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O médico Euller Gustavo Preza, responsável pelas cirurgias estéticas durante as quais Lurdes Maria morreu, não tem registro de especialidade
VANESSA MORENO
DO REPÓRTERMT
O médico Euller Gustavo Pompeu de Barros Gonçalves Preza, responsável pelas cirurgias de lipoescultura e colocação de próteses mamárias durante as quais Lurdes Maria de Lima Pessoa Padilha, de 24 anos, morreu nessa sexta-feira (16), em Cuiabá, não tem especialidade relacionada à cirurgia plástica registrada no Conselho Federal de Medicina (CFM). A informação consta no cadastro público do órgão.
O profissional, inscrito no CRM-MT sob o número 4711, é alvo de pelo menos cinco ações judiciais apresentadas por pacientes que relatam complicações após procedimentos estéticos, incluindo infecções, deformidades, cicatrizes, dores intensas e necessidade de novas cirurgias.
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Três dos processos continuam em andamento, um terminou após a paciente desistir da ação e outro teve o pedido de indenização negado pela Justiça.
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De acordo com a consulta ao cadastro do CFM, Euller Preza tem inscrição principal no CRM-MT desde 2 de fevereiro de 2005, com situação regular. Ele também possui registro regular no Conselho Regional de Medicina da Bahia, sob o número 47767.
No campo destinado às especialidades e áreas de atuação, porém, consta a informação: “Médico sem especialidade registrada”, ou seja, o cadastro consultado não apresenta Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em cirurgia plástica.
Em seu perfil no Instagram, Euller se apresentava como médico de contornos corporais e divulgava a realização de cirurgias estéticas em Cuiabá e Porto Seguro, na Bahia. Essas informações não constam mais na biografia do perfil, conforme levantamento da reportagem.
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Relatos de complicações após cirurgias
Os cinco processos consultados pela reportagem são públicos e não estão sob sigilo judicial. As ações reúnem relatos de pacientes que atribuem ao médico problemas ocorridos durante ou após procedimentos estéticos.
Uma das ações trata de uma rinoplastia realizada em 8 de janeiro de 2015, na clínica do médico. Segundo a paciente, ela sentiu dores intensas durante o procedimento, mesmo após tentativas de sedação, enquanto eram realizados cortes, raspagem do osso e pontos no nariz. A autora também alegou que a cirurgia ocorreu sem anestesista ou outro profissional habilitado para atender possíveis emergências.
Após o procedimento, ela afirma ter enfrentado dores, sangramentos e dificuldades para respirar. Nos meses seguintes, percebeu assimetria entre as narinas, redução excessiva de uma delas, queda da ponta do nariz e estreitamento dos orifícios, o que dificultava a higienização.
De acordo com a ação, o médico realizou uma segunda intervenção, com retirada de parte da narina direita, mas o resultado teria agravado a diferença entre os lados do nariz. Posteriormente, outra médica teria identificado a necessidade de cirurgia reparadora, com reconstrução funcional e enxerto de cartilagem.
A reconstrução foi realizada em 3 de fevereiro de 2016 e durou aproximadamente sete horas. Parte da cartilagem da orelha direita da paciente foi retirada para reconstruir o nariz. A mulher também relatou que precisou pagar duas sessões de laser, no valor de R$ 350 cada, para amenizar as cicatrizes remanescentes.
Este processo tramita na 4ª Vara Cível de Várzea Grande e aguarda perícia para esclarecer se houve erro médico. Ainda não há conclusão judicial sobre a responsabilidade do profissional.
Em outra ação, uma paciente relatou complicações após uma cirurgia para colocação de implantes mamários realizada em 26 de janeiro de 2015.
Segundo a paciente, na semana seguinte ao procedimento, ela começou a sentir fortes dores, apresentou inchaço nas mamas e percebeu a saída de líquido com odor forte. Ela afirmou que procurou o médico e passou a realizar curativos frequentes, mas a infecção persistiu.
Ainda conforme o relato, durante a higiene pessoal, a mulher percebeu que os pontos haviam se aberto e que a prótese da mama direita estava saindo pela abertura. Após uma nova intervenção sem solução do problema, o médico teria decidido retirar os dois implantes, inclusive o da mama esquerda, que, segundo a paciente, não apresentava complicações.
