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19 de Março de 2016, 08h:30 - A | A

OPINIÃO / LEANDRO CARVALHO

Mudança da Capital

Olhamos para o futuro com a convicção que estamos no caminho certo.

Leandro Carvalho

LEANDRO CARVALHO



O grande sociólogo Gilberto Freyre escreveu um livro pouco conhecido sobre um homem extraordinário, Luis de Albuquerque, governador de Mato Grosso ao longo de 17 anos, no fim do século XVIII. Dom Luis governou Mato Grosso a partir da então capital Vila Bela da Santíssima Trindade, no extremo oeste do país, na fronteira com a Bolívia, cidade que nos últimos dias voltou a ser a capital do Estado, num gesto simbólico do Governador Pedro Taques de grande importância.

Mesmo distante mais de mil e quinhentos quilômetros do litoral, nos dias de Dom Luis de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, Vila Bela tinha uma intensa vida cultural, misturando expressões locais e europeias. Freyre descreve em seu livro que não havia lugar com tantas representações de comédias, recitativos de poesia, danças e bailes no Palácio (o mesmo que reformamos e que serve de sede ao Governador Pedro Taques), e cavalhadas na praça.

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Dom Luis fazia com que apresentassem as “tragedies” de Voltaire, promovia bailes de máscara, festas e muitos banquetes. Era apreciador da boa mesa, tendo promovido dezenas de banquetes para homenagear a realeza portuguesa, estreitar os laços diplomáticos, comemorar os dias de santos ou saudar os oficiais que faziam a demarcação de limites da região. Faz-me lembrar do incrível filme dinamarquês A Festa de Babette. Nos seus dias de Governador, não permitia que nas reuniões realizadas no Palácio do Governo “dominasse o costume mourisco-português de as senhoras serem quase sempre excluídas”.

Gilberto Freyre compara Luis de Albuquerque a Mauricio de Nassau pela atenção e apreço pelas artes, e por combinar “de modo admirável” a ciência à administração de “terras e gentes tropicais“. Dom Luis de Albuquerque teria sido um dos mais “realizadores” dentre todos os governadores que Portugal encarregou de desbravar terras, levantar povoações, estabelecer lavouras, construir fortes, explorar rios, e guarnecer fronteiras nos trópicos americanos; e “um dos maiores tropicalistas que Portugal teve a seu serviço no Brasil”.

Pela sua cultura e por sua perspectiva cientifica dos problemas sociais, Freyre também o compara a José Bonifácio e Couto Magalhães, e como indigenista, a Marechal Rondon. Para ele, Dom Luis se destacou pelos aspectos positivos de sua ação, sabendo ser homem independente de preconceitos de casta, quando fidalgo, e juntar aos cuidados militares as preocupações de administrador civil, político, diplomata, e homem de Estado. Tudo isso orientado pelo melhor saber de sua época.

Neste momento importante da transferência simbólica da capital, lembramos com orgulho de nossa história, e olhamos para o futuro com a convicção que estamos no caminho certo para uma grande transformação de Mato Grosso.

Leandro Carvalho é Secretário de Estado de Cultura de Mato Grosso.

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