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24 de Dezembro de 2014, 14h:51 - A | A

OPINIÃO /

Natal e vidas pobres

Desejo a todos uma vida menos pobre, com mais livros, pinturas, músicas, danças, caminhadas

ROBERTO BAOVENTURA



Em clima de Natal, exponho minhas últimas reflexões de 2014.

Pelo título do artigo, seria possível supor que eu comentasse, p. ex., sobre “Boas festas”, a música natalina mais cantada no Brasil, superando “Noite Feliz”, que de feliz – melodicamente – não tem nada.

“Boas festas” é aquela música do “Anoiteceu, o sino gemeu...”; ela é de Assis Valente, um profícuo compositor brasileiro que cometeu suicídio.

Em função de depressão e dívidas, o eu-lírico de Assis, no restante da canção, dialoga com o Papai Noel, pedindo-lhe apenas a “felicidade”, que –assim como o seu “Papai Noel” – não vem obviamente.

Mas não falarei disso. Falarei de outro tipo de pobreza. Para tanto, ancoro-me em uma entrevista concedia pelo filósofo canadense Barry Stroud à Folha de São Paulo (FSP).

O título da entrevista – publicada em 09/12/2014–pretende antever a essência do que Stroud pensa: “Pessoas estão mais ricas, mas vida hoje é mais pobre”.

Ainda que, nas extremidades das pirâmides sociais, os mais ricos estejam ficando ainda mais ricos, e os mais pobres, ainda mais pobres, inclusive no “Brasil para todos”, o fato é que um grande contingente de humanos –a maioria inserida nas tais “classes médias” de países emergentes –tem tido acesso a bens de consumo produzidos em sociedades capitalistas, dessas em que do Cristianismo – tão comemorado hoje – não sobrou mais do que o cinismo e o consumismo generalizados.

Para atenuar esse vazio já antigo da humanidade, cada vez mais miserável, tudo vale. Nesse vale-tudo, aquela figura vestida de vermelho e com barbas brancas exerce, a cada Natal, fascínio entre crianças e até em adultos infantilizados.

Pois bem. Dos dois parágrafos acima, dois destaques:

a) o acesso de bens de consumo a um contingente significativo de humanos;

b) o vazio da própria humanidade.

Como assim, indagaria alguém? Como pode a humanidade aprofundar-se num vazio se agora tantos já podem obter bens que outrora nem em sonho podia?

Penso que Ruy Castro, no artigo “Intimidade essencial” (FSP: 17/12/2014), começa a responder isso, quando diz:

“Minha geração sofreu com... muitos professores de português, mais preocupados com a ‘pureza’ da língua do que com a discussão sobre os escritores que realmente diziam coisas. À falta desse estímulo, os próprios garotos se encarregavam – uns torciam por Jorge Amado; outros, Graciliano Ramos; eu lia Nelson Rodrigues...”

Por falar em leitura, de sua parte, Stroud responde à seguinte questão: “O fato de as pessoas hoje estarem sempre conectadas muda a forma de pensar?”

Eis a reposta: “Drasticamente. A atenção das pessoas hoje é menor; elas leem menos... Suponho que muitos dos meus alunos nunca tenham segurado um livro. As pessoas... gastam tempo nenhum em reflexão. Raramente se vê pessoas andando sozinhas sem estar com fones de ouvido, celulares...”

Diz ainda: “as pessoas vivem hoje melhor do que há cinquenta anos... mas a maioria das pessoas tem vidas menos ricas do que as que viviam confortavelmente há cinquenta anos. Suas vidas são menos ricas, mas não economicamente”.

E conclui Stroud: “As pessoas pensam em preencher suas vidas com coisas, não têm interesses variados. Ler livros, ver pinturas, escutar música, caminhar pela natureza – tudo isso trazia uma vida mais rica do que ficar em frente à TV, falar ao celular, entrar em redes sócias...”

Neste Natal, desejo a todos uma vida menos pobre, com mais livros, pinturas, músicas, danças, caminhadas... Que todos tenhamos menos tempo para celulares, televisão, redes sociais...

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é doutor em Jornalismo pela USP e professor de Literatura na UFMT.

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