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04 de Setembro de 2016, 07h:55 - A | A

OPINIÃO /

Memorial Rondon: arquitetura e natureza

O projeto arquitetônico resulta de parceria de sucesso

Divulgação.

Benedito Libânio Souza Neto é Arquiteto e Urbanista

Benedito Libânio Souza Neto é Arquiteto e Urbanista

BENEDITO LIBÂNIO



Surge na paisagem do Pantanal Mato-grossense um ícone da arquitetura brasileira. Sonho de uma das nossas mais brilhantes personalidades, o saudoso Governador Dante Martins de Oliveira, o Memorial Rondon toma forma a partir dos traços dos arquitetos José Afonso Botura Portocarrero e Paulo Molina Duarte Monteiro.

Localizado no Distrito de Mimoso, em Santo Antônio de Leverger, a obra presta justo tributo a ilustre filho desta terra, o marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, um dos maiores humanistas dos séculos XIX e XX, indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Esse grande desafio só foi vencido graças à visão estratégica e ao reconhecimento que o governador Pedro Taques tem para com os ilustres cidadãos que escreveram nossa História.

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O Memorial Rondon oferecera espaço para: acervo do marechal, que hoje se encontra em grande parte fora do Brasil; pesquisas; exposições itinerantes; além de fomentar a economia a partir do turismo, fonte de renda para toda a região. Do projeto a execução da obra passou-se quase vinte anos, marcados por interrupções e equívocos de gestores que não souberam entender a dimensão dessa intervenção no território pantaneiro.

O projeto arquitetônico resulta de parceria de sucesso de dois grandes arquitetos mato-grossenses, ambos premiados nacionalmente. Eles souberam com muita sensibilidade, expressar a inspiração que da terra haurem por nossas raízes. Relendo a arquitetura vernácula indígena, pautada na sustentabilidade e na integração com a natureza, Portocarrero recupera conceitos esquecidos em nossos dias. Paulo Molina, forjado na arquitetura mineira, nas tradições do aço de grandes arquitetos como Éloa Maia e Sylvio de Podestá, agrega ao projeto a contemporaneidade, leveza e sutileza. Dessa fusão surge o conceito e o partido arquitetônico.

O edifício no Largo de Mimoso, no pé da serra, dialogando com a urbanidade e a paisagem, da uma lição de esplêndida de arquitetura. O seu acesso dá-se por uma passarela suspensa. Esta, poeticamente, convida-nos a entrar e desfrutar dos mais de 3.000M2 de área construída. Acomodado em dois pavimentos, respeitando os ciclos intermitentes de cheia e vazante da região, a estrutura se conecta ao solo através de palafitas em concreto armado, permitindo acesso durante todas e estações do ano. Esquadrias–brises, formadas de trama composta por telas vazadas, desconstroem os conceitos tradicionais de abertura, fazendo o fechamento da estrutura e se destacando no projeto.

Além da flexibilidade, isso permite que a luz natural ilumine piso todo térreo, propiciando economia de energia. O estilo rústico, juntamente com a composição dos materiais utilizados, é outro ponto alto da obra. Ao adentrarmos o Memorial, no pavimento térreo, na área de exposição, temos a integração com a natureza. No horizonte, em ângulo panorâmico, podemos avistar a bucólica vila, implantada sabiamente no pé da serra, com as belas baías ao redor dela.

A sua planta remete à formas orgânicas da natureza, permite relação mais aberta com o espaço. Subindo aos mezaninos, temos a grata satisfação de estar em ambientes mais intimistas, voltado às atividades de leitura e gestão. Essa dialética, caracterizada por espaços abertos e fechados, lembra-nos Gaston Bachelar de Poética do Espaço: a composição volumétrica aguça nossa percepção. Voltando o olhar de fora para dentro, agora saindo do Memorial, depara-se-nos estrutura assemelhada ao desenho de uma tribo.

Sua forma parece minimalista, num primeiro momento. Entretanto, olhar mais detido revela muitos detalhes de uma bela trama estrutural. Presente para os olhos Hoje, estando a obra concluída e entregue, conforme bom padrão de qualidade, podemos desfrutar dos seus enormes benefícios. De certo o marechal Rondon e o governador Dante de Oliveira, lá do alto onde estiverem, contemplam o Monumento com orgulho e alegria do que fez a sua gente por inspiração dele.

Mas não podemos deixar de falar dos lutadores que tanto fizeram pela realização da bela obra. Quanto devemos aos autores do projeto arquitetônico! Incansavelmente eles buscaram cumprir a missão recebida, enquanto defendiam a integridade do seu trabalho.

Também deve ser enaltecida os abnegados integrantes da Sociedade dos Amigos de Rondon, que mesmo diante dos maiores obstáculos nunca deixou de acreditar, exemplificados pelos saudosos Ramiz Bucair, Clóvis de Melo, Silva Freire e Ivan Pedrosa; e não menos relevante a comunidade do povo simples e valoroso de Mimoso recebeu o devido reconhecimento a que tanto fez jus, na pessoa de seu mais ilustre filho; a esses, e a tantos outros cidadãos anônimos engajados na luta por nossa história e nossa identidade, manifestamos a gratidão de Mato Grosso e sua Capital. *

Benedito Libânio Souza Neto é Arquiteto e Urbanista. Superintendente do Instituto de Planejamento e Desenvolvimento Urbano de Cuiabá – IPDU. Membro da Sociedade dos Amigos de Rondon.

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