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25 de Novembro de 2013, 09h:20 - A | A

OPINIÃO /

Bye bye Facebook

Onde antes havia solidariedade e compreensão, hoje extravasa intolerância e ódio

LUIZ CAVERSAN
FOLHA DE SÃO PAULO



Deu. Esgotou. Cansou. Encheu.

Vou tirar férias do Facebook, a rede social à qual me entreguei com prazer e dedicação nos últimos quatro anos e a qual já defendi inúmeras vezes aqui como a esquina virtual da nova era, o boteco pós-moderno, um ponto de encontro rápido, ágil e saudável dos nossos novos tempos.

Aquilo que sempre louvei como uma das ferramentas mais fantásticas criadas no mundo pós-internet para aproximar as pessoas, fazer circular a informação da forma mais democrática, promover inclusão digital, aparar arestas de desigualdades online, desandou num mar de baixarias inomináveis.

Com os mais recentes capítulos do espetáculo em que se transformou o chamado mensalão, a turba ignara explodiu e expandiu seus mais desprezíveis instintos, à esquerda, à direita, acima, abaixo, entre.

Em vez do prazer da troca de impressões, a decepção diante das iniquidades propaladas aos berros; onde antes havia solidariedade e compreensão, hoje extravasa intolerância e ódio.

Dá medo...

É negro safado pra lá, é petralha maldito pra cá, é prende mata e esfola, é deixa morrer à míngua que está de bom tamanho. É quem não está comigo que se exploda, não ouse discordar, ouvir para quê?

Pronto, deu...

A partir deste sábado pretendo ficar ao menos uma semana ou dez dias (ou para sempre) sem nem sequer dar uma olhadinha na timeline. Postar alguma coisa, nem pensar, desperdício: estamos vivendo um diálogo de surdos e mudos que desprezam a linguagem dos sinais.

Certamente pouparei meu fígado e preservarei o humor matinal (que não obstante continuará agredido pelas manchetes dos jornais...); aposto que dormirei mais tranquilo e com menos decepção com a pessoa humana desinteligente, grosseira e autoritária que inclusive muitos amigos de verdade se tornaram.

É isto o que está acontecendo: o que sempre foi prioritariamente um fórum de debates e de livre circulação de informação tornou-se um desopilódromo no qual se verte fel da mais profunda maldade recôndita na alma dos que supunha-se bons.

Onde havia dicas, sugestões, compartilhamentos de boas ideias, agora predomina o desfiar de radicalismos, intransigências e parvoíces.

Em uma semana, dez dias haverá tempo suficiente para recuperar o tempo perdido: voltar à pilha de livros que se encontra meio que encalhada aqui, conversar, mais e de verdade, com as pessoas, pesquisar, ainda que na internet, caminhos que possam levar ao que o ser humano tenha um pouco de melhor do que suas certezas, suas raivas e suas intransigências.

A direita feroz se equivale na esquerda cega, a inteligência política se rende ao mais reles instinto policialesco e punitivo - mata, esfolha, lincha! -, e muito pouco do que se tem a dizer, do que se diz, ou se grita, hoje em dia entre os meus "amigos" do Facebook, quase nada disso me interessa.

Fui, quem sabe volte, mas desde já carrego um gosto amargo de decepção na garganta...

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