CAMILLA ZENI
DA REDAÇÃO
Fundado há mais de 200 anos e localizado, hoje, no centro de Cuiabá, o Cemitério Nossa Senhora da Piedade, mais antigo da capital mato-grossense, abriga diversas personalidades. Da alta classe do século 19 a políticos e religiosos, o espaço guarda a história de diversos segmentos da Capital.
De acordo com o coveiro Manoel dos Santos Soares, que há quase 40 anos atua na profissão, a sepultura mais antiga do espaço é a de Dona Bárbara Maria do Carmo de Cerqueira Brandão, conhecida como Baronesa de Diamantino (1846-1878). O túmulo é dos primeiros à esquerda, já próximo à capela, no final do corredor principal. Mas, segundo o sepultador, o mármore de Carrara quase não é visto por quem passa pelo local.
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Camilla Zeni/RepórterMT

Túmulo de Falcãozinho é o mais visitado no Cemitério da Piedade
“Está abandonado. As pessoas querem visitar mesmo são os milagreiros”, explica Manoel. Segundo ele, uma dessas sepulturas famosas é do Falcãozinho, como ficou conhecido o pequeno Francisco Augusto, que morreu vítima de câncer em 1971, quando tinha sete anos.
“O pessoal vem direto fazer novena. Esse é um que faz milagre. Ele sofreu muito com o câncer dele, né. As pessoas trazem pra ele caramelo, balinha, um doce, porque é criança”, comenta seo Manoel, mostrando a sepultura da criança, também localizada no lado esquerdo do cemitério, pouco depois do túmulo da baronesa.
A história de Falcãozinho foi contada pelo padre salesiano Firmo Duarte, que conheceu a família do menino, considerada católica fervorosa. A luta da criança com o câncer, que começou na perna e se espalhou para outros órgãos, chegando à cabeça, foi acompanhada pela população à época, que reconhecia a fé do menino.
Segundo Padre Firmo, com o avanço da doença, o menino pediu para receber o sacramento da Eucaristia mais cedo e conseguiu uma autorização especial do Bispo Dom Orlando Chaves. A hóstia teria sido o último alimento da criança.
Já do outro lado do campo santo, o jazigo do monsenhor Alexandre Trebaure, enterrado em 1939, é o mais visitado. Vigário da Igreja da Boa Morte, Trebaure, que nasceu na França, sempre chamou a atenção da comunidade local pela sua humildade e caridade. Por vezes, tirava do pouco que tinha para ajudar às famílias mais necessitadas. Assim, também chegou a passar necessidades.
“Esse também direto o pessoal vem visitar aqui e fazer um pedido. Pedem qualquer coisa. Qualquer coisa que você pedir, sendo com fé, recebe”, afirma o coveiro.
Na mesma sepultura estão ainda o Frei Donato (Norberto Sehn), gaúcho falecido em 2009, vítima de câncer, e o Frei Quirino Franz, um alemão nomeado vigário de Rosário Oeste por Dom Francisco Aquino Corrêa no fim de 1930. Alguns anos depois, em 1947, assumiu a Paróquia da Boa Morte em Cuiabá, sendo sucessor de Trebaure. Sua relação com os pobres também foi reconhecida, assim como com os soldados, rendendo-lhe o título de Almirante Tamandaré, concedido pela Marinha. Ele faleceu em 2003.
Ednilson Aguiar/O Livre

Cruz identifica o túmulo do líder espiritual umbandista João Caveira no Cemitério da Piedade
Alguns metros distantes, também recebe visitas o túmulo de João Caveira. Muito antigo, o lugar não aponta o nome ou qualquer outra informação sobre o líder umbandista, como a data do falecimento. O local é diferenciado pela cruz sobre a sepultura. Antigamente, segundo o coveiro, havia uma caveira no centro da cruz. No entanto, o objeto desapareceu do dia para a noite.
De acordo com seo Manoel, são deixadas diversas oferendas para João Caveira. O coveiro garante que ninguém mexe, dependendo do que se coloca no local.
“Direto eles põem frango vivo aí, amarrado o bico com nome dentro. Quando não é aqui, colocam no cruzeiro, lá na entrada. Vinho, uva, balinha, sempre tem. Deixam também pra pomba gira. Quando a gente tem que mexer, tem que pedir licença. Tudo você tem que pedir licença. Nossa obrigação é limpar, não pode deixar o congá”, comenta seo Manoel.
Além dos “milagreiros”, o Cemitério da Piedade guarda, ainda, personalidades históricas ilustres como o almirante Augusto João Manuel Leverger, conhecido como Barão de Melgaço, morto aos 72 anos, em 1880; os ex-governadores Dante Martins de Oliveira, morto em 2006, aos 54 anos, e José Garcia Neto, que morreu em 2009 aos 87 anos.
Estevão de Mendonça, Rubens de Mendonça, Isaac Póvoas, Júlio Muller, Aecim Tocantins, Liu Arruda e Jejé de Oyá são outras personalidades que também descansam no local.
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