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Superada a solidão, a incompreensão das pessoas ao redor, o diagnóstico de fibromialgia trouxe para a atriz algumas libertações.
BRUNA FERREIRA
QUEM
Carol Castro ia encontrando desculpas para os desconfortos físicos. “Eu sentia fortes dores de cabeça e falava que era sinusite ou que estava trabalhando muito. Eu também sentia dores no joelho, mas a personagem usava salto alto, então devia ser por isso. Além do mais, eu já estava vivendo um momento pessoal difícil”.
Meses antes da novela começar a ser gravada, a atriz se despedia de seu pai, Luca de Castro, aos 70 anos, que a inspirou a seguir carreira artística ainda menina. De Castro foi um dos fundadores da Cia. Teatro do Nada, professor de interpretação da faculdade de Artes Cênicas na UniverCidade, tendo atuado em obras como Direito de Amar (1987), A Próxima Vítima (1995), O Profeta (2006), Império (2014) e Éramos Seis (2019).
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“Meu mundo caiu total. Eu nunca tinha perdido ninguém tão próximo assim. Meu pai era meu melhor amigo, confidente, muso inspirador. Sou atriz por causa dele, então foi um baque muito forte”. Luca de Castro morreu em dezembro de 2023, dias depois de bater papo com a filha com planos para a ceia de Natal.
Antes do óbito, Carol Castro já vinha assumindo todo tipo de responsabilidade de filha com pai idoso, ao mesmo tempo em que gravava a série Jogo Cruzado, da Disney, onde acabou lesionando o joelho em outubro do mesmo ano. Os compromissos com a família e também com os colegas de trabalho fizeram com que a atriz ultrapassasse seus próprios limites, físicos e emocionais.
“Estava na minha mão a continuação da série e eu quis continuar. Íamos filmar até antes das festas, pausar e retornar para conclusão em janeiro de 2024. Eram mais de 100 pessoas dependendo de mim e eu pensava nos empregos de todo mundo. Fui passando por cima da minha saúde, trabalhando com fortes dores e tomando remédios e mais remédios”, recorda. Foi na semana antes do Natal que Carol se despediu do pai.
“Foi aquela coisa de passar o Natal em luto, mas com filha de férias. Eu não tinha tempo de viver o luto. No dia 8 de janeiro, eu já estava voltando para São Paulo para terminar de filmar. Minha primeira cena era uma chamada de vídeo com o meu pai da série. Obviamente, eu caí no choro e me deram um tempo para me recuperar. Terminei de gravar a série na madrugada do dia 24 de janeiro e no dia 6 de fevereiro, eu finalmente entrava na sala de cirurgia para operar o joelho lesionado em outubro passado”, conta.
Carol tinha rompido totalmente o LCA, que é o ligamento cruzado anterior, e fraturado a tíbia, principal osso de suporte da parte inferior da perna. Foi durante a reabilitação, com sete a oito meses de cirurgia, que a atriz entrou na novela Garota do Momento, para assumir o papel que havia sido recusado por Débora Nascimento.
“Entrei na novela porque não ia perder aquela oportunidade. Eu não era a primeira opção, me chamaram nos 45 do segundo tempo. Quando eu vi o arco dramático da personagem, eu falei: ‘É tudo o que eu sempre quis’. Eu vou, não quero saber”, revela.
Durante a novela, a atriz começou a perceber algumas marcas que começaram a surgir em seu corpo e procurou um angiologista, médico especialista em problemas vasculares, após uma dica da fisioterapeuta que a estava acompanhando na reabilitação do joelho. Ali, começou a saga e até chegar ao reumatologista e ao diagnóstico de fibromialgia, a atriz ainda investigou a possibilidade de trombose e cianose.
Desde janeiro de 2026, a fibromialgia e doenças correlatas foram reconhecidas como condições passíveis de configurar deficiência, observando os critérios estabelecidos no Estatuto da Pessoa com Deficiência, permitindo políticas públicas adequadas para indivíduos que, comprovadamente, enfrentam barreiras para a plena participação social em igualdade de condições com outras pessoas.
Apesar da legislação, um dos principais desafios ainda está no preconceito. “Tem gente que me fala: ‘Cara, você é muito corajosa. Você não tem medo de não te chamarem para trabalhar por causa da fibromialgia?’. E eu acho que não. Eu me sinto muito honrada em poder servir de porta-voz, no meu lugar de artista, de poder informar, transformar, me sinto quase numa missão de ajudar a disseminar informações e ajudar o máximo de pessoas possíveis”.
Carol Castro segue trabalhando muito, aprendeu a reconhecer alguns gatilhos e investe exercícios físicos e cuidados preventivos. Os remédios para ansiedade foram necessários em determinados momentos, mas agora não são. “Eu tive algumas crises, nunca cheguei a falar muito sobre isso, e também não é uma regra, mas muitas vezes os sintomas costumam vir acompanhados de ansiedade. É muito mais comum em mulheres. A gente se coloca muito nesse lugar da dor: ‘Eu aguento, eu consigo’”.
Superada a solidão, a incompreensão das pessoas ao redor, o diagnóstico de fibromialgia trouxe para a atriz algumas libertações. “Primeiro que você vê que não está doida, você não está louca, realmente existe ali uma situação com o seu cérebro e, então, você vai entendendo que existe um tratamento, que não é uma cura, mas um tratamento. Depois é preciso um momento de parada, de aceitar uma limitação física, lembrando que você não é invencível. Depois que você aceita, você se sente um pouco livre”.












