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Cuiabá, 20 de Junho de 2024
20 de Junho de 2024

31 de Dezembro de 2022, 08h:38 - A | A

OPINIÃO / APARECIDO CARMO

Bento XVI, o guardião da Liturgia



Bento XVI era o maior teólogo vivo da Terra. Defendeu a doutrina da Igreja num cenário hostil e fez prevalecer o nome de Cristo quando o espírito do mundo tendia para o indivíduo. O padre tímido que precisou abandonar a Universidade quando a Igreja percebeu a sua genialidade esteve por trás de algumas das principais decisões do Concílio Vaticano II, que reformou a liturgia católica, e, mais tarde, foi o principal nome do governo de João Paulo II. Eleito seu sucessor, nunca foi perdoado pela ala progressista da Igreja por ter se desligado deles.

Na juventude, foi obrigado (como todos os jovens alemães da época) a servir ao exército nazista e, já durante o seu papado, viu isso ser usado contra ele, como se qualquer jovem alemão naquela época tivesse opção.

Se tornou padre aos 24 anos e construiu uma carreira acadêmica e intelectual admirável. Feito bispo e cardeal em 1977, passou a ser uma presença cada vez mais frequente no Vaticano, onde era visto em cafés na companhia de estudantes e seminaristas.

Em 1981 se tornou o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, um dos cargos mais importantes sob o pontificado de João Paulo II. Supervisionou os trabalhos de produção da última versão do Catecismo (ainda em vigor) e, na América Latina se colocou contrário ao movimento conhecido como Teologia da Libertação, associado por ele João Paulo II a movimentos políticos de esquerda, sempre com o endosso do papa de então.

Era um defensor da liturgia e do silêncio, e, melhor do que ninguém, as utilizou como forma de ensinar aos fiéis e reconectá-los ao divino.

Nos meios católicos é comum ouvir a expressão "um santo nunca vem sozinho". No século XX, a Igreja teve, além de São João Paulo II, Santa Tereza de Calcutá – os maiores, sem nenhuma dúvida, daquele período. E certamente, em pouco tempo levará aos altares Bento XVI.

Ele será lembrado como o guardião da fé num momento pouco amigável com a Tradição. Pegou o “bastão” de um papa carismático, mesmo sendo tímido e pouco sociável. E o transmitiu, de bom grado e de forma espontânea, para o sucessor – algo inédito na Igreja de Roma, cujas renúncias conhecidas sempre foram forçadas direta ou indiretamente.

O simples trabalhador da vinha do Senhor, como ele mesmo se definiu na data da sua eleição como chefe da Igreja, encerrou sua jornada neste sábado, 31 de dezembro de 2022, aos 95 anos, longe dos olhos do mundo. Nunca foi do seu interesse ofuscar o papa Francisco. Conta-se que chegou a expulsar de sua casa um grupo de cardeais que o procurou para reclamar do papa que o sucedeu – informação nunca confirmada oficialmente.

Para os católicos mais tradicionais, sua morte representa o fim de um ciclo: era o último homem vivo feito cardeal antes do Concílio Vaticano II. Também foi o papa que permitiu o retorno, por assim dizer, do rito tradicional, em Latim, uma demanda histórica dos movimentos católicos tradicionais.

Por sua defesa da fé e sua clara preocupação em evitar a associação da Igreja Católica com as ideologias, foi apelidado de forma jocosa pela imprensa como o “Rottweiler de Deus”. Foi caluniado, teve suas palavras distorcidas e viu a Igreja em sua terra natal, a Alemanha, quase se separar da Cátedra de Roma.

O protestante George W. Bush, questionado sobre sua relação com o então chefe do Vaticano, disse que via Deus nos olhos de Joseph Ratzinger. Foi esse idoso, considerado o mais sábio entre os teólogos católicos, que surpreendeu o mundo ao renunciar, de forma discreta e inesperada, num consistório em 11 de fevereiro de 2013. Em Latim, ele disse não ter mais forças físicas e prometeu permanecer fiel à Igreja no silêncio e na oração.

Fica o legado de um Doutor da Igreja, que guardou a fé e a liturgia e renovou a esperança entre os homens de boa vontade.

Aparecido Carmo é jornalista e escritor.

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