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05 de Dezembro de 2014, 09h:05 - A | A

VARIEDADES / CULTURA

Dança e música entrelaçadas no palco do Teatro da UFMT

DA REDAÇÃO



Certa vez, o escritor Carlos Drummond de Andrade, em sua sensibilidade escreveu que a dança é  "estar entre céu e chão, novo domínio conquistado, onde busque nossa paixão libertar-se por todo lado...Onde a alma possa descrever suas mais divinas parábolas sem fugir a forma do ser, por sobre o mistério das fábulas".  Embalado pela música executada ao vivo pela competente Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Mato Grosso (OSUFMT), o Corpo de Baile do Ópera Ballet vivencia no palco do Teatro da UFMT, em dia de reinauguração,  trechos dos mais conhecidos e aplaudidos ballets do mundo.

O espetáculo inédito marca a reabertura do Teatro, após dois anos de reforma e sua nova concepção, um espaço das artes amparado em conceito de cidadania, inserido na tecnologia, contudo sem abrir mão das suas raízes.  É que o Teatro Universitário ganhou rampas de acesso, banheiros adaptados, elevadores para cadeirantes, poltronas especiais. A partir do próximo espetáculo, a venda de ingresso será online, com cadeiras numeradas. Nesta temporada de reinauguração, dias 9 e 11 de dezembro, os ingressos estão sendo vendidos no térreo do Shopping 3 Américas, e cadeiras não numeradas.

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O público certamente vai mergulhar em histórias arrebatadoras, que ao longo do século foram protagonizadas por balés premiados em diversos países. A bailarina Verônica Weber, diretora  artística do Ópera Ballet, comenta que será uma experiência intensa para Corpo de Baile, músicos e plateia. Verônica morou por 20 anos na Europa. Aos 15, partiu para um período de dois anos na Inglaterra e França, onde aprimorou seus estudos de balé clássico. De volta ao Brasil, ingressou no Ballet de Câmara de São Paulo. Em seguida, regressa à Europa a convite de uma conceituada companhia de ballet.

Verônica integrou o Corpo de Baile do Deutsh Oper Am Rhein, um dos mais importantes teatros alemães que abriga a terceira maior companhia de dança daquele país. Era uma das 80 bailarinas que representavam mais de 20 nacionalidades diferentes. Após essa temporada de dez anos no Deutsh Oper Am Rhein, assumiu o posto de primeira bailarina do Ballet da cidade de Trier, também na Alemanha.  Retornou ao Brasil e continuou desenvolvendo carreira de solista e professora em Curitiba, Paraná, e em Cuiabá. Ela conta que os espetáculos apresentados pelo balé da Alemanha  eram acompanhados por orquestra, numa inebriante junção.  "A força dessas duas artes: dança e a música, se traduz em sensibilidade, em que o público vai viver muitas emoções", pontua Verônica.

O convite do maestro Fabricio Carvalho se encontrou ao sonho antigo da bailarina. No início do ano deram o início ao trabalho de composição do espetáculo, com a escolha das músicas, figurinos, cenário. Era preciso, explica ela, trechos que permitissem ao balé revelar sua beleza e à Orquestra, sua habilidade musical: "Teremos peças vibrantes, envolventes, escolhidas a partir dos mais belos balés, importantes e diversos, num equilíbrio para a dança e a musicalidade".

Os ensaios do Corpo de Baile são intensos, diariamente. Verônica explica que os balés de repertório são seguidos conforme sua coreografia original:  "É uma exigência na dança que o original seja respeitado, as versões acontecem apenas com pequenas nuances quanto ao figurino ou movimentos".

E na Orquestra não é diferente. O maestro Fabricio Carvalho comenta que os ensaios diários dos músicos exigem concentração e dedicação. A numérica musical deve ser respeitada, pois o balé se pauta no compasso da canção.  "Os músicos estudam diariamente para uma perfeita apresentação, que ocorrerá no fosso do teatro, tal qual aconteceu na ocasião da montagem de A Flauta Mágica", contextualiza. Ele conta que escutou e acompanhou dezenas de gravações de espetáculos dessa natureza para junto com Verônica escolher os mais apropriados para uma data tão especial, como de reabertura do Teatro Universitário. São trechos que valorizam a dança e a música.

Ao todo, 40 bailarinas aguçam seus sentidos. Tamanha responsabilidade não intimida o Corpo de Baile do  Ópera Ballet, escola de dança que acumula quase 15 anos de trajetória.  "Em 2010, ganhamos um prêmio importante, o terceiro lugar no disputado Festival Internacional de Nova York, o que nos incentiva a romper fronteiras e assumir novos desafios", comenta Verônica. 

O espetáculo se alterna entre apresentações de dança e orquestra e apenas orquestra, quando o Corpo de Baile fará troca de figurino. O programa começa com  La Bayadere, de Ludwig Minkus, um grande sucesso do repertório clássico da dança, com coreografia do genial Marius Petipa. Em cena, Amor, traição e morte. Os templos antigos da Índia abrigavam as Bayadere, que eram dançarinas sagradas. Uma delas, traída por seu amado, morre envenenada. No entanto, ela consegue invadir os sonhos de seu amado através de espectros de dançarinas. "É justamente este momento da obra que apresentaremos", destaca Verônica.

Na sequência, a OSUFMT apresenta Danças Eslavas, Opus 46, n. 8, Furiant, de Antonín Dvořák. Danças Eslavas é uma série de dezesseis peças orquestrais compostas por  Dvořák, entre 1878 e 1886, tendo sido publicadas em dois grupos como Opus 46 e Opus 72. Originalmente escritas para piano a quatro mãos, foram inspiradas nas Danças Húngaras de Johannes Brahms.

Entre os mais encenados, O Quebra-Nozes, e a sua inconfundível Valsa das Flores, ganha a apropriação do Ópera e da OSUFMT. Pyotr Tchaikowsky compôs apenas três balés, três obras de arte, mas apenas o Quebra-Nozes tem essa face mais infantil. Sua música, em determinada passagem, marca o encontro entre a menina Clara e a Fada Açucarada. Entre os dias 8 e 11, as flores se exibem para Clara e para o público mato-grossense.

Depois é a vez de Farandole, da Suíte n. 2 L´Arlesienne, de George Bizet, executada pela OSUFMT. Para a estreia do drama de Alphonse Daudet  L´Arlesienne – a tragédia de um jovem camponês que ama uma mulher de Arles e que acaba matando-a por não suportar sua infidelidade -, Bizet escreveu em 1972 uma música para teatro composta de vinte e sete números, a maioria curtos.  No original, Farandola é uma dança popular da Idade Média, original da Provença.

Corpo de Baile do Ópera Ballet e Orquestra Sinfônica da UFMT apresentam Ballo de La Regina, da Ópera Don Carlo, de Giuseppe Verdi, a mais contemporânea obra do programa que reinaugura o Teatro da UFMT. George Balanchine, mestre do New York City Ballet, criou uma coreografia forte, vibrante, que requer muita destreza técnica. Acompanhando, a música de Giuseppe Verdi, na mesma frequência artística, mais especificamente um trecho da ópera Don Carlo. Ballo de La Regina estreou em 1978, no New York  State  Theater.

Após um intervalo de 10 minutos, a plateia se inebria com  Giselle, de Adolphe Adam. Para Verônica, a peça mais bonita da noite, em que um dos trechos  mais marcantes fora escolhido. Giselle é uma das expressões máximas da era romântica do balé clássico, e que a música fascinante de Adolphe Adam conduz uma linda história de amor e ao mesmo tempo trágica. O romancista Theophile Gautier, autor do roteiro deste balé, criou seres noturnos, as Willis, que nada mais são do que almas de jovens donzelas que morreram de amor antes do casamento. Elas procuram vingança, fazendo com que homens que passeiam pela floresta dancem até morrer de cansaço. Giselle se transforma numa Willi, mas ela consegue salvar seu amado. "Giselle é de tirar o fôlego", pontua.

A música Finlândia, Op. 26, executada pela Orquestra Sinfônica da UFMT, é um poema sinfônico escrito pelo compositor finlandês Jean Sibelius. A primeira versão foi escrita em 1899, sendo posteriormente revisada em 1900. A peça foi composta para as celebrações da imprensa de 1899, um protesto contra a crescente censura do Império Russo, como a última de sete peças, cada uma acompanhada de um folheto com episódios da história da Finlândia.

Encerrando com chave de ouro a noite de reinauguração do teatro, Don Quixote, de Ludwig Minkus, com Corpo de Baile do Ópera Ballet e Orquestra Sinfônica da UFMT. O balé Don Quixote vibra no ritmo da alma espanhola. Tudo se passa numa aldeia da região de Aragon, lugar de música alegre e festiva. A versão que trazemos ao concerto desta noite foi apresentada pela primeira vez em 1869 pelo Ballet Imperial do Teatro Bolshoi. O compositor Ludwig Minkus criou uma obra incrível e inspiradora, resultando numa das melhores coreografias de Marius Petipa, o grande mestre do ballet de São Petersburgo.

Para a reitora da UFMT, Maria Lucia Cavalli Neder, a reinauguração do Teatro quando a UFMT comemora 44 anos  reafirma seu lugar no apoio e no estímulo à cultura: "A história deste importante espaço pode ser contada por meio das manifestações artísticas que ocuparam o palco, num intercâmbio de ideias e conhecimento. A educação além da sala de aula, conduzida por conceitos como  respeito a diversidade, e democratização, em exercício pleno de cidadania".

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