CELLY SILVA
DA REDAÇÃO
Um novo áudio, usado nas investigações do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), que 'vazou' nesta sexta-feira (07), revela um diálogo entre os advogados Júlio César Domingues Rodrigues e Joaquim Fábio Mielli Camargo, tratando sobre pagamento de propina a deputados da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), no ano de 2014.
Na conversa, gravada por Júlio César, ele reclama que o deputado Romoaldo Júnior estaria querendo ganhar mais dinheiro além dos R$ 590 mil combinados e que isso impactaria negativamente no seu lucro.
Ambos são delatores na ação penal oriunda da operação Ventríloquo, que investiga desvio de R$ 9,4 milhões da Casa de Leis por meio de um pagamento de dívida ao banco HSBC, onde Júlio César representou o grupo de deputados beneficiados com o esquema e Joaquim Mielli representou o banco.
Na primeira fase das investigações, Mielli firmou acordo de delação premiada que está prestes a ser quebrada para que ele responda também como réu, já que ficou comprovado que ele prestou falso testemunho, ao ocultar a participação do deputado Romoaldo Júnior (PMDB). Já Domingues apresentou provas que desvendaram essa participação do deputado.
Na conversa, gravada por Júlio César, ele reclama que o deputado Romoaldo Júnior estaria querendo ganhar mais dinheiro além dos R$ 590 mil combinados e que isso impactaria negativamente no seu lucro.
Júlio: O negócio é o seguinte, eu não vou pagar essa conta sozinho. E nem vou pagar essa conta.
Joaquim: Não, o que eu quero saber é o seguinte: quando você vai me trazer isso resolvido?
Júlio: Resolver eu resolvo agora, se o senhor quiser
Joaquim: Vocês dois têm que chegar, você e o Dico
Júlio: Não, eu não tenho negócio com o Dico. Até por isso que eu queria uma posição desse outro negócio do senhor pra poder sentar com esses caras e segurar eles mais um pouco. Mas, a priori, vamos esquecer os cinco milhões. Se não existir esse negócio dos cinco milhões, a posição é a seguinte. Falta quinhentos e noventa, né? Quinhentos e noventa. O senhor passou duzentos e oitenta e quatro pra eles né? Foi cem mil, mais noventa e dois e noventa e dois.
Joaquim: Ainda resta quinhentos e noventa.
Júlio: então, pega os quinhentos e noventa, abate duzentos e oitenta e quatro, você vai fazer transferência pra onde eles mandaram aí, você vai me dar o papel e eu vou sentar na frente do Riva e vou fechar os 45% com ele.
Joaquim: Fecha antes.
Júlio: O restante eu já entreguei pro deputado, já entreguei na casa
Joaquim: Sei não, aí você me joga no fogo cruzado de um e de outro lá
Júlio: Que fogo? Não, o fogo sou eu. Esses caras eu conheço há mais de dez anos. O Romoaldo é um tremendo de um picareta há mais de dez anos. Eu conheço esses caras e sei como é que se lida com eles. Se eu deixar, eles tomam do senhor, igual estão querendo tomar o meu. E já levou, e não levou pouco! Essa posição que eu tomei é baseada no que o Riva falou pra mim. E se o senhor quiser ir e conversar comigo, a gente vai junto.
Joaquim: Não vou, mas eu quero uma autorização pra fazer isso, cara. Comum acordo. Eu não quero ser jogado nesse fogo cruzado, Júlio.
Questionado por Júlio sobre qual era o temor de Joaquim, o advogado do banco diz que os deputados são “malfeitores” e “bandidos”.
Júlio: Qual é a consequência pro senhor, o que o senhor acha que vai ser ruim pro senhor?
Joaquim: Sei lá, esses caras são bandidos, pô
Júlio: Não, é comigo que eles vão tratar
Joaquim: Esses caras são malfeitores
Júlio: Mas a confusão vai ser comigo porque o que foi combinado com o deputado Riva, a gente tem que cumprir.
No meio da conversa, Júlio ainda disse estar desconfiado que Francisvaldo Pacheco, “Dico”, o assessor de Romoaldo Júnior estaria desviando dinheiro para o deputado Mauro Savi (PSB).
Júlio: “É que eu estou desconfiado que o Dico tá desviando pro Mauro Savi, mais do que o Mauro Savi já levou.
Sempre pressionado por Júlio César a ter mais agilidade no processo de liberação do dinheiro, Joaquim dá conselhos a Júlio e pede que ele seja mais ponderado, a fim de cansar o deputado Romoaldo porque uma vez que ele libere o dinheiro da propina, Júlio ficaria sem poder de barganha.
