JORGE MACIEL
Habituado a administrar analgésicos aos seus pacientes, o ex-prefeito de Cáceres, o médico Antônio Fontes, já falecido, certa feita me disse que “nenhuma parte do corpo humano dói tanto quanto o bolso”. Realmente. Os efeitos de campanhas de conscientização, por dias, meses, anos nem de longe chegam a se comparar ao arraso e abatimento funcionais que um pagamento de uma multa provoca.
O multado fica insone, estremece, na maioria das vezes se redime. Nem puxões-de-orelha, pitos, prisão ou fuzilamento são capazes, seguramente, de produzir resultados tão suficientes como o faz a subtração de cifras na conta corrente de um infrator. Sem saída, obrigado a ir ao guichê pagar multa por infração no trânsito, o sujeito se depura, sussurra juras e torna-se tão consciente que faria inveja a um sereno cidadão escandinavo.
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Mantenho reservas sobre a falta de talento do secretário Thiago França em corrigir trechos onde pequenas intervenções bem que poderiam melhorar o fluxo de veículos e acabar com o martírio dos motoristas. Se se ver apenas a região da Morada da Serra até o mais indiferente há de convir que o purgatório dos motoristas, mesmo que não seja hora do rush, poderia perfeitamente deixar de ser, caso algumas medidas fossem tomadas. A Semob poderia agir, vigilante, dia a dia, buscando soluções. Não o faz.
Mas, em se tratando das lombadas eletrônicas atuais e as mais de trinta já anunciadas pelo prefeito Mauro Mendes, este sim o objetivo deste artigo, a decisão está em perfeita medida, e ainda é nem é a ideal ante à escalada dos delitos e mortes no trânsito. Por mim, brearia a cidade com quantas lombadas e sensores fossem necessários.
Nas cidades onde o monitoramento do trânsito está, também, subordinado à dor que no bolso emboca, a quantidade de acidentes despencou, mostram os recentes gráficos. A instalação de pardais na Marginal dos Pinheiros, em São Paulo, por exemplo, que forçou o impaciente a tirar o pé e seguir a 50 e 60 km/h, fez descer em 36,7% as ocorrências de delitos ocasionados pelo excesso de velocidade. Nas demais capitais ou cidades, a proporção é a mesma: enquanto a quantidade de pardais aumenta, as dores nos bolsos aliviam.
Por estas bandas, só no ano retrasado, informa a delegacia de delitos de trânsito, foram 44 mortes, 139 internações, 13 delas em UTIs, 148 abalroamentos pequenas colisões, e, sabe-se lá, quantas frenagens tresloucadas resultantes do excesso de velocidade [a delegacia não tem números atualizados]. Neste ano, até aqui, com os pardais de olho, esse número foi a 34% abaixo, no geral, e para 23% nos locais onde é iminente a dor no bolso dos apressadinhos.
O plano de expansão de reguladores eletrônicos de velocidade e infrações nas ruas é discutido em tudo o que é canto, nos bares e nas bocas. Mas apenas os motoristas predestinados a não seguir regras praguejam e esticam conversa. Quem dirige de boa alma, subordinado à lei, está imune às dores atrozes que se originam no fundo do bolso.
Motoristas que imprimem velocidade adoidada sem atinar para a vida alheia [já que a sua nada vale] devem, sim, sofrer o peso do braço implacável da lei e a dor cruel ao esvaziar o bolso, já que a maioria dos juízes amolece na hora da sentença. Com a dor lancinante no bolso, o infrator promete nunca mais repetir o erro.









