SONIA MAZETTO
Por muito tempo, ouvir alguém dizer que era “da roça” carregava um peso. Era quase como se aquilo diminuísse a pessoa, como se o campo fosse um lugar de atraso e a cidade representasse o verdadeiro progresso. Quantas famílias incentivaram seus filhos a deixarem a terra porque acreditavam que o valor estava longe dela?
Mas o tempo mostrou outra realidade. Hoje, vivemos uma transformação profunda. A “roça” ganhou nome, identidade, tecnologia, força econômica e reconhecimento. Hoje ela é AGRO e, mais do que uma mudança de palavra, houve uma mudança de percepção, de pertencimento e, principalmente, de valorização. O que antes muitos escondiam, hoje é motivo de orgulho.
Quando alguém afirma “eu sou do agro”, carrega consigo um estilo de vida, uma conexão com a terra, com a produção, com a natureza e com algo essencial que a capacidade de alimentar o mundo (e muito mais). Porque essa continua sendo a grande verdade, o mundo depende do campo, depende de quem planta, de quem cria, de quem produz, de quem acorda cedo para manter viva uma cadeia que sustenta cidades inteiras.
A terra continua sendo a mesma. Continua acolhendo, ensinando, oferecendo serenidade através dos rios, dos sons da natureza e da simplicidade que muitos só conseguem valorizar depois de experimentar o excesso da vida urbana. E, talvez por isso, estejamos vendo um movimento tão interessante acontecer.
Hoje, muitas pessoas que passaram a vida inteira nas cidades, em grandes empresas e indústrias, começam a buscar justamente aquilo que antes era desvalorizado, que é o contato com a terra, a vida no campo, a desaceleração, o pertencimento. Quantas pessoas, depois de adoecerem emocionalmente ou fisicamente, escolhem voltar para o interior, para a fazenda, para o sítio? Isso não é coincidência, é reconexão.
E dentro dessa transformação, existe algo ainda mais poderoso acontecendo: o protagonismo feminino no agro. As mulheres sempre estiveram presentes no campo. Foram elas que aprenderam a fazer queijo, tirar leite, cuidar da produção, administrar a casa, ajudar na lavoura e sustentar famílias inteiras com trabalho silencioso e indispensável. A diferença é que agora elas deixaram de estar apenas nos bastidores.
Hoje, as mulheres do agro lideram propriedades, administram fazendas, conduzem negociações, dominam tecnologias, comandam equipes e ocupam espaços que durante muitos anos foram considerados exclusivamente masculinos. E fazem isso com competência, sensibilidade, estratégia e coragem.
Quando não estão lado a lado com seus parceiros na gestão das propriedades, muitas vezes estão sozinhas, assumindo integralmente a condução do negócio e mostrando diariamente que pertencem a esse lugar. Esse fortalecimento feminino no agro não é uma tendência passageira, é um movimento sólido, crescente e necessário.
Eventos, feiras, projetos e iniciativas voltadas às mulheres do agro têm surgido cada vez mais fortes. E isso mostra que o setor compreendeu algo importante: não existe futuro para o agro sem a participação ativa das mulheres. Ver mulheres liderando espaços como a Green Farm, criando conexões, fortalecendo redes e abrindo caminhos para outras mulheres, reforça exatamente isso.
O agro deixou de ser apenas produção. Hoje ele também é identidade, inovação, pertencimento e transformação social. E talvez a maior beleza de tudo isso seja perceber que a essência nunca mudou, a terra continua sendo a terra... mas agora, finalmente, quem vem dela entende o próprio valor.
Sonia Mazetto é gestora de potencial humano, terapeuta integrativa, fonoaudióloga e palestrante.