Joaquim: A minha ideia é você ir lá, entra num consenso. Fala que o Joaquim está inseguro, ele não quer passar. Tá errado isso aqui e não vai passar. Entendeu? Vamos fazer isso. A minha parte é essa e a parte de vocês é essa, combinado? Negociar dá canseira, Júlio, dá canseira. Entendeu?
Júlio: Entendi
Joaquim: Aí eu tenho como me segurar e você tem como se segurar
Júlio: É, aí o senhor me complica 100%
Joaquim: Pois é, eu não quero que você se ferre, tá. Nunca quis que você se ferrasse.
Júlio: entrei numa situação complicada, mas eu saio.
Joaquim: Aí os caras vão ficar dando risada de você
Júlio diz que vai seguir o conselho de Joaquim e tentar entrar em consenso com o grupo político criminoso. Disse que ia se sentar com Riva e dizer que iria passar R$ 306 mil para ele se acertar com “a turma”. Júlio César Domingues também afirma que “Dico” não é nada e que não precisava do aval dele para nada.
Júlio: O Romoaldo virou pra mim e falou assim: “Mas eu assinei o negócio”. Me deu vontade de falar pra ele. “Mas você ganha R$ 700 mil de salário por mês pra assinar tudo o que o Riva manda aqui. Não falei para não desrespeitar.
Em outra parte da conversa, Júlio conta que o grupo de Romoaldo Júnior queria receber mais R$ 200 mil além dos R$ 590 mil combinados com o grupo do banco e com José Riva, valor que sairia de seus honorários e ele não estava disposto a pagar.
Júlio: Então tá, vou fechar com o doutor Riva lá, pedir autorização dele, até porque... É...Esse dinheiro do Romoaldo, por exemplo, cem. O do Dico também ia sair daqui? Desses duzentos e cinquenta?
Joaquim: Não. Eles já estavam sabendo que eles estavam cobrando isso. Ia sair tudo por fora. Teve dinheiro pra isso, depois eu te falo, eu faço a conta com você aqui
Júlio César: Como assim?
Joaquim: Eu não estou entendo a sua pergunta
Júlio: O Romoaldo não quer cem mil? O Dico não quer mais cinquenta e pouco agora
Joaquim: Essa conta eu não sei
Júlio: Não era duzentos e oitenta e quatro? Você não passou duzentos e oitenta e quatro pra ele? Isso eu reduzi já pra duzentos mil. Eu consegui recuperar já oitenta e quatro mil
(...)
Joaquim: O que mais você tem que pagar eles?
Júlio: Cem do Romoaldo e cem do Dico. Cinquenta do Dico e cinquenta do secretário. Entendeu o que eu falei ou não entendeu?
Joaquim: Não tô entendendo.
Júlio César: Vamos dizer que o Riva bate o pé agora e diz “quero meu restante dos 45%”, dos quinhentos e noventa?
Joaquim: Passa os quinhentos e noventa
Júlio César: Aí o Dico fala assim “cinquenta meu, cinquenta do secretário e cem do Romoaldo”? Dá duzentos
Joaquim: Aí já não sei o que o presidente vai fazer com esse dinheiro. Aí já não sei se ele vai jogar fora, se ele vai dar pro cara, se ele vai dar integralmente pra você
Júlio: Quem que vai...Quem que vai...Da onde que vai sair esse dinheiro?
Joaquim: Esse dinheiro não sai de mim
Júlio: Os duzentos?
Joaquim: Os duzentos e cinquenta
Júlio: Não, os duzentos que tem que pagar pro Romoaldo
Joaquim: Além dos quinhentos e noventa mais duzentos?!
Júlio: É
Joaquim: Vai se ferrar!!! Não...
Júlio: A coisa tá dividida. O senhor não tá entendendo
Joaquim: aí não, meu amigo
Júlio: Riva é quinhentos e noventa
Joaquim: Isso
Júlio: Restante dos 45%, certo?
Joaquim: Isso, certo
Júlio: Romoaldo ainda quer meu duzentos pau, juntando ele, Dico e o secretário
Joaquim: Do seu?
Júlio: É
Joaquim: Cê num paga, ué, pronto. Cê num paga, pra que você vai pagar? Esse duzentos mil a mais aí atrapalha o nosso negócio
Júlio: Você entendeu por que que eu não vou pagar conta de Romoaldo P* nenhuma?
Júlio César explica que esse seria o motivo pelo qual ele falaria para Riva que iria abater o que eles já haviam recebido dos R$ 590 mil e sobraria R$ 306 mil. O restante ele levaria para Riva.
Confira o áudio na íntegra:














