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Esqueça o leite condensado ou em pó, a banana e a granola cheia de mel. Deixe de lado tudo ou quase tudo o que as pessoas resolveram misturar à polpa dos frutos da Euterpe oleracea, a palmeira tropical mais conhecida como açaizeiro da Amazônia, quando ela pegou a estrada para o sul conquistando, primeiro, a turma frequentadora de academias em várias bandas do país. Hoje, de tão difundida pelo território nacional, viajando congelada para todos os cantos. é até fácil encontrar em cada esquina uma tigela cheia do creme roxo escuro e espesso. Só que, em geral, deslocada de suas origens, ela já vem bombada com outros ingredientes. Se for pelo coração, esqueça.
No que depende da ciência, precisamos respeitar um pouco mais a tradição dos nortistas: açaí bom é açaí, de preferência, puro. O que me faz lembrar até o meu sogro, do Pará, quando urrava à mesa revoltado se lhe ofereciam, na melhor das intenções, um açaí misturado com um extrato de guaraná para lá de doce. Aliás, no caso dos hipertensos, guaraná nem pensar.
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Se der, experimente tomar o açaí sem açúcar. Se não der, se for assim difícil de engolir, com pouco açúcar então. Aí, a novidade é que o hábito ajuda a baixar a pressão, o que acaba de ser publicado no International Journal of Cardiovascular Sciences pelo nutricionista mineiro Heitor Oliveira Santos, pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
Santos investiga o impacto da dieta na saúde cardiovascular — e não é de hoje. Para o artigo, ele se debruçou em nove trabalhos rigorosos sobre a ação da fruta no peito. E, apesar da merecida fama entre os seus consumidores de melhorar o perfil lipídico, isto é, das gorduras no sangue — em boa parte, verdade também — , o efeito mais importante do açaí para o coração parece acontecer nas paredes dos vasos sanguíneos, que simplesmente ficam mais relaxados após o consumo.
"Isso ocorre por causa das antocianinas", explica o nutricionista. E antocinaninas, bem, o açaí tem de montão: são os pigmentos que lhe dão o roxo, em um tom escuro por causa justamente concentração dessas substâncias. Além de potentes antioxidantes, as antocianinas inibem as moléculas da enzima conversora de angiotensina.
Sei, o nome é complicado, mas já diz tudo: uma enzima que ativa outra, a qual, por sua vez, tensiona os vasos. Tensos, eles se tornam estreitos e o sangue só consegue passar fazendo força extra — pressionando além da conta como se tivesse de abrir caminho, entende? "Já é conhecido o potencial das antocianinas para barrar essa reação em cadeia que colabora para a hipertensão. A flor do hibisco, por exemplo, vem sendo estudada pelas mesmas antocianinas", conta o pesquisador.
Mas a Medicina no tubo de ensaio é uma e toda essa teoria ficava bonita neles. Em ratos, pode ser outra — e tudo bem que um time da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ano passado, demonstrou nesses bichinhos que o açaí protegeria os rins de danos que costumam ser provocados pela pressão alta. Provelmente por dilatar ligeiramente os vasos, tirando essa dupla de órgãos de maiores sufocos. Em seres huamnos, porém, a história sempre pode ser diferente. Ainda bem que, nesse caso, não é.
Em seu artigo, Heitor Santos conta que a ingestão de 150 gramas de polpa de açaí por gente como a gente é capaz de provocar um aumento de 1,4% na dilatação das artérias. Um nadica, você pode pensar. Mas já ajuda um bocado. A dilatação acontece nas horas subsequentes ao consumo das tais 150 gramas. Foi observado porque os cientistas usaram o ultrassom com doppler, exame de imagem que mostra ao vivo e em cores o fluxo de sangue. Na experiência, conduzida com 23 voluntários, eles ficaram de olho na artéria braquial, o principal vaso sanguíneo dos nossos braços. E este logo ficu mais relax depois de uma tigela de açaí.
"Como o efeito é agudo, fácil deduzir que, em matéria de pressão, o consumo ocasional não trará resultado. Nem adianta comer açaí uma vez por semana", diz o nutricionista. "Melhor seria que virasse lanche com frequência ou todos os dias", opina. Só de ouvir a dica, aposto, há quem se arrepie pensando na questão calórica. Medo à toa: a polpa do açaí purinha, considerando os tais 150 gramas, tem menos de 100 calorias, de acordo com a tabela TACO, criada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Boa parte delas, verdade, vem de gorduras. "Mas estamos falando de tipos monoinsaturados, benefícos ao peito, semelhantes ao que encontramos no abacate e no azeite de oliva", diz Heitor Santos. E isso sem contar fibras, vitaminas e minerais que agem contra os radicais livres. "Por causa dessa composição nutricional, os trabalhos a respeito da frutra apontam alguma redução nos níveis de colesterol e de triglicerídeos no sangue", diz ele. Bem, esse mix fecha com uma chave de ouro, melhor, com doses consideráveis de beta-sitosterol (só mais um palavrão!).
O beta-sistosterol tem cara de colesterol, mas não é. E engana direitinho receptores do intestino onde o colesterol se encaixaria para ser reabsorvido. Encontrando os receptores ocupados, o colesterol derramado com a bile na digestão e presente nos alimentos só tem uma saída — e você deve imaginar qual.
Não há, porém, benefício que resista quando o açaí é servido com outras frutas — aí, o risco é aumentar demais a porção de carboidratos, inclusive. Açucará-lo demais, nem se fala. Aí, o risco é engordar, favorecer o diabetes… Enfim, obesidade e diabetes andam de mãos dadas com pressão alta. Aliás, o guaraná — embora tenha efeitos interessantes para a saúde em outras situações — também pode provocar a aceleração dos batimentos cardíacos, que nunca é bem-vinda para os hipertensos.
Sim, o jeito é não inventar moda. E, se for para inventar, pegue literalmente leve. Menos mel, nada de granola pronta — "se for o caso, melhor acrescentar você mesmo algumas amêndoas, castanhas e nozes picadas para deixar crocante, se isso agrada o paladar", dá a dica o pesquisador. A farinha de mandioca dos nortistas, se não for em exagero, não é pecado. Se quiser misturar mais alguma coisa, experimente cacau puro, para aumentar os teores de bioativos bons para o coração — outra sugestão de Heitor Santos. Ou experimente sentir o gostinho de Amazônia do açaí com… açaí!.












