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20 de Novembro de 2014, 09h:17 - A | A

VARIEDADES / LUTA CONTRA O RACISMO

Artistas brasileiros celebram o Dia da Consciência Negra nesta quinta, 20

Vinícius Romão, ator que foi preso por engano em fevereiro, falou sobre as dificuldades dos negros no país: 'A gente tem que fazer tudo em dobro'.

DO EGO



No dia 20 de novembro comemora-se em 1004 cidades brasileiras o Dia da Consciência Negra. O feriado ainda não é unanimidade entre os estados brasileiros. Há locais como o Acre, o Ceará e o Distrito Federal, em que a data não é comemorada oficialmente. O dia 20 de novembro foi escolhido por marcar a morte de Zumbi, último líder do maior dos quilombos do período colonial, o Quilombo dos Palmares. Comemorada há 30 anos por ativistas do movimento negro, a data foi incluída em 2003 no calendário escolar nacional, e só em 2011 foi instituída uma lei em que transforma o dia 20 de novembro, oficialmente, em dia de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra.

Para algumas pessoas, o feriado é mais um no calendário anual brasileiro lotado de datas comemorativas. Para outras, principalmente para o movimento negro, é dia para celebrar o orgulho negro e combater o racismo.

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Quem viveu a experiência do racismo na pele foi Vínicius Romão. O ator foi preso em fevereiro deste ano acusado de ter agredido e assaltado uma mulher no Méier, Zona Norte do Rio. Cerca de duas semanas depois, a copeira que acusou Vinícius afirmou em novo depoimento que se enganou ao fazer o reconhecimento do ator como o suposto ladrão. Vinícius foi solto. Mas sua vida nunca mais foi a mesma.

Nove meses depois do ocorrido, o EGOconversou com o ator, que falou sobre as lições que ficaram do episódio. "Aprendi muita coisa: a não julgar as pessoas pela aparência, a ouvir o outro, a me colocar no lugar do outro. Aprendi a aproveitar a vida porque uma atitude, uma escolha, em um segundo a vida pode dar um giro e tudo pode mudar. Vejo as coisas de forma diferente agora. Vejo os casos de pessoas falando que são humilhadas, em shopping, por seguranças, fora os casos das redes sociais, e fico ainda mais horrorizado, sinto na pele", lamenta ele.

Vinícius diz que depois do susto já leva uma vida normal: "Consigo sair de casa, por um tempo isso foi difícil. Hoje faço teatro, dança e vou voltar a trabalhar mês que vem. Volto pra loja de roupas em que estava trabalhando". No entanto, ele reitera as dificuldades que os negros ainda anfrentam no Brasil. "A gente tem que fazer tudo em dobro. Qualquer coisa que você alcança, é julgado ou questionado. Se entra na faculdade o mérito é das cotas. Se alcança um status profissional é porque na empresa tinha que ter um negro. As pessoas vão sempre julgar e você tem que ser sempre mais forte do que isso", afirma.

Além de Vinícius, outras personalidades conversaram com o EGO sobre o tema, entre eles Isabel Fillardis, ThiaguinhoErika JanuzaRafael Zulu, a funkeira Tati Quebra Barraco e o estudante Renê Santos, que ficou conhecido ao narrar, via twitter, a invasão do tráfico de drogas no Complexo do Alemão e a partir de então criou o jornal 'Voz das Comunidades'. Confira.

XANDE PILARES

"Ser um artista negro no Brasil deve ser difícil como ser artista negro em qualquer país, mas eu procuro ignorar esse tipo de coisa, acho que quando encontramos dificuldades em algo que desejamos, a gente valoriza mais. Meu papel na sociedade é levar alegria e transmitir boas mensagens através da música, porque a música é por onde conseguimos  penetrar no coração das pessoas e mandar uma mensagem positiva pra que continuemos a batalha. Já sofri preconceito mas não dou confiança pra esse tipo de atitude, se a gente se aborrece é pior. O ser humano que consegue olhar para o outro e agir com qualquer tipo de atitude agressiva é uma pessoa infeliz, que não tem capacidade para caminhar, não tem ideal. Eu não dou confiança pra isso não. Já dizia o poeta 'É precisa saber viver', e saber viver pra mim é dar atenção totalmente aos meus objetivos. Da minha vida, da minha cor eu tenho orgulho".

PÉRICLES 

"Eu vejo que o racismo se apresenta de várias maneiras: Desde não poder frequentar certas casas noturnas por não pertencer ao 'perfil' do lugar até pessoas que se recusam a ser atendidas, por exemplo, médicos negros. Só a educação pode reverter esse triste quadro. Já sofri preconceito de várias maneiras. Desde perder uma vaga de emprego para alguém de cor de pele diferente até ser impedido de comprar uma TV porque o vendedor não me achou capacitado o suficiente. Acredito que estamos longe de algo perto da igualdade almejada. Temos a juventude negra sem perspectiva de um futuro melhor, ainda temos a desigualdade de salários para mulheres negras em todos os setores do mercado de trabalho, ainda, em 2014, vivemos um retrocesso no tocante à intolerância religiosa. Enfim, temos falhas, mas temos muito a comemorar".

 

 

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