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22 de Novembro de 2016, 07h:55 - A | A

OPINIÃO /

Aposentado

É preciso pensar bem antes de decidir ter uma vida bucólica no campo

RENATO DE PAIVA PEREIRA



O personagem desta crônica é um executivo aposentado que nos últimos dez anos fez planos  de curtir a nova fase da vida sem horários e sem patrão.  Como tinha um pé na roça, comprou uma chácara para plantar e criar animais.

Ele sabia que a produção em escala é fundamental para o sucesso de todo negócio. Claro que quem produz  mil geladeiras por dia tem muito mais poder de fogo e mais lucro   que o concorrente que fabrica cem.  

O aposentado rural (chamemos assim o personagem), como não está em idade de assumir grandes riscos resolve  adotar uma escala intermediária  e apostar na diversificação.  

A mulher está relutante em comprar a ideia, mas ele continua  disposto.  Prepara galpões,  monta a irrigação, contrata pessoal,  compra as ferramentas  necessárias. Animado,  adquire os primeiros animais:  5 porcas;  2 vacas, com cujo leite quer fazer queijo;   30 galinhas para produzir ovos e  frangos.   Também um cavalo e   charrete para  diversão  dos netos.

Acha que em 60 dias terá  alface pra vender e  em 4 meses haverá  uma fila na chácara para comprar os frangos caipiras que produzirá (isentos de agrotóxicos, conservantes ou produtos químicos). 

Em alguns meses a realidade começa a se impor: as duas vacas que  produziriam  30 litros de leite, estão feias, com pelo arrepiado e não dão nem 3  litros cada.

Passados 45 dias a alface (totalmente orgânica) está amarelada e raquítica e a bomba de irrigação já queimou duas vezes.  Substituiu o caseiro preguiçoso por outro pior. Este último não resolve nada e vive ligando  a qualquer hora ( a diversão dele é o celular)  para informar que  acabou a energia,  a vaca escapou do pasto ou que precisa faltar 3 dias pra  visitar a sogra.

Os custos com veterinário e medicamentos está ficando alto porque os leitões estão com diarreia,  os  pintinhos  morrendo  e as galinhas pararam de botar. 

Quando os frangos ficam prontos, mais pela idade que pelo tamanho,  começa a batalha pra vender:  um amigo quer um mais  paga 20 reais se for limpo e entregue na casa dele. O outro até compra dois, mas  paga só 15.  A mulher está brava porque não aguenta mais preparar os frangos que ele traz  todo dia.

A essa altura ele já percebeu que vai acontecer o mesmo com os porcos. Também  a  alface  vai ficar pronta para consumo ao mesmo tempo, e não sabe pra quem vender.  Mas ele não pode abandonar este sonho. Quem sabe investir em frutas, legumes,  criar peixes, codornas, abelhas?

Retomo aqui, meu caro leitor, que quer curtir a aposentadoria em uma bucólica chácara, a ideia de escala que comentei  no começo. A única forma de uma chácara de aposentado dar pouco prejuízo é exagerar na escala.... pra baixo.

Acredite no conselho de quem já  “fiz” isso:  plante somente umas 20 sementes de alface por vez e regue manualmente.  Compre no máximo 5 galinhas rústicas e esqueça de vacas e porcos. Plante algumas  árvores frutíferas, de preferência as  próprias da região.  Ah! Nem pense em  cavalo e charrete para distração dos netos. A internet ganha fácil esta disputa pela atenção deles.      

Agora, se você insistir em produzir, é bom arrumar outro emprego para sustentar a chácara. Aí, mais tarde, com duas aposentadorias, quem sabe possa tentar de novo.  

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor

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