EDUARDO GOMES
Pascoal Moreira Cabral encabeçou a ata de fundação de Cuiabá no remoto 8 de abril de 1719, num ambiente social incompatível com o mundo atual. Presentes ao ato, mas sem participar ativamente do mesmo por serem tratados como se fossem lixo da humanidade, negros escravos e índios capturados a tudo assistiam.
Nas mãos de Moreira Cabral, Cuiabá surgia no vazio demográfico numa área grilada ao Reino da Espanha e agredida ambientalmente pela cata desenfreada do ouro. A cidade crescia e ganhou uma igreja a Nossa Senhora do Rosário, ao lado da qual se ergueu uma capela a São Benedito: pobre passado do ‘sagrado’ racismo que negava aos escravos acesso ao templo dos brancos reservando-lhes o direito à oração ao santo de sua devoção na capelinha em anexo.
O tempo passou. Faltam quatro anos para Cuiabá chegar ao restrito grupo das cidades brasileiras tricentenárias. A escravidão foi abolida, não se capturam mais índios, a mineração ganhou ordenamento e São Benedito virou santo cult. É preciso reconhecer que ocorreram avanços e a dimensão urbana não deixa dúvida que a cidadezinha de Moreira Cabral virou importante metrópole regional cercada de América do Sul por todos os lados e cantada em prosa e verso pela apologia bairrista, que devem ser mantidos, mas sem ofuscar a outra face da nossa capital, aquela da falta de saneamento, da precariedade viária, da violência desenfreada, da ultrapassada estrutura das escolas estaduais e municipais, da saúde capenga e de tantos outros problemas.
O tricentenário é um marco que deve servir de inspiração aos homens públicos para uma guinada administrativa em Cuiabá. Acredito que seria importante a imediata criação de uma comissão formada por representantes do Estado, União, prefeitura e entidades (nada de cargos remunerados, basta dar mais uma função ao servidor escolhido) para debater os problemas locais e do aglomerado urbano. Quatro anos é tempo relativamente curto, mas nem por isso insuficiente, para se planejar e executar um projeto transformador que a cidade carece e a população tanto almeja.
Sem fogueiras da vaidade, sem a preocupação de se estabelecer comparativo de conduta na vida pública, sem individualismo e somente com o espírito público, os donos do poder precisam transformar Cuiabá.
Tomara que a comissão sugerida seja criada e que o governador Pedro Taques e o prefeito Mauro Mendes a façam funcionar a todo vapor dando à mesma os mecanismos públicos necessários; e que a Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal facilitem seu trabalho – o mesmo espero da bancada federal. Não tenho bola de cristal, mas acredito que se não houver ordenamento funcional específico o tricentenário será marcado pelo caos e os tradicionais discursos melosos.
EDUARDO GOMES DE ANDRADE é jornalista
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