JOÃO CHEBANTE
Existe um tipo de reunião semanal - geralmente às segundas-feiras de manhã - comum em empresas de todos os portes. Nela, o gestor abre o dashboard, comenta alguns números e a discussão prossegue baseada na intuição de sempre, ignorando o potencial de dados completos e diversificados disponíveis no sistema.
Esse é o padrão mais comum quando olhamos para empresas que investiram pesado em digitalização, mas não colhem o resultado esperado. A companhia compra o sistema, faz implantação, treina o time e acredita que está tudo resolvido. Mas digitalizar um processo ruim apenas o torna mais rápido. Transferir decisões para o sistema sem mudar a forma de liderar também não resolve, porque a liderança continua operando da mesma forma que operava antes.
O que acontece, na prática, é que o gestor passa a usar a ferramenta para confirmar aquilo que já achava, e não para se surpreender com o que não sabia. Assim, o dado que contradiz sua intuição é questionado, enquanto o que a confirma é aceito sem análise. Com o tempo, a equipe aprende a alimentar o sistema de um jeito que não gere atrito, e o dashboard passa a mostrar uma versão “higienizada” da operação. Você enxerga melhor a pista e com a telemetria sabe onde está errando, mas ainda não é capaz de pilotá-la mais rapidamente e acertar o seu carro ao circuito.
A digitalização sem maturidade de gestão cria a ilusão de que a empresa está mais organizada do que ela de fato está. Os relatórios ficam mais bonitos, os processos ficam mais visíveis, mas o controle do negócio continua dependendo das mesmas pessoas, dos mesmos hábitos e das mesmas reuniões.
E é justamente essa ilusão de organização que torna o problema mais difícil de corrigir. Quando o sistema aponta algo fora do esperado, a reação imediata é questionar o dado. O gestor duvida da configuração, do período analisado e da métrica escolhida, tirando a autenticidade da ferramenta. A digitalização é inócua se seus benefícios não forem levados à melhoria da operação. Nem que isso signifique questionar o modus operandi da mesma.
Então, antes de contratar mais uma plataforma para sua empresa, vale perguntar se a liderança sabe usar o que já tem, se as decisões do dia a dia estão sendo tomadas com base em dados que ela fornece ou em interpretação conveniente, e se existe alguém com autoridade e disposição para agir quando os números mostram algo que ninguém quer ouvir.
João Chebante é CEO da Sinergis, empresa brasileira especializada em revenda de software e consultoria estratégica para a transformação digital.















