LUIZ HENRIQUE LIMA
De acordo com a ONU, em toda a região da América Latina e Caribe, a dependência de drogas mata cerca de 6 mil pessoas todos os anos. Alguém imagina a possibilidade dessa atividade receber incentivos governamentais? Certamente não.
A Constituição brasileira assegura a inviolabilidade do direito à vida e o Estado deve garantir políticas públicas que reduzam o risco de doenças.
>>> Receba as principais notícias de Mato Grosso em primeira mão. Clique aqui!
Paradoxalmente, há poucos dias uma animada comitiva de representantes da indústria do tabaco foi recebida no Ministério da Agricultura e Pecuária - MAPA. O objetivo era o de sempre: pleitear incentivos fiscais e creditícios, ou seja, receber um tratamento econômico privilegiado, inacessível ao empreendedor ou cidadão comum. O argumento era o de sempre: essa indústria gera empregos e divisas para a balança comercial.
Impostura. Falácias. Cinismo extremo.
Vamos fazer as contas?
São 146 mil produtores de tabaco, segundo o Sinditabaco. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer, o tabagismo mata 162 mil brasileiros todos os anos, além de provocar 1 milhão de novos casos de câncer, AVC e doenças cardíacas e pulmonares obstrutivas crônicas.
Para cada produtor de tabaco incentivado com recursos públicos tem-se a garantia de pelo menos um brasileiro morto a cada ano. Para “salvar” ou “proteger” empregos, o custo é mais uma viúva ou viúvo, mais uma criança órfã, mais uma família ceifada, mais um lar destruído, todos os anos. E mais os custos das internações, consultas, exames e medicamentos.
A dez minutos de caminhada do MAPA, do outro lado da Esplanada, o Ministério da Saúde pode informar os dados das vítimas e os custos para o SUS. Lá consta que o Brasil emprega anualmente cerca de R$ 125 bilhões para tratar as doenças e incapacitações provocadas pelo tabagismo.
Vale a pena, senhores gestores e senhores parlamentares?
Ao longo da história, pessoas empregadas em atividades que se tornaram obsoletas ou que passaram a ser consideradas nocivas tiveram que se adaptar: carroceiros aprenderam a ser motoristas, acendedores de lampiões tornaram-se eletricistas etc. O que deveria ser estimulado é a capacitação dos atuais produtores de tabaco para atuarem em outras culturas, de produtos saudáveis e com maior valor agregado. Incentivar a saúde e a inovação, não a continuidade de uma tragédia humana e econômica.
Os benefícios pleiteados pela indústria da morte são um insulto às famílias de suas vítimas. Somente nos últimos anos, quantos familiares e amigos seus, caro leitor, sofreram e partiram em virtude do tabagismo? A eles devemos o compromisso de denunciar essa tentativa absurda de utilizar recursos públicos para proteger uma cadeia produtiva cuja única resultante final é o sofrimento e a morte em grande escala.
Ceder à pressão da indústria tabagista é afrontar a Constituição, caminhar em sentido contrário aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, sabotar a saúde dos brasileiros, fragilizar as contas públicas, espancar o bom senso e perpetuar consequências devastadoras para o bem-estar humano.
Não aos incentivos para o tabaco!
Luiz Henrique Lima é Conselheiro independente certificado e professor.














