociência e Meio Ambiente (UNESP) e Environmental Sciences (Universidade de Tubingen), Professor na UFMT, Presidente da Federação Brasileira de Geólogos (FEBRAGEO)








