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13 de Dezembro de 2014, 08h:33 - A | A

OPINIÃO /

Fim de festa

Encerra-se um ciclo em MT. Era dos grandes empresários dá lugar a outro tipo de diálogo com a sociedade

EDUARDO MAHON



Encerra-se um ciclo em Mato Grosso. Boa ou má, a era da administração de grandes empresários está dando lugar a outro tipo de diálogo com a sociedade. 

A esperança na gerência empresarial da estrutura burocrática estatal encheu de esperança os cidadãos que foram contemplados com doze anos de um grupo político que se despede com vários hiatos: não só não fizeram os sucessores como o próprio grupo anuncia a despedida da política. 

É preciso reconhecer que Mato Grosso precisava de novos conceitos administrativos, mas o fim de festa deste governo que se despede é sintomático: orientações técnicas, empresariais ou essencialmente políticas equivalem-se ou distinguem-se, dependendo da qualidade da equipe formada. 

Noutras palavras: o sucesso não depende do conceito pessoal do governante, se “técnico”, se “político”. 

Varia, sobretudo, se é ou não eficiente e está ou não comprometido com o bem público acima de interesses particulares.

O grupo que se retira não sai vitorioso. A propaganda de grandes realizações não só deixou de render dividendos políticos como amealhou ações judiciais de toda a ordem, projetando-se no tempo, podendo gerar inelegibilidades. 

A proposta, basicamente, era excelente: trazer para a administração pública os valores bem sucedidos da iniciativa privada do setor agroexportador que faz fortuna no meio nacional e internacional. 

Todavia, algo deu errado. Ninguém administra sozinho e os laços necessários à governabilidade ocasionam a entrega de postos de comando a pessoas menos capazes, cujo mérito está muito mais ligado ao lobby do que à capacidade pessoal. 

Forma-se, então, o que há de pior na administração pública: o discurso autorreferente e grandiloquente dos subordinados que cercam o chefe executivo. 

Os líderes, reféns da vaidade de um grupo que os blinda da realidade, são seduzidos pelos profissionais do serviço público. 

Em resumo: quem nunca sobreviveu na iniciativa privada gruda-se ao chefe como um mexilhão nos cascos de navios de grande calado.

Na república romana, após o consulado, o administrador retirava-se para o campo. Era uma opção honrada, já que os patrícios não tinham a perspectiva de eternizarem-se no poder. 

Por essas bandas, ocorre o contrário: o autoexílio é a última alternativa para o político, atestando grave crise de credibilidade pessoal, administrativa e política. Por vezes, até mesmo afetado por escândalos pessoais dos mais patéticos. 

A população sente que o governante mais foi servido do que serviu, observando atônito às escaladas patrimoniais sem paralelo na iniciativa privada. 

Afinal, para que investir milhões em campanhas? Qual o retorno do grupo empresarial de sustentação eleitoral? 

A contraprestação pode atender às vaidades pessoais ou poderá ser pior – o uso da máquina pública para incrementar negócios particulares, por meio de isenções tributárias, de obras públicas que valorizem empreendimentos de determinados grupos ou de concessões públicas a aliados. 

Essa recompensa pecuniária geralmente está calçada por acertos que, quando não são criminosos, configuram-se improbidades administrativas. O fenômeno não é exclusivo de nenhuma unidade federada, infelizmente.

Então, o anúncio do “perfil técnico” já foi visto. Após tantos anos, não há nada de novo que deixe de revisar propagandas antigas. 

A expectativa técnica já foi um paradigma do atual grupo que se despede. Aos poucos, foi cedendo à política tradicional para se sustentar. 

As experiências brasileiras de reeleição nos convence que o custo de manter o poder é enorme para a sociedade. Deu-se o mesmo em Mato Grosso. Não poderia ser diferente. 

As intenções realmente eram excelentes, tudo corria para fazer o Estado despontar nos indicadores nacionais de produtividade privada e, com esses paradigmas, seguir dinâmico e forte na administração estatal. 

Há muita gente que se arrependeu de ter apostado na equipe, no conceito, na imagem, na postura que, em muitos casos, não passa de blefe. 

Paciência. A vida não é feita somente de acertos. Essa eterna lição fica aos futuros administradores: na escolha entre técnicos e políticos, não há uma paleta de valores para o melhor ou o pior. 

O que faz o governo funcionar e ser bem sucedido é, antes de tudo, a honestidade.

EDUARDO MAHON é advogado em Cuiabá.

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