Cuiabá, 30 de Novembro de 2022
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30 de Setembro de 2022, 06h:04 - A | A

OPINIÃO / CAMILA BECKENKAMP

Na dor, encontrei minha paixão



Primeiramente, quero contar minha história e fazer com que você mesmo sem me conhecer, possa mergulhar no mar do Caribe cheio de experiência junto comigo.

Desde pequena, brincava com uma amiga de infância com brinquedos de consultório médico. Logo, consegui realizar o sonho e seguir o caminho da medicina. Um caminho que não foi fácil.

Sou de Cuiabá, e em 2008 aos 19 anos de idade, fui para Cuba estudar medicina na Escola Latinoamericana de Medicina (ELAM), uma universidade pública internacional cubana com sede em Havana, Cuba, fundada em 1999 e localizada ao nordeste da capital.

O primeiro ano foi de muita adaptação, como aprender um novo idioma, lidar com desastres naturais, conviver em república, e relacionar-se com pessoas de outras nacionalidades. Eram em torno de 2500 alunos estrangeiros, de aproximadamente 23 países participando do projeto ELAM nos dois primeiros anos da faculdade.

O local em que morávamos, lembrava um quartel naval, até porque pertenciam à Academia Naval "Granma", que era marcada por sua beleza, cercado de praia azul turquesa e ao fundo canal de água verde musgo. A vista da biblioteca era uma vista memorável.

Passamos por período de desastres naturais no ano de 2008, e naquela ocasião, meu primeiro contato com furacão, pude presenciar a solidariedade e acolhimento de perto diante de uma contexto de estar morando em outro país, longe da minha família e sendo acolhida por um país que me sentia em casa.

Nesse momento, pude ter a experiência de ser uma estudante brasileira vivendo em Cuba.

Dividia o apartamento com 5 estudantes de medicina. Uma parte do meu mundo, tinha apenas 2 metros, dentro dele estava a minha cama, na qual eu colocava uma cortina adaptada e desfrutava meu espaço, onde dormia, estudava em uma mesa de madeira, assistia filme ou escutava músicas caribenha e muitas vezes, brasileira. Me lembro de uma felicidade que não cabia em mim, o momento em que eu comprei meu ventilador, após 1 ano de faculdade, era uma emoção como se estivesse comprado um carro.

No final do quinto ano de faculdade, em meados de julho de 2013 antes de sair de férias, iniciei um processo de emagrecimento, perdi cerca de 10 kg em aproximadamente 3 meses. Eu estava em um momento de modificação de estilo de vida, negando qualquer patologia até retornar ao Brasil de férias e meus pais me verem no aeroporto e afirmarem que não estava bem e sim com problemas de saúde.

Então, decidi realizar exames de rotina e me lembro bem de estar na casa da minha tia-mãe, aonde me ligaram do laboratório para pegar o resultados de exames, veio glicemia de jejum de 319 mg/dl e hemoglobina glicada (HbA1C) de 16,4%, associado a quadro de anemia ferropriva, sem presença de sangramento. Naquele momento, busquei atendimento médico especializado e foi meu primeiro contato com a especialidade de endocrinologia.

Iniciado investigação para a diabetes e doença celíaca, sendo confirmado o diagnóstico. Nesse momento conclui, que não estava bem. E com isso, aprendi a lidar com dois novos diagnósticos de uma só vez. Por outro lado, pude sentir a emoção de me ver sentada na cadeira como médica endocrinologista atendendo pacientes com o mesmo diagnóstico e compartilhando minha experiência de vida.

Desde o diagnóstico, precisei usar insulina e uma dieta restrita, pude me adaptar e entender os pontos positivos do tratamento.

Recebi o apoio dos meus pais, e a segurança para ficar ao lado deles, mas decidi voltar para o meu objetivo, e realizar o meu sonho e da minha família de ser médica.

Então, voltei para Cuba após as férias em setembro de 2013, com a certeza que esses anos iriam passar, e escolhi que fosse da melhor forma.

Em 2014 retornei ao Brasil, para minha cidade natal. Momento que exigiu uma nova realidade, enquanto esperava o processo de revalidação, ajudei meus pais no comércio da família, nossa sorveteria. E com um ano dedicando integralmente para a revalidação, consegui revalidar meu diploma de medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG.

Após revalidação, no início de 2016, fui aprovada no processo seletivo em Nova Mutum-MT. E, no meu primeiro dia de trabalho, conheci meu amor.

Optei por trabalhar por quase 3 anos em posto de saúde, plantões de urgência e emergência, grupo de tabagismo, remoções hospitalares e atendimento pré-hospitalar para me preparar financeiramente para a residência médica.

Em 2019, fui aprovada na residência de Clínica Médica no Hospital de Câncer de MT HCAN-MT. Conclui a residência em 2021, logo em seguida, fui aprovada no serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital Federal Servidores do Estado do Rio de Janeiro- HFSE com previsão de conclusão em Fevereiro de 2023.

Hoje, 10 anos após o diagnóstico de diabetes e doença celíaca, aos 33 anos de idade, meu sentimento é de gratidão por cada experiência vivida, e tenho a convicta certeza que na minha dor, encontrei minha paixão.

Camila Beckenkamp é médica, residente de Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital Federal Servidores do Estado do Rio de Janeiro (HFSE/RJ). Especialista em clínica médica, membro residente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia-SBEM, formada pela Escola Latino-Americana de Medicina - ELAM / Cuba.

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