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Cuiabá, 18 de Julho de 2024
18 de Julho de 2024

30 de Outubro de 2017, 08h:10 - A | A

OPINIÃO / RENATO DE PAIVA PEREIRA

Bullying

Queria falar também dos exageros com racismo e trabalho escravo



Palavras usadas para definir sentimentos e sintomas podem também causá-los.

Veja o caso do termo estresse, que entrou no linguajar popular aqui do país há mais ou menos 15  anos.

Antes dele, a gente ficava normalmente cansado muitas vezes, entediado outras, mal humorados muitas.

Mas, corriqueiramente, estes sintomas eram encarados como normais, muito pequenos para  justificar faltas ao trabalho ou ausências da escola.

Aí, um dia copiamos do inglês a palavra estresse (stress) que passamos a usar para definir cansaço, desânimo, apatia, mas também para justificar preguiça ou malandragem para tirar alguma vantagem.

Do estresse para a depressão foi um pulo. A tristeza, desânimo, sensação de infelicidade ou desalento, ainda que passageiros, passaram a ser chamados de depressão e tratados como tal.

Um pouco depois, adicionamos a palavra LER (lesão por movimentos repetitivos), nome novo para um mal antigo, que no passado raramente afastava alguém de suas obrigações.

Incorporada, a palavra foi um fila ao ortopedista e muitas ausências do serviço.

Os estressados e os acometidos por LER abusaram dos atestados médicos para encobrir a malandragem, a indolência e a preguiça.

Mais recentemente copiamos, também  do inglês, a palavra bullying, que no original define um tipo de agressão física ou psicológica intencional e recorrente.  

Distorcida, ela está servindo para qualificar qualquer brincadeira feita entre adolescentes ou crianças, que, de alguma maneira, desagrada a pessoa atingida pelo gracejo.

Da mesma forma que o estresse criou uma legião de deprimidos e o LER, uma  epidemia de doentes, o bullying está gerando, entre pais e professores, comportamentos, que, buscando proteger seus filhos ou alunos de supostas chacotas, estão, de fato, criando uma geração de pessoas carentes, que basta receber um apelido para reclamar com a família ou professor que está sendo vítima de zombarias dos colegas.  

O mundo não é um lugar ideal que queremos para nossos filhos. Eles estão aí nas escolas, nos campos esportivos, na interação entre colegas e na vida social sendo forjados para uma vida adulta saudável. 

Não adianta querer poupar-lhes essa fase. A resiliência, ou seja, a capacidade de suportar as provações da vida, exige exposição às contrariedades e frustrações.

Claro que há casos extremos que merecem ação dos pais e principalmente da escola, mas são raros.

A maioria, entretanto, passa esse momento com tranquilidade sem a interferência de adultos incautos que tentam protegê-los.

Algumas pessoas estão mais sujeitas à discriminação como acontece com quem foge do padrão comum, físico ou intelectual. 

Esses precisam ser protegidos, mas com muita discrição para não tornar o ato de proteção mais nefasto que o bullying.

Ou, dito de outra forma, tornar o remédio pior que o veneno.

Queria falar também dos exageros com racismo e trabalho escravo.

Acabou o espaço, fica pra outra vez.

RENATO DE PAIVA PEREIRA é escritor e empresário em Cuiabá.

[email protected]

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