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22 de Setembro de 2014, 09h:39 - A | A

OPINIÃO /

Os ipês da minha infância

O ar está cheio de farpas e de relâmpagos da política. Vou passear na poesia.

ONOFRE RIBEIRO

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ONOFRE RIBEIRO



De novo penso que esse terceiro sábado que antecede as eleições de 2014 mereça um pouco de calma e de poesia. 

O ar está cheio de farpas e de relâmpagos da política. Ainda que ela seja necessária, outros escreverão sobre o tema no dia de hoje. Vou passear na poesia.

Volto lá na Minas da minha infância e me deparo com dois pés de ipê roxo que um dia, aos 14 anos, me fizeram ver essa poderosa solidão humana que começou ali, como um despertar que nunca mais deixaria a minha vida. Minha família tinha uma propriedade de café, numa região muito montanhosa. 

Era julho, férias escolares. O trabalho era familiar, de colheita do café. Almoçamos debaixo de dois enormes pés de ipê roxos floridos. Todos desceram para a tarefa e fiquei ali sentado. Duas coisas mexiam comigo. 

Acabara de ler o livro “Inocência”, de Alfredo Taunay. Um romance passado no sertão do sul do Mato Grosso de 1872. Solidão, solidão e solidão numa triste estória de amor. Naquela idade estava muito impactado pelas dores da frágil Inocência que morre de amores no final.

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Sentado debaixo dos dois ipês naquele verão mineiro, olhava o rio abaixo e a várzea do lado de lá e o morro em frente, por descia um lento carro de bois. 

Naquela paisagem solitária a cantiga do carro trazia um ar pesado de mais solidão. Não posso me esquecer do grito do carreiro com os seus bois. 

É um monólogo cantado que se soma ao ranger do eixo no atrito do rodar e compõe uma sinfonia rústica inesquecível.

Fiquei sentado e vendo o carro fazer a lenta manobra e a engenharia daquele carreiro rústico no meio da roça de milho. Encher os balaios de bambu e jogar dentro do carro. 

Depois a volta, a subida no morro, lenta e poeirenta. Mais gritos do carreiro e a cantiga mais apertada. Carro pesado, cantiga mais grave.

Por fim, o carro sobe o morre, desaparece na outra vertente, e some. Do lado de cá, sentado debaixo dos dois ipês naquela solidão mergulho na minha própria solidão e coloco dentro dela a Inocência de Taunay. 

Nunca mais deixei de lembrar-me daquelas cenas, dos sons, do carro de bois, da cantiga e da solidão. E dos ipês roxos. Olhei no mapa do Google, e eles ainda estão lá... 

Penso que ali nascia essa convivência com esse sentimento solitário de alguma coisa que a gente vai cultivando e deixando vida afora e nos persegue continuamente...!

ONOFRE RIBEIRO é jornalista em Mato Grosso.
[email protected] 
www.onofreribeiro.com.br

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