A mulher permaneceu seis meses sem as próteses e, depois, passou por uma nova cirurgia para colocação dos implantes. De acordo com a ação, ela apresentou novas alterações, precisou de outras intervenções e, em novembro de 2016, foi submetida a mais um procedimento para drenar uma infecção e suturar a região.
A paciente afirma ter passado por mais de quatro intervenções cirúrgicas e enfrentado cerca de 18 meses de limitações, com dificuldades para trabalhar, dirigir, realizar tarefas cotidianas e cuidar da própria higiene e alimentação sem ajuda. Também relatou cicatrizes, vergonha da aparência das mamas e problemas psicológicos, incluindo um quadro de depressão que atribuiu ao sofrimento vivido.
Neste caso, a 10ª Vara Cível de Cuiabá negou o pedido de justiça gratuita. Após a decisão, a paciente desistiu do processo.
O terceiro caso envolve uma cirurgia de correção e troca de próteses mamárias realizada em 26 de agosto de 2013, no Hospital Santa Helena, em Cuiabá.
Segundo a ação, o procedimento foi contratado inicialmente por R$ 14,3 mil. Com os encargos do parcelamento, o custo total chegou a R$ 15.817,12. A paciente afirma que ficou insatisfeita com as cicatrizes, especialmente uma marca longitudinal em formato de cruz, e sustentou que a técnica utilizada teria sido inadequada ao grau de flacidez apresentado.
Ela também relatou uma infecção após a cirurgia, dores intensas e cobranças extras por atendimentos que, segundo sua versão, deveriam estar incluídos no pacote contratado. Os valores adicionais mencionados na ação somavam R$ 1.015.
A paciente alegou ainda que o médico não possuía especialização registrada em cirurgia plástica e que precisaria de uma nova cirurgia reparadora. O orçamento apresentado para a correção era de R$ 16 mil apenas em honorários médicos, sem incluir despesas hospitalares, anestesista e medicamentos.
A mulher afirmou que ficou meses sem conseguir retomar normalmente o trabalho no salão de beleza, precisou de acompanhamento psiquiátrico e passou a utilizar medicamentos.
A 6ª Vara Cível de Cuiabá negou o pedido de indenização contra Euller Preza e sua clínica por entender que não ficou comprovado erro médico na cirurgia de correção e troca de próteses mamárias realizada em 2013.
O quarto processo envolve uma profissional da área da saúde submetida a uma cirurgia estética mamária e corporal em 2016. Segundo a autora, o procedimento deixou assimetrias, deformidades e desconfortos que comprometeram sua aparência e autoestima.
Anos depois, ela voltou a procurar o mesmo médico, que teria prometido corrigir os problemas. A nova cirurgia previa retoques nas mamas, com preservação das próteses, e flancoplastia bilateral, procedimento destinado a retirar o excesso de pele e melhorar o contorno dos flancos.
A paciente afirma ter pago antecipadamente R$ 23 mil por transferência bancária. O contrato, inicialmente estimado em R$ 24,3 mil, sofreu alteração posterior.
Segundo o relato, houve problemas já na chegada ao hospital, com falta de informações sobre a internação e os custos adicionais. Durante a recuperação, a mulher teria apresentado abertura de pontos, lesões, inflamações e cicatrização irregular, principalmente na região dos flancos.
Ela também afirma que o resultado ficou distante do prometido, que a segunda cirurgia não corrigiu as deformidades anteriores e que encontrou dificuldades para conseguir consultas de retorno. A ação aponta ainda gastos com medicamentos, exames e outros atendimentos.
O processo continua na 6ª Vara Cível de Cuiabá. Até o momento, conforme as informações levantadas, não há manifestação do médico nos autos.
O quinto caso, mais recente, envolve uma mulher que afirma ter economizado desde 2012 para realizar cirurgias estéticas. Ela contratou abdominoplastia, flancoplastia, lipoaspiração do dorso, correção de diástase abdominal e mastopexia, com possibilidade de troca das próteses mamárias.
O contrato previa R$ 40 mil, dos quais a paciente afirma ter antecipado R$ 30 mil.
