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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011, 08h:57 - A | A

DANI RODRIK

O próximo pesadelo europeu

DANI RODRIK

Não fosse suficientemente aterrador pensar nas ramificações econômicas de um calote grego, as consequências políticas poderiam ser bem piores. Um rompimento caótico da região do euro causaria danos irreparáveis ao projeto de integração europeia, pilar central da estabilidade política da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Desestabilizaria não apenas a periferia europeia, altamente endividada, mas países centrais, como a França e a Alemanha, que vêm sendo os arquitetos desse projeto.

O cenário de pesadelo também seria uma vitória ao estilo dos anos 30 para o extremismo político. Fascismo, nazismo e comunismo foram filhotes de uma reação contra a globalização que vinha se desenvolvendo desde o fim do século XIX e se alimentou das ansiedades de grupos que se sentiam privados de direitos e ameaçados pela expansão das forças do mercado e elites cosmopolitas.

O livre comércio e o padrão-ouro exigiam minimizar prioridades domésticas, como reformas sociais, reafirmação cultural e construção da nação. A crise econômica e o fracasso de cooperação internacional não apenas corroeram a globalização, mas também as elites que sustentavam a ordem existente.

Como escreveu Jeff Frieden, colega de Harvard, isso abriu caminho para duas formas de extremismo. Diante da escolha entre igualdade e integração econômica, os comunistas escolheram a autossuficiência econômica e a reforma social radical. Diante da escolha, entre afirmação nacional e globalização, os fascistas, nazistas e nacionalistas escolheram a construção da nação.

Felizmente, fascismo, comunismo e outras formas ditatoriais hoje estão ultrapassados. Mas tensões similares entre integração econômica e política local vêm sendo gestadas há muito tempo. O mercado único europeu tomou forma com muito mais rapidez do que a comunidade política europeia; a integração econômica saiu bem à frente da integração política.

Como resultado, as preocupações cada vez maiores com a erosão da segurança econômica, estabilidade social e identidade cultural não poderão ser resolvidas por meio dos canais políticos predominantes. As estruturas políticas nacionais tornaram-se muito restritas para oferecer soluções eficientes, enquanto as instituições europeias ainda são muito frágeis para inspirar obediência.

Quem mais se beneficiou do fracasso dos centristas foi a extrema direita. Na Finlândia, o até então desconhecido partido True Finn aproveitou-se do ressentimento em torno aos pacotes de socorro financeiro da região do euro para ficar no terceiro lugar das eleições gerais em abril e bem próximos do segundo. Na Holanda, o partido da Liberdade, de Geert Wilders, ostenta poder suficiente para determinar quem governará; sem seu apoio, o governo liberal minoritário desmoronaria. Na França, a Frente Nacional, que ficou em segundo nas eleições presidenciais de 2002, revigorou-se sob a figura de Marine Le Pen.

A reação não se confina aos países-membros da região do euro. Na Escandinávia, os Democratas suecos, um partido com raízes neonazistas, entrou no Parlamento em 2010 com quase 6% dos votos populares. Na Grã-Bretanha, recente pesquisa mostrou que mais de 65% dos conservadores querem sair da União Europeia.

Os movimentos políticos de extrema direita se alimentam tradicionalmente de sentimentos anti-imigração. Mas as operações de socorro financeiro destinadas à Grécia, Irlanda, Portugal e a outros países, juntamente com os problemas do euro, lhes deram nova munição. Seu ceticismo com relação ao euro certamente parece justificado pelos acontecimentos. Quando se perguntou, recentemente, a Marine Le Pen se se retiraria unilateralmente do euro, ela respondeu, confiante: "Quando eu for presidente, dentro de alguns meses, a zona do euro provavelmente não existirá."

Na década de 1930, a falta de cooperação internacional aumentou a incapacidade dos políticos de centro de responder adequadamente às reivindicações econômicas, sociais e culturais de seu eleitorado doméstico. O projeto europeu e a zona do euro engessaram tanto as condições do debate que, com a zona do euro em frangalhos, a legitimidade dessas elites receberá um golpe ainda mais forte.

Os políticos de centro da Europa se comprometeram com uma estratégia de "mais Europa" rápida demais em mitigar os temores locais, mas não suficientemente rápida em criar uma comunidade política de âmbito verdadeiramente europeu. Eles se aferraram por um período excessivamente longo a um caminho intermediário instável e coalhado de tensões. Ao insistir numa visão de Europa que se mostrou inviável, as elites de centro da Europa estão pondo em risco a própria ideia de uma Europa unificada.

Economicamente, a opção menos ruim é certificar que os defaults inevitáveis e saídas da zona do euro sejam conduzidos da maneira mais ordeira e coordenada possível. Politicamente também, um teste de realidade parecido se faz necessário. O que a atual crise exige é uma reorientação explícita para além das obrigações financeiras externas e mais austeridade nas preocupações e aspirações domésticas. Assim como as economias domésticas saudáveis são a melhor garantia de uma economia mundial aberta, políticas domésticas saudáveis são a melhor garantia de uma ordem internacional estável.

O desafio é desenvolver uma nova narrativa política que enfatize os interesses e valores nacionais, sem indícios de nativismo e xenofobia. Se as elites centristas não se provarem à altura da tarefa, as da extrema direita ficarão satisfeitas em preencher o vácuo, mas sem moderação.

É por isso que o primeiro-ministro demissionário grego George Papandreou teve a ideia certa com sua convocação, fracassada, de um referendo. Essa iniciativa foi uma tentativa tardia de reconhecimento da primazia das políticas domésticas, mesmo com investidores as vendo, segundo palavras de um editor do "Financial Times", como "uma brincadeira com fogo". A desistência do referendo simplesmente posterga o dia do ajuste de contas e aumenta os custos que em última instância serão pagos pela nova liderança grega.

Hoje, a questão não é mais se a política será mais populista ou menos internacionalista; é sim se as consequências dessa mudança poderão ser administradas sem que as coisas fiquem feias. Na política da Europa, assim como na economia, parece que não há boas opções - apenas menos ruins.

*Dani Rodrik é professor de Economia Política na Harvard University e autor de "The Globalization Paradox" (O paradoxo da globalização, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2011.
 

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