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08 de Dezembro de 2018, 08h:58 - A | A

OPINIÃO / GUSTAVO DE OLIVEIRA

Curto-circuito burocrático

Nosso mercado consumidor cresce a cada ano.

Divulgação

Gustavo Pinto Coelho de Oliveira, presidente do Sistema Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso (Fiemt)

Gustavo Pinto Coelho de Oliveira, presidente do Sistema Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso (Fiemt)



Mato Grosso se orgulha de ser autossuficiente e até exportador de energia elétrica na maior parte do ano. Deixar que esse orgulho se transforme em armadilha seria um grande equívoco – e os entraves burocráticos para o incremento da geração de energia no Estado parecem nos levar diretamente ao encontro dessa armadilha.

Nosso mercado consumidor cresce a cada ano. Portanto, a garantia do fornecimento de energia não pode ser pautada apenas pela situação local e atual, mas sempre focada em projeções futuras e no mercado nacional. Temos pelo menos dois exemplos concretos sobre o quanto o conflito entre esferas governamentais gera entraves ao desenvolvimento.

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Na capital, segue sem solução o imbróglio do fornecimento de gás natural à Usina Termelétrica de Cuiabá. Por motivos de origem mais política do que técnica, a Petrobras, a Âmbar Energia e a GasOcidente Mato Grosso não conseguem chegar a um acordo que permita a vinda do gás natural da Bolívia. O resultado são milhares de consumidores do gás prejudicados, entre industriais, pais de família que trabalham como taxistas e motoristas em geral – além da transformação evidente da usina em um elefante branco, com seus 480 megawatts de potência instalada desligados.

Embora o custo da energia gerada pela termelétrica de Cuiabá não seja o mais baixo, trata-se, no mínimo, de uma opção contingencial, da qual o Operador Nacional do Sistema (ONS) já lançou mão por diversas vezes durante fases de baixa nos reservatórios hídricos. Existem usinas no Nordeste operando a gás oriundo do Qatar e, por entraves burocráticos, não conseguimos utilizar o gás boliviano, mais próximo e barato.

Outro exemplo corrente é a Usina Hidrelétrica de Sinop, no Rio Teles Pires. Após cinco anos de obras, quase R$ 3 bi investidos e execução 99,8% concluída, a usina está desde janeiro à espera da licença de operação para iniciar o enchimento da represa. Nenhuma resposta foi dada desde o protocolo junto à Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e lá se vão quase 11 meses. Se a licença passar de janeiro, a vazão dos rios começa a baixar e será necessário aguardar mais um ano. A Sinop Energia precisa honrar os contratos pré-firmados com as distribuidoras, comprando energia mais cara enquanto a usina, que já poderia estar gerando 402 MW, permanece à espera da represa.

Existem dois pedidos de suspensão da licença em tramitação, um do Ministério Público Estadual (MPE) e outro do Ministério Público Federal (MPF). Questionam valor de indenizações e também procedimentos ambientais. Iniciativas que geram insegurança e afetam diretamente a vontade de continuar investindo.

Que fique claro: não há aqui qualquer defesa de eventuais procedimentos irregulares, apenas do bom senso. Certamente existem soluções mais eficientes para evitar a paralisação de um empreendimento que foi previamente aprovado, cumpriu as condicionantes impostas pelo órgão ambiental e está a um passo do início das operações.

São dois casos emblemáticos, que inspiram receio a quem pretende empreender seriamente: investimentos gigantescos e estratégicos para o setor energético do país e que estão paralisados por questões regulatórias e conflitos de legislação.

A existência de duas usinas prontas, cujas capacidades somadas equivalem a quase a metade da demanda do Estado, à espera de liberação burocrática para acesso a seus principais recursos – água e gás –, ambos abundantes e de baixo custo de aquisição, enquanto o consumidor final paga bandeira vermelha na conta de energia, nos revela de maneira gritante o óbvio: o Brasil se tornou uma gigante armadilha burocrática para o investidor.

Gustavo Pinto Coelho de Oliveira, presidente do Sistema Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso (Fiemt)*

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