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05 de Dezembro de 2013, 09h:45 - A | A

POLÍTICA / CULTURA DA CORRUPÇÃO

Promotor diz que mudança precisa começar dentro das famílias

“E para quem insistir nessa linha de atuar desviando dinheiro público, pode ter certeza que ele vaio acordar um belo dia com nosso pessoal na porta dele”

MÁRCIA MATOS
DA REDAÇÃO



O promotor de justiça Mauro Zaque, do Núcleo do Patrimônio do Ministério Público Estadual (MPE) revelou durante entrevista ao Programa Conexão Poder (TV Rondon-SBT), que o fim, ou pelo menos, a queda nos índices de corrupção, começará quando as famílias se derem conta de que são também responsáveis pelo processo. Zaque afirmou que o problema não é isodado, mas sim cultural. O promotor foi  um dos responsáveis pelas investigações contra o ex-presidente da Câmara de Cuaibá, João Emanuel (PSD), flagrado em suposto caso de fraude em licitações e falsificação de documentos. Mauro Zaque já esteve à frente do Grupo de Atuação Especial de Combate a Corrupção (Gaeco) e atuou na Operação Arca de Noé, que prendeu João Arcanjo Ribeiro. De acordo com o promotor, a prisão de Arcanjo é um dos fatores preponderantes para a mudança de quadro cultural no Estado.

“Quando nós vivíamos sobre o império do crime organizado, sob o manto do medo. Porque era isso que acontecia na verdade em Mato Grosso. Eu costumo dizer que o medo anda perto do cinismo. Porque muita gente considerada boa pela sociedade fazia fila pra beijar as mãos do então “comendador”. Aquela estrutura de organização criminosa [ Arcanjo] tinha braço político, financeiro, poder político e poder financeiro. Com a saída dela de cena, muita coisa mudou dentro do estado. As instituições se fortaleceram", avaliou. A corrupção tira do país todos os anos, o equivalente a R$ 100 bilhões, segundo organizações de combate à prática. O dinheiro seria suficiente para resolver todos os gargalos de infraestrutura do país.
 
Segundo Zaque, as instituições se prepararam melhor e as Operações que hoje acontecem são frutos desse preparo e da liberdade que se tem para atuar. "Nós não ouvíamos falar em Operações onde a gente [MPE] atuava abertamente contra a corrupção, contra o narcotráfico, contra o envolvimento de agentes públicos por ato de improbidade. Enfim, de lá pra cá muita coisa aconteceu, muita coisa melhorou. Nós não víamos punição e hoje a gente vê punição. Hoje nós temos varias ações propostas contra vários agentes públicos. Hoje já temos condenações contra agentes públicos. Alguns estão até na cadeia”, relatou.

Para Mauro Zaque, mesmo com todo o aprimoramento judiciário o principal avanço no combate à corrupção só virá com a atuação da sociedade.  “Acho que a população está muito anestesiada. Não podemos esquecer que a corrupção é um fenômeno cultural. Não Adianta o Ministério Público se desdobrar para combater, se na cabeça do cidadão ele tem direito. Isso é um trabalho que vai envolver educação pública. Mas todo mundo sabe se tá certo, ou se tá errado. Aquele que vê e se omite é tão responsável quanto aquele que faz”, afirmou fazendo um apelo.

“Nós queremos que a população colabore, faça sua parte, denunciando, educando seus filhos. Não vamos construir uma verdadeira nação se não tivermos gente de verdade que queira construir esse propósito. Enfim, nós temos que assumir o papel de cidadãos de verdade ”, insistiu.

ESTRUTURA

Quanto a evolução do trabalho do Ministério Público, Mauro Zaque afirmou que à duras custas o órgão vem avançado, mas que é preciso investir ainda mais.

“Não podemos brincar de investigar. Porque esse tipo de gente que desvia dinheiro público, que se traveste de agente público, pensa que com uma gravata bonita é o suficiente para maquiar o caráter. Esse tipo de gente não tem freio moral. Esse tipo de gente não tem freio legal, esse tipo de gente não tem freio financeiro. Eles acham que podem tudo", disse, lembrando que a punição à corrupção é um fato considerado novo na política e na Justiça, o promotor destacou que Mato Grosso saiu na frente.

“ Antes não tínhamos sequer uma vara para ações civis públicas e ações populares. Mato Grosso foi pioneiro ao criar uma vara para atuar. O TJ (Tribunal de Justiça) foi sensível à necessidade de criar essa vara. O combate à corrupção não tinha sequer uma vara especializada para isso. Foi criada a vara e depois como a demanda é muito grande e um só juiz não estava dando, foi instalado um regime de exceção e hoje tem mais dois juízes atuando”, frisou.

Sobre a necessidade de manter o quadro atual, o promotor aproveitou para fazer um apelo ao presidente do Tribunal de Justiça.

“ Eu falo aqui publicamente; eu confio na condução do desembargador Orlando Perri à frente do TJ, e peço ao senhor desembargador que não tire os outros dois juízes que estão coadjuvando na Vara de ação civil pública, sob a pena de nós termos a Vara e ela não conseguir andar”, declarou. Para Mauro Zaque, mesmo com todo o aprimoramento judiciário o principal avanço no combate à corrupção só virá com a atuação da sociedade.

O promotor deixou recado para quem foge à legalidade. “E para quem insistir nessa linha de atuar desviando dinheiro público, ou que seja na atuação de organização criminosa, pode ter certeza que nós não vamos descansar; ele [corruptos] vai acordar um belo dia com nosso pessoal na porta e vai ver o sol nascer quadrado”, avisou.

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