Após os procedimentos, ela alegou que parte das cirurgias contratadas não teria sido realizada. Segundo a ação, não havia cicatrizes ou incisões nas regiões do abdômen e dos flancos onde deveriam ter sido feitos os cortes para a abdominoplastia, a correção da diástase e a flancoplastia.
A mulher também relata que enfrentou dificuldades para conseguir acompanhamento médico, com sucessivos cancelamentos de consultas, e que sofreu reações alérgicas graves após a cirurgia.
O relato apresenta ainda uma acusação de agressão verbal e humilhação. A paciente afirma que, quando finalmente conseguiu uma consulta com Euller, teria sido trancada em uma sala e destratada pelo profissional. Segundo ela, a situação provocou medo e a levou a desistir de realizar os demais procedimentos previstos no contrato.
A ação questiona também a qualificação do médico. A autora afirma que consultas aos conselhos regionais de medicina de Mato Grosso e da Bahia indicaram ausência de registro de especialidade em cirurgia plástica. Ela sustenta ainda que a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica informou que o profissional não era membro da entidade.
Este processo tramita na 2ª Vara Cível de Várzea Grande e ainda não tem sentença. O médico pediu que os autos fossem colocados sob sigilo, mas o pedido ainda não havia sido analisado pelo juízo, conforme as informações levantadas. Até o momento, o processo permanece público.
Outro lado
Em vídeo publicado nas redes sociais, o advogado Alex Cardoso, que representa o médico, afirmou que Euller Gustavo tem mais de 25 anos de experiência e já realizou milhares de procedimentos. Segundo ele, o número de complicações registradas ao longo da carreira do profissional é ínfimo.
“O número de complicações de pacientes em suas mãos é ínfimo. É muito aquém dos indicadores previstos na literatura para qualquer tipo de procedimento”, disse o advogado.
Sobre a ausência de Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em cirurgia plástica, Alex Cardoso afirmou que a falta do registro não significa, necessariamente, ausência de experiência na área. Segundo ele, Euller não utiliza o título de especialista, mas teria adquirido conhecimento por meio da prática profissional, de cursos e de pós-graduação.
“É preciso deixar claro que a ausência de RQE, o registro de especialidade, diz respeito àqueles médicos que não passaram pela residência médica para cirurgia. No caso do Euller, trata-se de um profissional que, ainda que a legislação o impeça de usar o termo ‘especialista’, e ele não o faz, é especializado pela prática, pela experiência, pelos cursos e pela pós-graduação”, declarou.
Morte durante cirurgia será investigada
Lurdes Maria de Lima Pessoa Padilha, de 24 anos, morreu na sexta-feira, durante procedimentos de lipoescultura e colocação de próteses mamárias no Hospital Geral e Maternidade de Cuiabá. A jovem sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu após aproximadamente duas horas de tentativas de reanimação. Ela era casada e deixa dois filhos.
Após receberem a notícia da morte, familiares teriam confrontado o médico. Euller relatou ter levado um soco no rosto e registrou boletim de ocorrência por agressão e ameaça de morte, segundo sua assessoria jurídica.
Em nota, a defesa afirmou que o procedimento ocorreu em ambiente hospitalar, após avaliações pré-operatórias, e que a equipe identificou uma intercorrência súbita, interrompeu a cirurgia e iniciou imediatamente as manobras de reanimação. A assessoria declarou que a causa da morte será esclarecida pelos órgãos oficiais competentes.
A defesa também argumentou que o médico está regularmente inscrito no CRM e que a ausência de RQE não o impede de realizar atos médicos, inclusive cirúrgicos.
O CRM-MT anunciou neste sábado (17) que instaurará uma sindicância ex officio para apurar as circunstâncias do atendimento e da morte de Lurdes. O conselho informou que o procedimento tramitará sob sigilo e ressaltou que a investigação não representa condenação prévia do profissional.
A Polícia Civil também investigará o caso.
Lurdes será velada a partir das 18h deste sábado, na Capela Jardins, em Cuiabá. A saída para o sepultamento está prevista para as 15h de domingo (18). Até o momento, a família não informou o local do sepultamento.

















