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Cuiabá, 14 de Junho de 2026
14 de Junho de 2026

04 de Novembro de 2013, 08h:56 - A | A

OPINIÃO / RELEMBRANDO O PASSADO

Nossa santidade

Na frente de Dom Pedro, eu me senti uma pessoa privilegiada

RODRIGO RODRIGUES



Durante a campanha de 2010, depois de um giro pela região oeste, percebi que a maioria dos municípios visitados estava sem representantes de nossa coligação e os comitês, já autorizados, estavam no papel ainda. Eu era uns dos cincos coordenadores da campanha Mauro Mendes e Pedro Taques, e representava na coligação o PDT.

No retorno fui falar direto com o coordenador geral Mauro Carvalho e expliquei a ele que era necessário dividir o estado em cinco regiões, e que cada coordenador saísse da refrigerada sala do Comitê Central, que funcionava em Várzea Grande, e botasse o pé na estrada, caso contrário, a eleição chegaria ao fim e Mauro e Pedro não teriam nenhuma base nos principais municípios.

Carvalho entendeu na hora e me deu carta branca. Cheguei ao Comitê Central peguei um mapa e dividi o estado em cinco regiões. Cada um dos quatros partidos da coligação, PDT, PV, PPS e PSB, representados por um coordenador, com exceção de Moisés Sachetti, assumiu o comando de uma região.

O critério inicial seria partidário, onde o partido representado tinha mais força ou mais liderança, mas não foi o que prevaleceu, enfim, por um motivo ou outro ninguém quis ficar com o Araguaia, que conta com 33 municípios, de Alto Taquari até Vila Rica, mais de mil quilômetros.

Nasci em Alto Araguaia e passei parte de minha infância em Barra do Garças, logo, quando ninguém quis pegar a região eu topei e rapidamente comecei a planejar minha viagem.
Durante a reestruturação que fiz no PDT de Mato Grosso visitei vários municípios do Araguaia, entretanto, nunca abaixo de Canarana, ou acima, dependendo do ponto de vista.

Aos 9 anos de idade sempre viajava com meu pai, que era delegado de Fazenda em Barra do Garças e sua jurisdição ia até a divisa com o Pará. Conheci toda região com ele, mas depois que nos mudamos para Cuiabá nunca mais tinha retornado àquela região, que é chamada de Baixo Araguaia.

Depois de três dias de viagem, lá pelas 15 horas chegamos à cidade de Cocalinho e, já de tardezinha, saímos rumo a São Félix do Araguaia. Cruzamos por uma estrada que passa por diversas fazendas e vai margeando o Rio Araguaia. O momento foi único, a beleza daquela região é esplêndida e ao por do sol o silêncio reinou por mais de uma hora dentro do carro e só foi rompido quando um dos companheiros de viagem disse: “Que coisa maravilhosa, obrigado Senhor!”, e o silêncio voltou.

Chegamos a São Félix já passava das 22 horas e um grupo de apoiadores estava nos esperando para uma reunião. Durante a reunião que foi improvisada em um bar flutuante, na beira do Rio Araguaia, eu fiquei sabendo que um de nossos companheiros, que ali estava, era membro ativo dos movimentos de base da Prelazia de São Félix e amigo de Dom Pedro Casaldáliga.

Aí veio a grande surpresa e talvez um dos momentos mais importantes de minha vida, nosso companheiro tentaria marcar uma visita a Dom Pedro na manhã seguinte.

Cansado da longa viagem, deitei e apaguei, mas às 6 horas já estava de pé e ansioso pela resposta, Dom Pedro iria ou não nos receber? Meia hora depois veio a resposta. Ele iria nos receber.

Ouvi falar de Dom Pedro pela primeira vez quando ainda era muito jovem, através de meu pai.

Quando ingressei na Juventude Socialista do PDT, em 1990 no Rio de Janeiro, é que fui realmente ter a dimensão de quem era o Bispo da Prelazia de São Félix, sua luta, suas causas, seus pensamentos e seu lema pastoral: “nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”.

Dom Pedro veio para o Brasil em 1968 e em 1970 foi nomeado administrador apostólico da Prelazia de São Félix do Araguaia e, no ano seguinte, nomeado Bispo do prelado pelas mãos do Papa Paulo VI.

Adepto da Teologia da Libertação, Dom Pedro bateu de frente com a Santa Sé. De forma severa iniciou uma série de críticas em relação à hierarquia da Igreja, pois para ele unidade é descentralização. Sua relação com Roma piorou ao defender a ordenação de mulheres e o fim do celibato. “A igreja deve se abrir ao diálogo em lugar de excomungar e proibir”, diz Dom Pedro.

Ao defender a Revolução Cubana e a Revolta dos Chiapas no México, foi alvo de diversos processos de expulsão durante a ditadura militar, sempre tendo como defensor Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo de São Paulo, que sempre intercedia a seu favor.

Sua luta em prol dos sem terras quase o levou à morte e, ainda hoje é ameaçado. O caso mais famoso foi o assassinato do padre jesuíta João Bosco Burnier, morto pela polícia no povoado de Ribeirão Bonito.

Voltando à visita, lá estou eu, às 7h30 da manhã, entrando em sua casa, uma casa simples, mas aconchegante. Dom Pedro me aguardava sentado, lendo um livro e tomando um café. Confesso que neste momento fiquei sem palavras, só observava aquele espanhol franzino que tremia um pouco as mãos ao segurar o livro.

Conversamos sobre política, teologia da libertação, índios e sem terras. Foi uma manhã inesquecível e extremamente prazerosa. O tempo passou rápido, já chegava a hora do almoço e tínhamos que seguir para Luciara, o que foi uma pena.

Já conheci grandes homens, a começar pelo meu avô Ondino, que não era respeitado somente pela sua coragem, mas acima de tudo pela envergadura moral, assim como meu tio, Dr. Menom. Conheci Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, por quem tenho uma enorme admiração. Minha casa já foi frequentada até pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek. Não sou de ficar deslumbrado, mas ali, na frente de Dom Pedro, eu me senti uma pessoa privilegiada.

Mato Grosso está mergulhado em um abismo de diferenças sociais. Noventa por cento da população não tem acesso à riqueza que brota de nossas terras. Os últimos governantes se preocuparam com estradas, logística, como lucrar mais e alavancar seus negócios e o de seus apaniguados. Há mais de uma década que não temos uma política social séria, que priorize a inclusão social e uma melhor distribuição de renda, a começar pelos serviços públicos essenciais.

Espero que aquele que se propuser a governar nosso Estado deve antes de tudo, ir até o Bispo, escutá-lo, assimilar suas palavras, pedir sua benção e se comprometer com as causas dos mais necessitados, abraçar os descamisados, os pés no chão, os sem terras, os excluídos.

De nada adianta sermos pequenas ilhas de prosperidade cercados por oceanos de miséria.

Dom Pedro deve ter por volta de 85 anos, a maior parte de sua vida passou aqui em Mato Grosso, Estado que o adotou e que foi adotado por ele, com certeza aqui será enterrado.

É uma das maiores personalidades vivas de nosso País, reverenciado no mundo todo, mas pouco valorizado por aqui.

A única cidade a reconhecer sua importância até hoje foi Rondonópolis, na gestão de Zé Carlos do Pátio, dando seu nome a um bairro popular.

Em um Estado que faz apologia ao rei da soja, ao rei do gado, ao rei do garimpo e, até ao rei da hipocrisia, é chegada a hora de saudarmos e prestarmos a justa homenagem ao Rei do Povo.

”Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima nossa igreja.”

Viva Dom Pedro, viva o povo de Mato Grosso!

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