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Quinta-feira, 03 de Novembro de 2011, 16h:02 - A | A

RENATO NERY

O peru patenteado

RENATO GOMES NERY

O Brasil deve ser o campeão dos atalhos. Para tudo se é capaz de inventar um atalho. Não se é capaz de melhorar o ensino médio, inventam os cursinhos pré-vestibulares. Não sendo capaz de fiscalizar a criação dos cursos de direito inventou-se o exame de ordem. Sem políticas para erradicar a pobreza inventou-se a bolsa família.

A míngua de políticas sócio-econômicas para incorporar o negro e o índio na sociedade inventou-se cotas a serem preenchidas por eles nas universidades públicas. E por ai vai o nosso maniqueísmo e nossa incurável vocação para "coitadinho".

Educação é questão de mérito. Somente a excelência e qualidade da educação é capaz erradicar ignorância e melhorar os padrões de vida da sociedade. A partir de quando se quer cultuar o demérito e não o mérito caminha-se em marcha batida para o abismo.

E estar-se tentando implantar na Universidade Federal de Mato Grosso a cota de acesso para alunos vindos das escolas públicas. Certamente por que estes são menos preparados do que os alunos das escolas privadas e não conseguem, conforme se propaga, entrar em cursos onde a concorrência é maior.

Por que antes de se estrangular o acesso a universidade publica, não se pensa em melhorar o ensino público. O aluno advindo da escola pública não melhorará a sua deficiência do ensino médio na universidade e, com certeza, piorará o nível da universidade. O equívoco desta idéia é uma rotunda política de caranguejo que anda para traz. É uma manifesta agressão ao óbvio.

Esta gloriosa invenção nos faz lembrar a fábula do urubu e do pavão. O pavão olha para o céu e vê o urubu planando e indo a todos os lugares. Ele fica ressentido com isto por ser um animal que não voa e somente percorre pequenos espaços.

Por seu lado, o urubu olha para o chão e vê o esplendoroso pavão, com suas penas multicoloridas que ao olhar de todos encanta. E fica, também, ressentido por não ser tão belo. Então resolve descer e conversar com o pavão. Após uma longa conversa onde trocam as impressões acima, surge uma genial idéia. Por não nos cruzamos? Já pensou como seria um animal com as minhas e as suas qualidades! E não se fizeram de rogados. Cruzaram. E para surpresas nasceu desse cruzamento o peru. Feio que nem o urubu e sem voar como o pavão.

Invenção como a das cotas para alunos das escolas públicas na universidade publica, vai, com certeza, transformar parte da universidade em uma fábrica de perus. Onde não prevalece o mérito, o bom senso e a razão, certamente triunfará a mediocridade, com as devidas escusas, para quem pensa em contrário.

Está na hora de trabalhar para mudar e melhorar a educação neste Pais, sem os resvalos para atalhos que somente nos levará ao subdesenvolvimento e ao atraso.

Este artigo foi escrito, há pouco menos de um mês, quando se estava discutindo esta questão da UFMT. Ontem, conforme noticiam os jornais, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFMT aprovou a reserva de vagas, na proporção de 30% para os alunos advindos das Escolas Públicas e 20% para negros vindos, também, das escolas públicas.

Fica-se assim: 50% privilegia o mérito e 50% o demérito. Os menos preparados e a cor da pele resultaram em privilégio. Com certeza uma discriminação. É a glorificação do atalho. Os mais capacitados e preparados vão ter que estudar mais e disputar apenas 50% das vagas.

Esta questão é muito grave, com reflexos tão profundos para a sociedade, que não deveria somente depender de uma decisão colegiada. Este é o Brasil que insiste em andar de marcha-ré.

RENATO GOMES NERY é advogado em Cuiabá.
rgnery@terra.com.br

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