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28 de Novembro de 2014, 11h:41 - A | A

OPINIÃO /

Sobre a morte

Ao primeiro, a morte é desejada. Ao segundo, ela é a “Indesejada das gentes”

ROBERTO BOAVENTURA



Hoje, a morte é o mote deste artigo. Adiante, direi com quase todas as letras o porquê. Antes, começo com poesias, pois mesmo quando elas tratam da morte, falam da vida. Assim, para essas reflexões, recorri aos poetas Junqueira Freire e Manuel Bandeira.

Do primeiro, resgato o poema “Morte” de 1855. Nele, movido por vários desajustes, como estar forçado em um mosteiro, além de ter recebido influência dos poetas Byron e Musset, Freire – morto aos 22 anos – fez uma das mais destemidas evocações à morte. Das dezenove estrofes que compõem o poema, leiamos a última:

“Por isso, ó morte, eu amo-te e não temo:// Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.// Leva-me à região da paz horrenda,// Leva-me ao nada, leva-me contigo.”

Da obra de Bandeira, vou ao poema “Consoada” de 1952:

“Quando a Indesejada das gentes chegar// (Não sei se dura ou coroável), // Talvez eu tenha medo.// Talvez sorria, ou diga:// - Alô, iniludível!// O meu dia foi bom, pode a noite descer.// (A noite com seus sortilégios.)// Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,// A mesa posta,// Com cada coisa em seu lugar”.

Por esses versos, vemos a diferença da postura perante a morte demonstrada por um e outro escritor. Ao primeiro, a morte é desejada. Ao segundo, ela é a “Indesejada das gentes”, inclusive a ele.


Todavia, como inevitavelmente a “Indesejada” já vinha voando ao seu encontro, a saída honrosa que achou foi dizer à “iniludível” que esta, ao chegar, encontraria “...cada coisa em seu lugar”: campo lavrado, mesa posta, casa limpa.

Em outras palavras, diante do inevitável, fica evidente a tranquilidade do eu-poético de ter cumprido com todas as suas atividades.

Agora, mas antes agradecendo “in memoriam” aos dois poetas pelo auxílio, tomo a liberdade de perguntar: o que você, leitor, gostaria de fazer horas antes da vinda da “Indesejada”, que espero esteja bem distante deste momento?

De minha parte, não tendo a coragem de Freire, bastar-me-ia ter a tranquilidade de Bandeira. Gostaria de estar ciente de que tudo o que fiz foi realizado da melhor maneira possível, ainda que tudo pudesse estar distante da perfeição. Sobretudo, gostaria de ter a certeza de que, em momento algum, não importando o motivo, eu tivesse dependido conscientemente de gente desonesta; afinal, sempre que posso, mas nem sempre posso, fujo desse incontável tipo humano.

Mas por que estou falando disso?

Porque, semana passada, a morte de um renomado jurista e ex-ministro da República, durante o governo Lula/PT, inquietou-me deveras.

Em seu velório, só elogios, como os que seguem:

1º) “O Brasil perde uma grande referência na área jurídica” (José Eduardo Cardoso);

2º) “Um homem raro e que muito contribuiu para mudar a história do país” (Lula);

3º) “O país perdeu um grande homem... eu perdi um grande amigo” (Dilma).

Resumo dos elogios: exemplo de brasileiro que, mesmo em leito hospitalar, teria trabalhado até os últimos momentos de sua vida para livrar da prisão empresários presos na operação Lava Jato, empreendida – com aplausos de todos – pela Polícia Federal; ou seja, trabalhou pela liberdade dos maiores corruptos e corruptores – pelo menos até onde se sabe – da história deste país. Quiçá pelos ossos do ofício, mas isso já lhe era prática antiga.

Que alívio ser professor de Literatura! Que bom escrever artigos! Que bom saber que lavro o meu campo, que minha mesa está posta, que minha casa está limpa e livre de gente indesejada na vida; e, assim, pretendo continuar até que a “Indesejada das gentes” também me leve consigo, mesmo que “ao nada”.

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é doutor em Jornalismo pela USP e professor de Literatura na UFMT.

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