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Cuiabá, 23 de Março de 2023
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23 de Março de 2023

29 de Dezembro de 2018, 07h:55 - A | A

OPINIÃO / DANIELA MAIMONI

Meio ambiente, ideologia e realidade

A atuação conjunta é fundamental para a conservação e recuperação ambiental



O aumento das demandas ambientais em muitos países começou no final de década de 1960, resultando na 1º Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente em Estocolmo, (1970). No Brasil, essas demandas levaram à criação do primeiro órgão responsável pela área, a Secretaria Especial de Meio Ambiente, em 1973, vinculada ao Ministério do Interior, que viria a se tornar Ministério de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente em 1985, alguns anos após a aprovação da Política Nacional de Meio Ambiente (Lei nº 6.938 de 1981). Ao mesmo tempo, várias Organizações Não Governamentais de Meio Ambiente foram criadas no país, cujo movimento foi fundamental para incluir esse tema na Constituição de 1988.  

Com as crescentes demandas nos anos seguintes, a partir da década de 1980 inúmeras instituições, legislações e procedimentos foram criados em todo o mundo para regular, analisar, controlar, manejar, licenciar, fiscalizar, recuperar, conservar, pesquisar, planejar e monitorar os ecossistemas nos diferentes biomas, envolvendo profissionais de várias áreas como biólogos, químicos, físicos, educadores, sociólogos, geógrafos, geólogos, gestores ambientais, engenheiros das mais diversas formações, entre outros.
 
Estes profissionais atuam nos órgãos gestores de meio ambiente, nas academias e  institutos de pesquisa, especialmente das universidade públicas, e nas ONGs da área ambiental. A atuação conjunta dessas instituições é fundamental para unir forças, buscar caminhos, prevenir conflitos e corrigir falhas, tanto para a conservação, quanto para a recuperação, planejamento e controle ambiental, de maneira cada vez mais eficiente e sustentável, baseados no conhecimento científico e no desenvolvimento tecnológico.  
No Brasil, os avanços na área ambiental são reconhecidos no mundo e vem sendo fortalecidos em diversos tratados internacionais que o país assinou, demonstrando nosso compromisso com o desenvolvimento sustentável que, por conseguinte, reflete na qualidade de vida da população. Com isso, estamos em consonância com a maioria dos países e com as demandas, as urgências (como os tratados sobre mudanças climáticas) e a própria preocupação com a sobrevivência da espécie humana no planeta, pois somos interdependentes e parte da natureza. Todos os recursos que consumimos diariamente tem origem na natureza e/ou de sua manipulação, especialmente os recursos mais vitais, como água, ar, energia e alimentos.  
 
Mato Grosso é um estado privilegiado em recursos naturais, tendo em seu território três importantes biomas brasileiros (Floresta Amazônica, Cerrado e Pantanal) e as nascentes dos rios de três grandes Regiões Hidrográficas do país (Amazônica, Paraguai e Araguaia-Tocantins), além de aquíferos, como o Guarani e o Parecis, chuvas regulares, grandes extensões de terra e sol praticamente o ano todo. Esses fatores favorecem, por exemplo, que a economia do Estado seja pautada na atividade agropecuária, principalmente para a produção de grãos (soja, milho, arroz) para exportação, e que em seus rios sejam construídas hidrelétricas, aproveitando o desnível natural do leito e/ou com a formação de reservatórios. 
 
Por outro lado, no Estado são reconhecidas algumas situações de conflitos de uso dos recursos naturais por uma atividade em detrimento de outra(s) ou em detrimento da perda de serviços ambientais essenciais, que resultam em assimetrias e indicam que a noção de abundância de recursos naturais em Mato Grosso é contraditória e que, mesmo com todo o aparato e avanços ambientais das instituições e leis, ainda existem falhas a serem corrigidas e melhorias necessárias. Dentre os conflitos, podemos citar como exemplo: 1) o barramento de um rio para a construção de um reservatório hidrelétrico versus as atividades de turismo e pesca (amadora e profissional); 2) o lançamento de esgoto doméstico para ser diluído em um rio versus o abastecimento público, a recreação, a pesca e o turismo; 3) o desmatamento para plantio de grãos e pasto em grandes áreas do cerrado e da floresta versus a regulação do clima, a retenção de carbono e a conservação do solo, da água e da biodiversidade. 
 
Estes exemplos demonstram o enorme desafio que temos e que é impossível nos dias de hoje pensar em crescimento econômico sem priorizar os aspectos socioambientais, uma vez que as atividades econômicas dependem diretamente dos serviços ofertados pela natureza. Dentre os serviços diretamente ligados a alguma atividade econômica, podemos citar: i) biodiversidade - polinização das plantas alimentícias pelos insetos, cadeias alimentares que sustentam a pesca, controle de pragas por predadores naturais, lazer e bem estar proporcionado pelas as áreas verdes, controle da erosão do solo e infiltração da água pelas raízes das plantas, plantas medicinais que sustentam a indústria farmacêutica e os usos caseiros, fonte de alimento direto pelo extrativismo natural (pequi, por exemplo);  ii) rios e córregos - áreas de lazer e contemplação, abastecimento público para consumo humano e industrial, fonte de água para pisciculturas e irrigação, habitat natural de espécies comerciais de peixes (fonte de alimento e de emprego e renda), navegação, produção de energia, lazer e recreação, hidroturismo, etc. 
 
Existem outros incontáveis e imensuráveis serviços ambientais que desfrutamos da natureza e dos quais depende a atividade econômica e a nossa sobrevivência, que não é a intenção detalhar neste artigo, mas sim mostrar com esses exemplos a intrínseca correlação que temos com a natureza e o quanto dependemos dela para sobreviver.
 
Para que possamos usufruir desses serviços ambientais, essenciais inclusive para as atividades econômicas, precisamos dos profissionais e instituições da área ambiental para garantir um ambiente equilibrado e com recursos em quantidade e em qualidade suficientes para atender a nossa geração e a dos nossos descendentes. Os recursos naturais não são infinitos, como pensávamos no passado, com isso, determinadas alterações que provocamos na natureza e/ou na vida das pessoas podem ser irreversíveis e superar qualquer benefício econômico. 
 
Por fim, é importante ressaltar que os problemas ambientais atuais resultam do modo como nos relacionamos com a natureza, ou seja, estão muito além de qualquer tipo de ideologia, pois afetam a nossa própria sobrevivência no planeta, um desafio real e inevitável.
Daniela Maimoni de Figueiredo
 
DANIELA MAIMONI DE FIGUEIREDO é bióloga, professora e pesquisadora associada do Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos da Universidade Federal de Mato Grosso e membro do Observatório de Governança da Água (OGA-Brasil).

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