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27 de Dezembro de 2013, 09h:11 - A | A

OPINIÃO /

Copa do Mundo dá câncer

Desapontamento e desilusão causam depressão e este é o ponto da discussão que o artigo propõe

GUILHERME BEZERRA DE CASTRO



O que tem a ver esporte com doença? A atividade esportiva é de conhecimento universal que reduz todos os riscos de desenvolver câncer, mas a ansiedade pela expectativa da chegada dos jogos pode alterar, para cima, de alguma forma a incidência da doença.

A população das cidades sede da competição sofre com uma expectativa desde a sua escolha, especialmente aquelas que disputaram com outras a primazia de receber a competição. Manaus, Natal e Cuiabá foram as mais atingidas por esse fenômeno. Depois, surgiram as dúvidas da capacidade de conseguir realizar aquilo que propuseram à FIFA. Vejamos o crescente de ansiedade que os cuiabanos foram submetidos.

Em maio de 2009, em nossa cidade, o povo foi às ruas comemorar a escolha, sobre a nossa eterna concorrente, Campo Grande, e bordões foram criados pelos governantes, tal como “chupa essa manga”, num misto de vingança e zombaria, e assistimos ao longo desses quatro anos e meio o risco de nós termos de engolir a manga com caroço e tudo. A euforia se transformou em ansiedade. As obras anunciadas se arrastam como pesadelo para todos os moradores da cidade, interferindo no dia-a-dia e no humor das pessoas. Esse assunto, mesmo estando roto e moído, ainda é o principal nos bares e nas casas.

Para quem vive ao lado das intervenções ou foi diretamente afetado o horror é ainda maior, com suas casas destruídas e desocupadas, sem que nenhuma obra surja no local ou fique concluída. Comércios foram fechados e famílias perderam seu sustento, tudo em pró do bem comum que deve ser sempre mais valorizado do que o individual, compreensível quando esse bem se realiza. Em situações de sucesso as pessoas atingidas se sentem orgulhosas de terem realizado um sacrifício pela comunidade. Como em países que vão à guerra e saem vencedores. Os Pracinhas da FEB são homenageados e lembrados até hoje com heróis, mas estariam esquecidos se perdêssemos a guerra.

Desapontamento e desilusão causam depressão e este é o ponto da discussão que o artigo propõe.

Além da evidente alteração que a cidade está sofrendo, ainda assistimos anúncios de datas de inaugurações que não acontecem. Isso causa um enorme dano psíquico coletivo que não está sendo avaliado e considerado no contexto da euforia inicial da Copa no Pantanal. Uma analogia pode ser feita com as crianças na véspera do Natal que desenvolvem uma enorme ansiedade com a data para ganhar o presente esperado e choram de decepção se não o recebe. Isso acontece com os adultos também, porém é suportado se o evento é esporádico, mas o que está acontecendo conosco com certeza vai causar danos em alguns indivíduos e que não será contabilizado nesse processo de ansiedade provocado por residir numa cidade escolhida como sede.

Muitos serão os críticos desta minha opinião e com certeza não serão aqueles afetados pela situação de caos e sim aqueles que ainda estão sob a euforia do “chupa essa manga” de 2009. Não quero criar uma teoria de pânico nem de pessimismo, mas sugerir que possamos refletir sob aspectos que não estão sendo contabilizados. Como em todas as situações, os perdedores são esquecidos e ficarão nas filas de espera por tratamento pós-copa. Isso é o aceitável e tolerado em todas as sociedades pelo planeta. Imaginem quem está envolvido diretamente na condução do projeto da copa, o risco calculado a que estão expostos. Mas, isto deve estar incluído na remuneração como insalubridade do ofício.

Estudos recentes imputam a ingesta exagerada de álcool e o tabagismo à uma ansiedade individual, responsável pela necessidade de extrair o mau estar causado pela depressão.

Cientificamente, está estabelecido que o stress mantido por longo período altera substancialmente a nossa função hormonal. Adrenalina, Insulina, Dopamina, Tiroxina, e outras “inas” que regulam o funcionamento cerebral e que fora deste agridem determinadas células, pelo resto do corpo, produzindo elementos oxidativos que induzem mutações que promovem o câncer.

Parece uma conta difícil de obter esse resultado negativo, mas só pensamos nela quando somos surpreendidos pela doença e então vem aquela pergunta sempre presente. O que eu fiz de errado? A resposta é: o que não fiz certo e neste caso o que deixei que fizessem de errado por mim!

GUILHERME BEZERRA DE CASTRO é médico cirurgião, oncologista e mastologista em Cuiabá.

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