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Dra. Camila Backes é médica com formação em Cirurgia Geral e Endoscopia Digestiva, atuação em gastroenterologia e formação complementar em nutrologia.
CAMILA BACKES
Distensão abdominal, excesso de gases, desconforto após as refeições e alterações do funcionamento intestinal são queixas frequentes nos consultórios médicos. Para muitas pessoas, esses sintomas se tornam parte da rotina, comprometendo a alimentação, o convívio social e a qualidade de vida. Na tentativa de encontrar alívio, não é raro que pacientes adotem dietas restritivas, eliminem alimentos ou recorram a suplementos sem uma investigação adequada.
Os avanços no conhecimento sobre a microbiota intestinal ampliaram nossa compreensão dos distúrbios digestivos. Entre as condições que ganharam atenção estão o supercrescimento bacteriano do intestino delgado, conhecido como SIBO, e o supercrescimento intestinal de metanogênicos, denominado IMO.
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Entretanto, reconhecer essas possibilidades não significa atribuir a elas todo desconforto abdominal. O principal desafio continua sendo estabelecer diagnósticos precisos e evitar tratamentos desnecessários.
O SIBO caracteriza-se pelo aumento anormal da população bacteriana no intestino delgado, região responsável por grande parte da digestão e absorção dos nutrientes. Já o IMO envolve o crescimento excessivo de microrganismos produtores de metano e apresenta associação importante com a constipação intestinal.
Ambas as condições podem estar relacionadas a distensão abdominal, gases, dor e alterações do hábito intestinal, sintomas que também estão presentes em outras doenças digestivas.
Por isso, é fundamental compreender que nem toda barriga inchada representa SIBO ou disbiose intestinal. A avaliação médica deve considerar o histórico clínico, a persistência dos sintomas, os fatores predisponentes e a necessidade de exames específicos.
Nesse contexto, os testes respiratórios de hidrogênio e metano representam ferramentas importantes na investigação. Realizados após a ingestão de substâncias como glicose ou lactulose, esses exames analisam a concentração de gases no ar expirado e podem identificar padrões compatíveis com SIBO ou IMO.
Na minha prática clínica em Cuiabá, tenho realizado um número expressivo de testes respiratórios para investigação dessas condições. Entre os pacientes selecionados para o exame, tenho observado uma frequência relevante de resultados positivos, experiência que reforça a importância de reconhecer os fatores predisponentes e investigar adequadamente os sintomas persistentes.
Entretanto, é importante destacar que essa positividade ocorre em uma população previamente selecionada por suspeita clínica e não representa a frequência dessas condições na população geral.
Embora contribuam para decisões clínicas mais direcionadas, os testes apresentam limitações e podem produzir resultados falso-positivos ou falso-negativos. Sua interpretação exige critérios técnicos e correlação com o quadro clínico. Um resultado positivo, isoladamente, não deve justificar automaticamente um tratamento.
Outro aspecto essencial é compreender as causas que favorecem o desenvolvimento e a recorrência dessas alterações. Problemas de motilidade intestinal, determinadas doenças sistêmicas, cirurgias digestivas anteriores e o uso de alguns medicamentos podem estar envolvidos. Tratar apenas os sintomas, sem considerar esses fatores, pode comprometer os resultados a longo prazo.
Quando indicado, o tratamento pode incluir medicamentos, estratégias nutricionais e medidas voltadas ao funcionamento intestinal. Entretanto, não existe uma abordagem única para todos os pacientes. Restrições alimentares prolongadas, especialmente quando realizadas sem acompanhamento, podem comprometer a relação com a comida e não necessariamente resolver a origem do problema.
Na prática clínica, observo que o sofrimento provocado pelos distúrbios digestivos ultrapassa os sintomas físicos. Muitas pessoas deixam de frequentar restaurantes, participar de encontros familiares ou viajar por receio do desconforto após as refeições.
Em pacientes adequadamente diagnosticados, o tratamento direcionado pode proporcionar melhora significativa dos sintomas e da qualidade de vida, embora os resultados variem e algumas pessoas apresentem recorrência.
Uma das experiências mais gratificantes da minha atuação é acompanhar pacientes que, após um período de desconforto e restrições, conseguem recuperar a confiança para se alimentar e participar de momentos sociais com mais tranquilidade.
Minha experiência na assistência e no ensino médico também reforça a importância de compartilhar conhecimentos sobre os métodos diagnósticos e suas limitações. A atualização científica e a capacitação dos profissionais de saúde são fundamentais para selecionar adequadamente os exames, interpretar os resultados e evitar intervenções desnecessárias.
A evolução da medicina digestiva oferece novas possibilidades de investigação, mas exige responsabilidade na utilização dos recursos disponíveis. Mais importante do que solicitar exames indiscriminadamente é reconhecer quais pacientes realmente podem se beneficiar deles e construir estratégias terapêuticas individualizadas, fundamentadas em evidências científicas.
Afinal, cuidar da saúde intestinal não significa apenas controlar gases, reduzir a distensão abdominal ou normalizar resultados de exames. Significa também devolver ao paciente bem-estar, autonomia e confiança.
Comer é mais do que uma necessidade fisiológica. É um ato de convivência, cultura e prazer. Preservar essa relação também faz parte do cuidado com a saúde digestiva.
Dra. Camila Backes é médica com formação em Cirurgia Geral e Endoscopia Digestiva, atuação em gastroenterologia e formação complementar em nutrologia. Possui experiência em assistência hospitalar, ensino médico e investigação de distúrbios gastrointestinais, incluindo SIBO e IMO. Atua em Cuiabá (MT), com atendimentos presenciais e por teleconsulta. CRM-MT 9127 | RQE 6145 (Cirurgia Geral) e 6146 (Endoscopia)












