Cuiabá, 31 de Janeiro de 2023
logo

16 de Dezembro de 2014, 09h:23 - A | A

OPINIÃO /

Mortes banais

A morte do coitado lá na ponta é apenas a parte visível de uma cultura crescida dentro do Brasil

ONOFRE RIBEIRO



 

Mato Grosso encerrará 2014 aproximando-se das 500 mortes violentas. Na média dá 1,3 mortes por dia. Isso equivale a um estado de guerra civil. 

Embora os números por si só indiquem que a questão é complexa, o tratamento que tem se dado é meramente burocrático. 

A Polícia prende, a Justiça solta, como se ambos fossem inimigos entre si ou vivessem em continentes diferentes. Aqui surge o primeiro dos inúmeros problemas: os feudos de poder. 

Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público, Poder Judiciário e Sistema Prisional são feudos independentes de poder e se comunicam precariamente. 

Ou, se desgostam publicamente. Contudo, são pagos com os impostos públicos arrecadados da população, a maior vítima da violência generalizada.

Só essa relação cheia de ruídos, de interesses e de burrices, bastaria para justificar as mortes registradas. Mas tem mais ainda. 

 

A motivação da criminalidade começa na fronteira com a Bolívia, passa pelas cidades na forma de um grande negócio de compra e venda de drogas, de compra e venda de armas, do financiamento do negócio via assaltos a bancos roubo de carros, de cargas e de estabelecimentos comerciais.

O cenário do narcotráfico é abrangente, cruel, organizado e politizado. Tem regulamentos rigorosos com leis de punição e morte, criados dentro dos presídios, onde os líderes estão inalcançáveis justamente pelas leis penais. 

Na verdade, o chamado crime organizado que é a moldura de tudo isso, não é exclusividade de Mato Grosso. 

É uma organização nacional, com articulação internacional poderosíssima, passando por cartéis, por grupo políticos e por grupos econômicos. 

A morte do coitado lá na ponta é apenas a parte visível de uma cultura crescida dentro do Brasil. 

Muito além de uma simples ocorrência de natureza policial, esconde um mundo poderoso e articulado.

O coitado morto lá no bairro é só o sinal visível de que alguma coisa está funcionando à margem. 

O mais, são delírios de que a ordem pública se resolve só com a polícia na rua. Ela também é vítima! A primeira na cadeia de responsabilidades!

ONOFRE RIBEIRO é jornalista em Mato Grosso
[email protected]
www.onofreribeiro.com.br

>>> Siga a gente no Twitter e fique bem informado

Comente esta notícia